segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Yes, I do"


Dizem que quando você passa por uma situação de morte iminente sua mente produz um curta-metragem que resume sua vida em segundos. No dia do meu casamento, algo semelhante ocorreu comigo, porém com uma diferença em conteúdo: vi a minha vida amorosa passar na minha frente em segundos. Segundos que iam e voltavam ao longo de todo o dia 16 de outubro de 2009. Não é à toa: sair da solteirice e tornar-se Sra. Seu Marido é também uma espécie de morte. Mas nada de luto e sentimentos negativos: falo aqui da morte como renovação, conforme é interpretada pelos mexicanos dos dois lados desta fronteira onde temporariamente habito. Finda-se uma fase e começa-se outra. E a minha nova fase, com assinatura registrada em cartório, testemunhas e alianças, foi sacramentada num final de tarde quente, úmido e lindo do outono texano, sob uma chuva de milhares de borboletas que enfeitaram o Lago Casablanca como confeti da natureza enviado especialmente para brindar os noivos.

O formato final do casamento surgiu apenas três semanas antes da data oficial. W., que no passado se casou com todas as pompas, queria fazer do seu segundo casamento uma cerimônia extremamente simples. Como casamento é também negligenciar certas vontades, acabei cedendo: em comum acordo, optamos por um formato tradicional de casamento em cartório apenas com a presença de duas testemunhas. O modelo mais simples e o mais absolutamente nada a ver comigo. Nunca sonhei com festão de casamento, nem com igreja enfeitada, nem mesmo com casamento em igreja. Mas também jamais pensei em fazer algo tão burocrático. À medida em que a data se aproximava, eu já pressentia um arrependimento que duraria pelo resto da vida. Além da minha própria vozinha interior, eu também escutava de amigas casadas (algumas pela segunda vez) e amigas divorciadas que deveríamos fazer alguma celebração. Existem momentos que definitivamente devem ser celebrados, empanados em purpurina, sorrisos de amigos e bênçãos da família, e casamento é certamente um deles. Casar não é igual ir a padaria comprar pão. Você está comprando uma viagem alucinante, sem roteiro detalhado, apenas uma vaga idéia baseada nas experiências alheias e no seus instintos mais viscerais. Foi em setembro, quando eu encontrei meu vestido de noiva perambulando pelo shopping Mall del Norte, que a entidade burocrática que havia encarnado em mim começou a ser exorcizada. E num único telefonema que dei para a juíza confirmando a data da cerimônia, todos os detalhes do que seria a minha boda-tudo-a-ver-comigo surgiram como se eu já os tivesse ensaiado ao longo dos anos. Mal acreditei quando W. não apenas concordou com o formato final, como também quando seus pequenos olhinhos verdes brilharam mais fortes quando mencionei os pequenos detalhes que tinha em mente.

Algumas fortes emoções acompanharam os últimos momentos da preparação da boda. Pavor e pânico número um: dois dias antes do casório, o zíper do vestido não fechava nem a pau! Tentei acreditar que era o fecho que estava duro, mas tive que encarar a realidade: de todas as noiva que conheci, eu fui a única que engordou. Corri para a loja desesperada e ufa, um último número num tamanho imediatamente maior ainda estava no cabide. O ajuste ficou perfeito e a saga da busca pelo tão adorado vestido finalmente acabava ali.

Pavor e pânico número dois: a cinco dias do casório a aliança de W. ainda estava na Irlanda. W., que tem ascendência irlandesa, havia escolhido um modelo celta. Eu comprei a jóia pela Internet um mês antes do casamento e jamais poderia prever tamanha demora na entrega. Acompanhamos ansiosos o percurso da aliança pelo link do site dos correios. Um dia antes da cerimônia a aliança finalmente chegou a Laredo. Entrei em contato com os correios, que para aumentar o suspense explicou que a aliança seria entregue até as 15h do dia do casamento --sendo que a cerimônia estava marcada para as 17h! --e que antes desta tentativa de entrega não poderíamos buscar a encomenda pessoalmente. Eu já previa uma daquelas alianças de doce de criança sendo usada como substituta. Na manhã do grande dia, W. contou que se casava naquela tarde e conseguiu convencer os correios a entregar o pacote antes do horário de entrega oficial. Em Laredo, tudo é possível.

O relato do dia do meu casamento com W. começa com o detalhe pensado após todos os outros detalhes: o dia de noiva. Fiz questão de que fosse digno da minha purpurinice. Apesar do dinheiro contado em minhas parcas economias, não hesitei em ir no melhor salão e day spa da cidade. Comecei com uma sauna para desintoxicar meu corpo de qualquer medo e insegurança (a noiva que disser que não sentiu uma pontada destes sentimentos no dia do seu casamento está mentindo). Dali, segui para uma salinha escura de repouso que tinha na parede uma grande foto iluminada mostrando uma caudalosa fonte, como que para levar sua mente embora naquela espuma branca. Me ofereceram água ou vinho: não hesitei em escolher o chardonnay. Com o estômago vazio, o vinho começou a surtir uma deliciosa e relaxante embriaguez. Naquele momento, o filminho da vida amorosa começou a rodar: as brincadeiras de casinha na infância (curiosamente, eu e minhas amigas quase sempre dizíamos que o marido estava viajando); a primeira paixãozinha do colégio; o primeiro beijo aos 12 anos; os amores da adolescência; os amores da vida adulta; os homens que me endeusaram; os homens que não me valorizaram; os homens que viraram amigos; os homens cujos corações eu parti...todos, até culminar com a cena daquela manhã, em que eu e W. acordamos juntos e a primeira coisa que ouvi foi "feliz dia de casamento, meu amor". Naquela sala, o compartimento sentimental da minha mente estava a mil. Pensei na cerimônia que seria dali a poucas horas, lembrei dos familiares e amigos que não estariam presentes. Uma lágrima escorreu involuntariamente, mas nada disto, o momento é de alegrias, se eu pudesse fretava um avião e traria todos para cá, ou voaríamos até o Caribe e faríamos um luau por três dias e três noites sem parar, ou colocaria todos num barco no Rio São Francisco e comeríamos bode assado durante uma semana ou então... "Senhora, por favor me acompanhe para sua hidromassagem". Aquele frenesi de neurônios fez uma breve pausa durante os segundos entre a sala de repouso e a hidro. Mas foi apenas deitar naquela banheira para os próximos 40 minutos de uma intensa hidromassagem em leite de coco combinada com a fantástica massagem pelas mãos de uma massoterapeuta, para o burburinho de neurônios voltar. Eu boiava sobre a água naquele quarto à meia-luz com cheiro de fruta, cheiro de vela e música de meditação. Eu me purificava naquela água e nela me batizava, deixando para trás minha solteirice, todas as suas alegrias e dores, e entrava num casamento, com igualmente todas as suas dores e alegrias. Um pé no sonho e outro na realidade, cada um tem que encontrar sua forma de equilíbrio. Já refeita do meu momentâneo delírio catártico, parti para o último tratamento, mais uma hora de massagem sueca profundamente relaxante. Terminei meu combo-Cleópatra me sentindo uma pena de tão leve e tranquila. Tomei uma ducha forte e segui para a área do salão de beleza.

Uma semana antes eu havia ido ao salão para deixar todo o pacote pago e escolher o meu penteado. Tinham até tirado uma fotocópia do modelo que gostei e deixado separado para o dia oficial. Claro que vida sem emoção não é nada: no dia oficial perderam a foto. A cabeleireira fez um penteado que até hoje fico na dúvida se gostei ou não. Era definitivamente um ninho de passáros. Tinha ao mesmo tempo uma anarquia e uma harmonia que me encantava e me repelia. No ano passado fui ao casamento da minha amiga Cecília e me arrumei juntamente com ela e sua mãe no mesmo salão. Achei lindo mãe e filha compartilhando aquele momento -- há algo de poderoso neste processo de embelezamento onde criadora e criatura interagem -- e desejei desde então que o mesmo ocorresse comigo. Desejo atendido: minha mãe, que há apenas dois dias havia retornado a Laredo especialmente para celebrar a data, chegou ao salão. Com o cabelo aprovado pela progenitora, era hora de seguir para a maquiagem.

Eu temia que me deixassem com cara de drag queen, a maquiagem oficial de Laredo, seguida do estilo "gueixa latina". As lareirenses adoram uns looks pavorosos seja dia ou noite, baixo sol ou chuva: argamassa de base e pó, blush em excesso, sombra escura e pesada, delineador da grossura de um dedo e cílios grudados por dezenas de camadas de máscara. Mas a minha maquiagem foi nota 10. Gostei tanto do serviço que desejei nunca mais lavar meu rosto. O buquê chegou da floricultura e eu me enamorei com a delicadeza das rosas brancas. Estava lindo, discreto e elegante. Eu já era um projeto quase pronto de noiva. Também havia encomendado uma orquídea natural para meu cabelo, mas não caiu bem. Por sorte, o salão vendia acessórios e achei um enfeite com pérolas que combinou perfeitamente com a ocasião. Coloquei o vestido e eis que diante do espelho vi uma noiva de verdade. Uma noiva bem eu, com um vestido que não era uma fantasia de noiva, mas um vestido eu com cara de noiva. Um vestido curtésimo, o que levou minha mãe a falar incessantemente, até minutos antes da cerimônia, que eu deveria usar uma meia fina, algo que certamente não fiz. Uma noiva rechonchuda comparada com meu peso normal,com braços e pernas grossas, mas gostando muito do conjunto que via. E eu não queria mais largar aquele buquê. Incorporei a noiva, encarnei a personagem e parti para a cerimônia escoltada por minha mãe, o padrasto de W. e sua esposa, que juntamente com as três sobrinhas de W. pegaram estrada e avião de Kansas e Maryland para celebrar o momento.

Chegamos ao Lago Casablanca e uma nuvem de milhares de borboletas de várias cores nos recebeu, pequenos leques flutuantes abanando o calor daquele final de tarde. O tempo amanheceu nublado naquela sexta-feira, mas duas horas antes da cerimônia, abriu: o sol saiu completamente, dourado e morno, emoldurado por um céu azul de esparças nuvens. Uma monarca pousou no meu buquê. A natureza celebrava com delicadeza e graça. Uma brisa constante soprava nossos cabelos. Não quis me importar mais com laquê: daquela hora em diante deixei o vento soprar, o cabelo assanhar, o salto doer, o batom escorrer. O barco que serviria de altar estava decorado com flores brancas. O barco que simbolizava a grande jornada na qual estávamos embarcando e que nos traria sorte para passarmos a vida viajando como sempre sonhamos. A violinista tocava Bach. Passageiros e tripulação somavam 13 pessoas, número forte: minha mãe, os padrastos e sobrinhas de W., a juíza amiga de faculdade de W., o casal de testemunhas, a violinista e o amigo capitão do barco. Decidi de última hora que queria ser levada até W. por minha mãe. Ele me esperava no barco vestindo camiseta preta, blazer e calça marfim, combinando com meu vestido. Eu não conseguia parar de sorrir.

Navegamos até o meio do lago. No percurso, famílias e pescadores prestavam atenção no barco florido. Ancoramos e então, em meio às águas do Casablanca, a juíza leu os votos oficiais de casamento. Só ali foi que a ficha caiu completamente: era tudo verdade, eu estava me casando e aquilo ali não era encenação. Eu estava me casando, e in English. Eu estava me casando com W., meu amigo que conheci há nove anos e que em menos de dez meses de namoro, duas idas dele ao Brasil e duas vindas minhas ao Texas, virou meu amor, meu esposo, meu digníssimo marido. Prestei atenção no discurso breve da juíza e também gostei do que ouvi: que a vida a dois não será fácil e que será preciso ter muita força de vontade para superar as dificuldades. É bom ser avisada destas cláusulas contratuais emocionais. Eu e W. também lemos em voz alta um voto de casamento celta que escolhi em sua homenagem. O que mais me encantou neste voto foi que trata o homem e a mulher como iguais, nenhum dono do outro, mas ambos pessoas livres que oficializam por vontade própria que cuidarão um do outro. As cerimônias de casamento celtas eram realizadas por uma sacerdotiza, portanto foi uma bem-vinda coincidência (existem coincidências?) que tivemos uma juíza celebrando a nossa.

Trocamos as alianças -- e pela primeira vez vi sua reluzente e dourada aliança celta fazendo par com meu diamante de noivado. "Yes, I do", ele disse. "Yes, I do", eu disse. O beijo. Por fim, incorporamos um ritual brasileiro de ano novo, porque assim como o ano novo o casamento é um começo: cada convidado recebeu uma rosa branca e fez um desejo ao seu Deus pedindo bênçãos aos noivos. Havia cristãos, judeus e mulçumanos reunidos.Em seguida, todos jogaram as rosas ao lago. Nosso lago de rosas. Treze rosas brancas alimentando as águas. Fiz um breve discurso de agradecimento aos que estavam presentes. A voz embargou e as lágrimas escorreram. Estouramos champanhe e comemos os bem-casados e alfajores que minha vizinha petrolinense que fez questão de enviá-los. Borbulhas e doces para brindar a nova vida, do jeito que eu gosto.

Dali partimos para jantar num tradicional hotel de Laredo, o La Posada, num esquema super informal de cada convidado pagando o seu jantar. Aproximadamente outros 10 convidados se juntaram a nós. Partimos o bolo encomendado especialmente para cerimônia. Juntamos todas as solteiras e nos dirigimos ao pátio. Tirei o salto alto e me deixei ainda mais à vontade. Começar a vida nova sem torturas! Subi uma escadinha e joguei para trás o buquê de rosas brancas que caíram nas mãos da minha instrutora de hidroginástica, que não apenas tem se mostrado uma amiga querida, como também tem uma longa história de amor com o Brasil. Não, certas coisas não podem ser apenas coincidências.

Tantas bênçãos, tantos símbolos, tantos planos, tantos desejos de sermos o melhor que podemos ser. Tantas decisões tomadas em nome de se iniciar uma família, como a minha decisão de mudar de sobrenome. Jamais imaginei que faria isto. Não faço parte de nenhuma família tradicional ou conhecida, mas sempre tive orgulho do nome que fui registrada. Por que eu tenho que mudar e não meu marido? Mas mudei. Foi meu presente a W. e sei que ele gostou, pois não esperava isto de mim. A legislação brasileira não permite que eu omita meu sobrenome, portanto apenas acrescentarei ao final o sobrenome do meu marido. Dentro de casa sinto que algo mudou. Dentro de mim sinto que algo mudou. Me sinto mais segura. Agora esta também é a minha casa. Agora as decisões serão tomadas em conjunto. Agora é oficial e gosto desta sensação de ordem que a oficialização traz. Gostei de morrer solteira para renascer casada. E que venham as outras fases e ritos de passagem. A viagem continua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vestido de noiva

Por mais independente, bem resolvida e despojada que seja uma mulher; por mais descolada, mais pra frente e mais "muderna" que seja uma mulher; por mais mulherão, mais furacão, mais "tô nem aí" pras instituições que seja uma mulher, no fundo do seu coraçãozinho pulsante ela carrega uma criatura que só usa vestido cor-de-rosa e suspira com pestanas apaixonadas. Esta sósia ao avesso se chama mulherzinha. Uma mulherzinha que sonha com o príncipe encantado na hora de dormir, mesmo que sua plena e intensa vida amorosa a tenha feito compreender que assim como dentro de toda mulher existe uma mulherzinha, dentro de todo homem existe um sapo, muitas vezes um baita dum cururu grande, verde e bizarro. Esta mesma mulherão-mulherzinha que descobriu a intrínseca relação entre humanos e anfíbios (no caso feminino, a perereca é o elo perdido) sonha, desde os tempos de menininha, com aquele dia, o grande dia, o supostamente maior dia da sua existência: aquele em que ela olha nos olhos do seu príncipe-sapo e, explodindo de emoção, diz "sim, serei sua para o resto de nossas vidas." Mas antes de chegar nestes finalmentes, teve um outro detalhe que ela não deixou passar desapercebido: o vestido de noiva. Eis aqui um breve relato do meu momento mulherzinha.

Foi sábado passado e fazia um dia lindo, quente e úmido. Numa cidade onde não há nada culturalmente interessante para se fazer, o que se faz? Vai às compras. Saí de casa para uma breve sessão de tortura, sabendo que eu não poderia gastar: apenas para olhar, fazendo as vezes de consumidora inteligente que dificilmente sei ser. Perambulando pelas lojas do shopping, pelos infinitos balcões de maquiagem e prateleiras de sapatos, me dei conta que me casaria dali a menos de um mês. Já estava quase conformada com o formato burocrático do que seria a minha boda: uma visita ao cartório local, uma troca de votos de cinco minutos e que vivam felizes para sempre. A minha mulherzinha já estava morrendo sufocada de tédio com falta de gliter na veia. Parei para um café e a cafeína teve um efeito ressucitador: "não me assassine. Procure um vestido. Um vestido de noiva."

Flasback. Lá nos idos dos anos 80 eu, pirralha, olhava revistas de noivas e procurava pelo modelo ideal. Era uma época de mangas bufantes, horrendas, noivas à la merengue de limão. Achei um tomara-que-caia perdido entre as páginas e fiz ali minha escolha. Vi pela primeira vez que havia vestidos que não eram brancos, mas perolados. Gostei, mas a minha mulherzinha-tradição dizia que para casar, só se fosse de branco. Mesmo que fizessem troça com o fato de casar de branco. Cresci numa terra machista, onde virgindade ainda era trunfo, onde homens e mulheres iam aos casamentos e cochichavam maliciosamente que aquela noiva nunca deveria ter se casado de branco. Ainda: fui criada por uma mãe moderna que dizia que vestido de noiva era algo cafona, coisa de festa a fantasia. Cresci com amigas bem mulherzinhas, mas também com amigas modernas que abafaram suas mulherzinhas e abraçaram a máxima que vestido de noiva é brega. E finalmente: nunca entendi por que minha mãe comprava aquelas revistas, afinal ela não apenas achava vestido de noiva coisa cafona, como também já estava casada há tanto tempo. Minha mãe que casou no cartório de botas de cano alto, saia plissada xadrez, blusa de manga comprida e lenço de seda na cabeça. Quando pequena achava um horror, mas hoje acho o máximo. Mas foi preciso chegar o momento de eu comprar o meu vestido para me dar conta que, como ela não se casou dentro de um, sua mulherzinha certamente aparecia como noiva-fantasma e pedia oferendas em formas de revistas.

Comecei a entrar de loja em loja procurando um vestido branco. Um vestido branco, curto e moderno. Um vestido que eu pudesse usar depois, que não tivesse cara de festa a fantasia. Um vestido sóbrio porém sexy. Até pouco tempo atrás um editorial da Marie Claire dizia que branco era o novo preto. Mas certamente esta moda não chegou aqui na fronteira, muito menos nesta entrada de outono repleto de cores escuras. Até achei um perdido numa arara nos fundos de uma loja, mas o tecido era ruim, o corte era ruim, tudo era ruim e eu mal conseguia respirar de tão apertado. Comecei a mudar de idéia e a achar que meu vestido de noiva seria vermelho. Por que não? Minha mulherzinha-libertina começava a dar pulos, golpeando a mulherzinha-tradição.

Flashback. Sou de uma cultura obsecada por casamento, por tradições rígidas para certos ritos de passagem e, consequentemente, pelos vestidos que fazem parte destas tradições. Eu não tive festa de quinze anos. Nem baile de debutantes. Minha mãe achava cafona. Minhas amigas mais próximas achavam cafona. Eu também achava cafona, mas minha mulherzinha-tradição pestanejava apaixonadamente em segredo com aqueles vestidos de princesa. As aniversariantes e debutantes trocavam até três vezes de roupa na mesma festa. Nos meus quinze anos fui comer pizza trajando um conjuntinho de malha roxo colado no corpo. Nunca vou me esquecer daquele vestidinho. Não porque eu fosse louca por ele, mas porque no fundo ele foi o substituto do vestido branco que eu nunca tive.

Circulei o shopping inteiro. Havia uma última loja, uma enorme loja de departamento para entrar. Resolvi ir embora. Porém, a alguns passos dali, o resto da cafeína que ainda circulava no sangue me mandou dar meia volta volver. Um sexto sentido em ação. E eis que no lado esquerdo da escada rolante do segundo andar da Dillard's, eu o encontrei. Ele. O vestido. Tecido maravilhoso, corte impecável. Simples, elegante, sexy e jovial. De marca, BCBG Max Azria, a um preço excelente, "com 20% de desconto somente até amanhã se você preencher esta ficha cadastral." E ainda havia um modelo no meu número.

Enquanto o atendente foi buscá-lo, lembrei de um programa na TV que mostrava noivas comprando seus vestidos. Noivas felizes, nervosas e ansiosas com champanhe na mão escolhendo o vestido que usariam uma única vez nas suas vidas. Lembrei de todos os filmes e séries de televisão com cenas de noivas escolhendo seus vestidos. E senti uma vontade enorme de poder compartilhar aquele momento com as minhas amigas, com a minha irmã, com a minha mãe. Contudo, não deixei a melancolia me dominar. Lembrei também que praticamente durante toda a minha vida adulta, estive sozinha enquanto fiz minhas compras de roupas. O atendente chegou. Experimentei o vestido. Ele fechou o zíper nas costas. Ele era gay e fiquei feliz por isto. O caimento ficou perfeito -- verdade, um tantinho de nada apertado no peito, mas não visivelmente apertado. Ele era meu, eu sabia. O vestido de matalassê acetinado de cor perolada com flores aplicadas no busto e laço preto na cintura. Curto. Super curto. Nada de superstições com cores, nada de puritanismo, por favor. Minha mulherzinha-moderna estava embriagada de felicidade. Liguei para o noivo: "honey, achei." "Hum, que bom. Quanto?" "US$ X". "OK. Pode vir aqui em casa buscar o cartão". Minha mulherzinha-tradição quis que o noivo pagasse pelo mimo. E a mulher dona-de-casa que já compreende os hábitos de compra do seu futuro marido se surpreendeu com o fato de ele não ter hesitado nem por um momento sequer.

Pedi ao atendente para separar o vestido, enfatizando a cada três palavras que era o meu vestido de casamento. Meu-vestido-de-casamento-OK? O simpático atendente disse que eu não precisava me preocupar. Saí do shopping flutuando. No carro, a caminho de casa, ou melhor, a caminho de buscar o cartão de crédito, liguei o som a toda altura e cantei cada música com toda a força dos meus pulmões durante os 15 minutos de viagem. "Minha pequena Eva, Eeeeeeva, o nosso amor na última astronave, Eeeeva (...)", "E pra vocês eu deixo apenas o meu olhar 43, aquele assim (...)". Eu estava histérica e mesmo que aquelas letras não fizessem qualquer sentido, aquela foi a trilha sonora da minha radiante felicidade.

No fundo, eu sabia que não era apenas o vestido. Era ele também, mas não ele somente. Era o rito de passagem. A evolução rumo a esta etapa que eu nunca achei de fato que fosse o maior dia na vida de uma mulher, e até duvidei se fosse acontecer um dia comigo. Havia tanta coisa para se fazer nesta vida; casamento era apenas uma consequência, um acaso ou mais uma possibilidade. Continuo achando. Mas minha mulherzinha anda bem sorridente estes dias. Ainda: a partir do vestido, decidi mudar radicalmente o formato de casamento em cartório. Não à burocracia, sim ao gliter! Mas esta história eu deixarei para depois.

Momentos mais tarde, já chegando em casa com o vestido em mãos, pedi para W fechar os olhos enquanto eu escondia o mimo no closet. Minha mulherzinha-mulherzinha se deixou levar por superstição: nada do noivo ver o vestido até o dia do casamento. Eu estava feliz. W estava feliz. Ele sabe que tem certas coisas que não se deve nunca negar a uma mulher. Meu sábio príncipe-sapo.

sábado, 19 de setembro de 2009

Zunhe-me

Ela tinha as maiores unhas que qualquer mulher dona de casa jamais ousou ter na vida. Unhas gordas e longas. Garras superlativas. Esmalte cor-de-abóbora com cristais na ponta, nenhuma lasca, nenhuma cutícula por fazer, nenhuma sujeira por baixo. Apenas o abóbora reluzindo naquele final de tarde, numa cidade que cheirava a pó quando a chuva chegava. E chovia. Era baixinha. Era larga. Tinha cabelos negros grossos e mal-cuidados. O zelo estava depositado naquelas unhas, naqueles cristais, naquelas pontas quadradas duras como cimento. Quantas manicures vietnamitas por semana? A chuva. Um homem sai do carro. Caminha rápido para não se molhar em direção à mulher de unhas fenomenais. Ele é magro. Ele é franzino. Ela ocupa duas vezes o espaço do seu corpo. Ela sorri com seus olhos pequenos borrados sobrecarregados de sombra, lápis, delineador e rímel. Com o braço esquerdo ele enlaça sua cintura. Ela repousa as intermináveis unhas sobre o seu quadril. Para ele o mundo pode acabar ali. Seu mundo por uma zunhada cor-de-abóbora.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Independência, vencedores e vencidos

Em 16 de setembro o México comemorou seu 199o. aniversário de independência do domínio espanhol. É interessante observar como os mexicanos, pelo menos neste aspecto, são bem mais patrióticos que nós brasileiros. Quando eu era criança lá nas brenhas do sertão, eu marchava com a farda de gala do colégio pelas ruas da cidade, seguindo a marchinha da escola e a banda do batalhão militar. Depois disto, 07 de setembro tornou-se apenas mais um feriado para acordar tarde e descansar. Já no México, as fiestas pátrias são coisa séria. Os mexicanos enfeitam as ruas de vermelho, verde e branco, as cores do país, fazem comidas típicas para esta celebração e reunem-se para festas em casas de familiares e amigos. É um patriotismo que vai além dos desfiles militares que estamos acostumados no Brasil. Há um sentimento civil de patriotismo acima de tudo. Tive a chance de ver isto de perto durante uma viagem à Cidade do México há cerca de quatro anos. Aquela noite no distrito boêmio de Coyoacán, pertinho da casa de Frida Khalo e Diego Rivera, foi uma das mais inesquecíveis que já vivi. Não teve nenhum grande romance, nenhuma grande aventura hollywoodiana. Apenas uma brasileira de coração aberto comendo cactus com tubarão na varanda de um restaurante de culinária fusión moderninha, brindando com um cara que eu havia conhecido durante o vôo Rio-Cidade do México e que virou meu companheiro de viagem durante aquela semana. Fogos de artifício, barraquinhas de comidas típicas e super exóticas por todos os lados, dança, pimenta e leveza no ar eram o pano de fundo perfeito. Também observei semelhante comemoração no Chile há dois anos, por coincidência também em setembro, indo a suas fondas regadas a churrasco, empanadas, cerveja e vinhos, tanto em grandes espaços urbanos quanto nas casas de amigos. Deliciosa experiência, mas que me perdoem os chilenos patriotas: eles não chegam perto do tempero que o México tem. Deve ser o chilli azteca.

Laredo, Texas, tentou colocar tempero na sua festinha, mas a coisa ainda assim ficou meio morna, faltando faísca. De toda forma, foi prazeiroso ver aquela gente toda reunida no mormaço noturno na Plaza San Agustín, no centro histórico da cidade, celebrando sua herança histórica e cultural. A comemoração ocorreu um dia antes da celebração oficial. O motivo é simples: com Nuevo Laredo, México, a apenas um cruzar de rio, uma festa no dia 16 de setembro ficaria praticamente vazia.

A noite teve direito a danças típicas, geralmente belas moças sendo cortejadas por rapazes, tudo num estilo meio inocente e campestre; desfile de "rainhas" dos estados mexicanos (como eles adoram isto! Tem rainha pra tudo, igualzinho ao Brasil. Olha que eu já fui rainha do milho no século passado!);cantores com nomes como Danilo Daniel; grupos de mariachis; banda do batalhão de Nuevo Laredo; barraquinhas de tacos e jamaicas, um suco à base de hibisco. E belas pequenas cenas, como a menininha flamulando a bandeira mexicana duas vezes maior do que ela. Algumas mulheres e crianças vestiam roupas típicas, como aquelas belas batas de bordados coloridos que eu uso constantemente para ficar em casa. Havia um vendedor de bandeiras com a metade do rosto tapado por uma delas. Membros da Igreja Cristã Misericórdia aproveitando a aglomeração para entregar panfletos de "El infierno: la decisión es tuya". Um organizador de eventos distribuindo os panfletos do show da cantora pop Paulina Rubio com suas pernocas à mostra. Um padre tomando Coca-Cola em frente ao coreto.

Em meio a tanta informação, na minha cabeça ecoava o comentário que minha mãe fez outro dia quando falávamos sobre os vencedores e os vencidos da guerra entre Estados Unidos e México em meados do século XIX. Sim, os EUA venceram militarmente, levando o México a se render e a entregar alguns dos seus territórios, incluíndo o Texas. Mas e o legado cultural deixado pelos "vencidos?" A influência mexicana é muito forte na culinária, nas artes, na cultura, no idioma. Se olharmos por este aspecto, quem de fato é o grande vencedor? Senti uma certa ironia com aquela bem-vinda celebração da história mexicana em solo americano. E, em coro com o cônsul-geral do México que ostentava a bandeira de seu país na sacada do Hotel La Posada, logo após cantarem o hino nacional, também gritei: "Viva México!"




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Éramos três na estrada


Eram três pessoas na estrada, três pessoas felizes na estrada, um homem compenetrado que conduzia e duas mulheres que sorriam na estrada e falavam da estrada e da cor do mato, e do verde do mato, e daquele céu de tantas nuvens, e da forma que as nuvens tomavam na estrada, tanta metamorfose de nuvens na estrada, um pássaro que ela viu eu também vi, e virou um avião e virou um míssil, como assim mudamos de pássaro para míssil? mas podemos também, um dia somos livres, outro dia detonamos bombas suicidas, mas ali na estrada não havia suicídio, havia três pessoas, três pessoas felizes na estrada, um homem que pegava na mão da sua mulher e duas mulheres que sorriam sem parar e brincavam com a luz, com aquele banho de sol dourado no final da tarde, mulheres que sorriam ao se fotografar, que bela e inocente brincadeira narcisista para não perder aquela luz que vinha daquele buraco no céu, e do oeste a noite descia seu manto preto-carvão e lá no leste a luz explodia alaranjada, aquele céu que a apenas oito metros era um céu de dilúvio, vimos um pedaço de fim de mundo ali na estrada, não enxergávamos um palmo à nossa frente, e chovia grosso, e chovia muito, e chovia uma nuvem negra sobre nossas cabeças, mas estávamos na nossa arca, protegidos por gargalhadas e por um arco-íris que se formou lá atrás no norte, porque embarcávamos rumo ao sul, mas sul e norte são tão relativos e para que tanta bússola nesta vida se de repente a vida chega num só fôlego, porque o fôlego foi nossa primeira voz, a minha, a dele, a dela e a sua, e é assim mesmo nesta vida, às vezes tudo chega num só fôlego, um fôlego que dura uma risada, uma risada que dura uma estrada e afe, eu prefiro viver assim, num fôlego interminável, no meio de uma estrada que chove, no meio de uma estrada que ilumina, do meio de uma gente que se metamorfoseia no melhor que consegue ser.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As ruas fictícias de Laredo

Meu pai conhecia Laredo muito antes da minha chegada a estas terras. Não que tenha colocado os pés aqui antes, mas leitor voraz das aventuras em quadrinhos de Tex Willer, o herói fazendeiro americano que personifica as aventuras do velho oeste, já conhecia de forma romantizada os entornos desta região. Conforme o princípio da sincronicidade ("as coisas dão certo quando têm que dar"; ou, idem à lei de Murphy, "quando é pra dar merda espere uma diarréia"), às vésperas da minha mudança para esta cidade ele quis mostrar ao seu futuro genro o seu fascínio por este universo eternizado em gibis e filmes de bang-bang. Pausa para um suspiro globalizado: meu pai baiano, na sua cidade pernambucana, mostrava ao seu genro americano um gibi italiano traduzido para o português sobre uma aventura que se passava na fronteira texano-mexicana. Ao acaso, retirou da estante um dos exemplares da sua vasta coleção e eis que na primeira página da reedição de "Missão Suicida," publicada pela primeira vez em 1979, estavam Laredo e Nuevo Laredo às margens do Rio Grande num mapa simplificado do sul do Texas. Como não sorrir com estes pequenos sinais (de que nada é por acaso, de que há um plano maior para nossas comuns vidas etc etc etc) que ornamentam minha por vezes cética mente? Lembro que naquele exato momento, mesmo sendo um pontinho preto num canto esquerdo de uma página de quadrinhos, Laredo não apenas parecia menos remota, como também ganhava uma certa grandiosidade.

Poucas semanas mais tarde já nas bandas do norte, numa noite boêmia regada a vinho, W me surpreende tocando no computador pelo menos cinco versões de uma linda canção, algumas nas vozes de ninguém menos que Johnny Cash e Joan Baez. Bela e triste, é a balada de um jovem cowboy em seu leito de morte após haver sido baleado no peito. A cera dos meus ouvidos derreteu imediatamente ao saber o título: The streets of Laredo, ou "As Ruas de Laredo". Em pesquisas posteriores, descubro que ela tem origens no século XVIII e portanto várias versões, não sendo atribuída a nenhum autor específico. Num contexto mais pop também fez parte da trilha sonora do filme O segredo de Brokeback Mountain. Perdoem minha ignorância, mas acreditava até então jamais haver escutado esta música. E Laredo, perdoe minha arrogância, mas também não fazia idéia do seu prestígio. No final deste post encontra-se a letra com uma tradução que acabei de improvisar.



Mais uma pesquisa e descubro que existe um filme de 1949 também entitulado The streets of Laredo. A estória se passa no Texas em 1878 e narra as aventuras dos amigos de infância Jim, Lorn, Wahoo e Rannie. Jim vira fora-da-lei, Lorn e Wahoo viram Texas Rangers e Rannie precisa escolher entre o amor de Lorn e Jim. Para completar o meu total arreganhamento de mandíbulas, entre 1967 e 1969, a rede de TV americana NBC exibiu um seriado chamado Laredo. Misturando humor e ação, também tinha os Texas Rangers como protagonistas.



Então Laredo não é tão esquecida. Ou melhor: Laredo é de fato uma cidade lembrada, musa inspiradora -- ou pelo menos assim foi até o final da década de 1960. Existe um nicho que a reconhece, nem que seja através da sua forma fictícia e romantizada: seus cowboys, seus ranchos, seus cactus, seus cavalos. Tudo isto ainda vivo na realidade além-vídeo, tudo isto também já modernizado e transformado: cavalos brancos por todos lados em formas de grandes pickups 4x4; um cowboy paraplégico de chapéu, bota e cinturão na sua cadeira de rodas motorizada escolhendo cereal no corredor do supermercado. Eu ainda não vi, mas minha mãe disse que domingo pela manhã bem na frente da minha casa havia um cowboy montado num grande cavalo.

Existe uma Laredo viva na mente de aficcionados por faroeste que habitam o sertão pernambucano ou remotas colinas de vilas italianas. Existe uma Laredo eternizada numa bela canção de conteúdo agonizante, em clipes de You Tube, nos bites e baites de uma Internet que tudo armazena e tudo expõe. Existe uma Laredo cuja fama atravessa gerações. Existe, neste ano de 2009, a minha tentativa de conhecer esta cidade, mas entendo que minha vaidade a aceita, quase sempre, apenas como pano de fundo para meu auto-conhecimento.

The Streets of Laredo
Versão Johnny Cash

As I walked out on the streets of Laredo.
(Enquanto eu caminhava pelas ruas de Laredo)
As I walked out on Laredo one day,
(Enquanto eu caminhava por Laredo um dia)
I spied a poor cowboy wrapped in white linen,
(Eu espiei um pobre cowboy envolto em linho branco)
Wrapped in white linen as cold as the clay.
(Envolto em linho branco tão frio quanto a argila)

"I can see by your outfit that you are a cowboy."
(Eu posso ver pela sua vestimenta que você é um cowboy)
These words he did say as I boldly walked by.
(Estas foram as palavras que ele disse enquanto eu vigorosamente passei ao seu lado)
"Come an' sit down beside me an' hear my sad story.
(Venha e sente-se ao meu lado e escute minha triste história)
"I'm shot in the breast an' I know I must die."
(Fui baleado no peito e sei que devo morrer)

"It was once in the saddle, I used to go dashing.
(Uma vez sobre a sela eu costumava seguir impetuoso)
"Once in the saddle, I used to go gay.
(Uma vez sobre a sela eu costumava me animar)
"First to the card-house and then down to Rose's.
(Primeiramente no jogo e depois na casa de Rose)
"But I'm shot in the breast and I'm dying today."
(Mas estou baleado no peito e estou morrendo hoje)

"Get six jolly cowboys to carry my coffin.
(Traga seis animados cowboys para carregarem meu caixão)
"Six dance-hall maidens to bear up my pall.
(Seis dançarinas de salão para colocarem minha mortalha)
"Throw bunches of roses all over my coffin.
(Joguem muitas rosas sobre meu caixão)
"Roses to deaden the clods as they fall."
(Rosas para amortecer a terra enquanto ela cai)

"Then beat the drum slowly, play the Fife lowly.
(Então batam o tambor lentamente, toquem o pífano bem baixo)
"Play the dead march as you carry me along.
(Toquem a marcha fúnebre enquanto vocês me carregam)
"Take me to the green valley, lay the sod o'er me,
(Levem-me para o vale verde e joguem a terra sobre mim)
"I'm a young cowboy and I know I've done wrong."
(Eu sou um jovem cowboy e sei que fiz coisas erradas)

"Then go write a letter to my grey-haired mother,
(Então escreva uma carta para minha mãe de cabelos grisalhos)
"An' tell her the cowboy that she loved has gone.
(E diga-lhe que o cowboy que ela amava partiu)
"But please not one word of the man who had killed me.
(Mas por favor nenhuma palavra sobre o homem que me matou)
"Don't mention his name and his name will pass on."
(Não mencionem o seu nome e seu nome sobreviverá)

When thus he had spoken, the hot sun was setting.
(Então quando ele terminou de falar, o sol estava se pondo)
The streets of Laredo grew cold as the clay.
(As ruas de Laredo ficaram frias como a argila)
We took the young cowboy down to the green valley,
(Levamos o jovem cowboy para o vale verde)
And there stands his marker, we made, to this day.
(E até hoje ainda está lá a sua lápide que nós fizemos)

We beat the drum slowly and played the Fife lowly,
(Nós batemos o tambor lentamente e tocamos o pífano bem baixo)
Played the dead march as we carried him along.
(E tocamos a marcha fúnebre enquanto o carregávamos)
Down in the green valley, laid the sod o'er him.
(Para o vale verde, onde jogamos terra sobre ele)
He was a young cowboy and he said he'd done wrong.
(Ele era um jovem cowboy e disse que havia feito coisas erradas)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Caipirinha, milk shake, uma fada surrada e mais um ano que entra

Nunca fui de ficar reclusa no meu aniversário. Sempre gostei de festa, comemoração, bolo e gente por perto. Por mais que tenha passado a crer em mapa astrológico, nunca engoli esta história de inferno astral que precede o mês do nosso nascimento. Nos anos que achei que isto poderia estar ocorrendo, me dei conta que eu é quem tinha alimentado meus próprios demônios e criado alguns infernos (antes fossem inferninhos). Tenho amigos que viram ostra, amigos que choram ou que preferem sair para jantar com o mínimo possível de pessoas. Respeito. Mas 02 de setembro é meu dia e com licença, consegui mais um ano, mais uma bênção: a de estar viva e não simplesmente sobrevivendo. Eis aqui um relato de como entrei na idade de Cristo com um pau na mão dando uma surra numa fada.

Diferentemente de anos anteriores, este ano não fiz contagem regressiva de um mês de antecedência. Me dei conta que a data era dali a quatro dias e debati por 10 minutos se faria ou não uma festinha. Afinal, acabei de aportar nestas terras e estive com os novos amigos apenas duas ou três vezes. Mas foi exatamente isto que ativou meu botão de comemorar: e por que não brindar com quem me recebeu tão bem numa cidade que eu adoro poder falar mal? No fundo eu sabia que o brinde não era apenas em minha homenagem, mas à deles também. Era uma forma de agradecimento. Sem contar que desde os 16 anos de idade não celebro aniversário com minha mãe por perto. E seria meu primeiro aniversário com meu querido W. E eu queria fazer brigadeiro. E comer bolo. E tomar caipirinha. E me sentir especial sim. Porque eu gosto. E posso.

Então, desde as 24 horas que antecederam a data, dei largada para a sessão de cuidados: cabelo pintado em salão seguido de corte, manicure, pedicure, sobrancelhas depiladas. Praticamente barba, cabelo e bigode. E, na tarde do dia 02, massagem sueca num spa pelas mãos de um homem forte chamado Felipe. Presente de W.

A primeira etapa foi festa de criança, na bagunça ao lado dos filhos dos meus recém-amigos. Como você explica para uma garotinha de nove anos que ela ainda não pode tomar cachaça? Faça um milk shake de morango e diga que é "caipirinha for kids". Pronto, naquela noite nasciam futuros viciados. Do lado de fora da casa, minha mãe grita: "traga um lenço!" Chego lá e pela 1a vez na vida tem uma piñata para mim. Todinha para mim! Piñatas são um clássico da tradição mexicana: potes de papier machê em formato de tudo o que você possa imaginar - flores, carros, super heróis, Bob Sponja, cavalinho -- com doces dentro. Uma venda é colocada nos olhos de uma criança que dá umas rodadinhas para ficar tonta e tentar acertar com um bastão o boneco pendurando numa árvore. Quando ele quebra, derrama rios de doces e brinquedinhos. É o mesmo conceito do quebra-pote brasileiro, um clássico da minha infância. Então é aqui que aparece o pau: um cabo de vassoura. E é aqui que aparece a fada: minha piñata era uma Sininho do tamanho de um bebê e com cara de monstro. Surrei a bichinha com gosto. A cabeça foi parar do outro lado da rua. Botei pra fora qualquer sinal de demônio que quisesse roubar meu bom momento astral.


Abre parênteses: como é que de um ano para outro a vida pode tomar um caminho completamente distinto? Em 2008 eu comemorava meu aniversário numa champanheria carioca, cercada de amigos de longa data e de alguns amigos também recém-conhecidos, mas de perfil tão distinto dos amigos de Laredo. Eram publicitários, fotógrafos, atrizes, músicos, cineastas, designers. No Rio todo mundo é pop. Estouramos vários espumantes e ainda tive forças para emendar um cabrito com arroz de brócolis na Lapa às 2h da madrugada. Aqui, pessoas de profissão "normal", -- advogados, professora de 2o grau, instrutora de academia, jornalista -- muitos recém-saídos de reunião do Rotary Club. E eu servindo leite batido pra gurizada, dando um beijo no meu marido e abraçando minha mãe. Quero nem pensar no ano que vem. Que venha. Fecha parênteses.

A noite ainda teve direito a bolo encomendado combinando com a cor dos pratos, da toalha de mesa e dos guardanapos; brigadeiro coberto com chocolate granulado; pão de sardinha que virou minha "receita secreta" de sucesso; queijos variados, tomate cereja no azeite e hummus de caixa porque a gente também tem que ser prática de vez em quando. E eu de avental vermelho a noite inteira atrás do balcão preparando caipirinha para os convidados. Verdade, mal tive tempo de conversar com as pessoas. Servir foi o que fiz, mas com gosto, com vontade. Tome, prove um pouco da de limão que é clássica. Experimente agora a de morango. Morango com limão caiu no gosto dos laredenses. Um pouco do meu Brasil misturado com cachaça e açúcar. Um pouco de mim. Receber é bom, mas dar é tão prazeiroso quanto. E juro que esta frase não tem duplo sentido.

domingo, 30 de agosto de 2009

A chuva que não me molhou

Choveu nesta terra quente e eu não vi. A chuva correu de mim como eu agora corro das obrigações. Foi uma chuva torrencial de alguns minutos, eu soube. Eu estava fora da cidade e não ouvi, não senti, não me molhei. Uma chuva que me enganou: gordas nuvens dissimuladas, celulites de excesso d'água naquele céu de azul berrante que 24h antes não diziam nada que romperiam sobre o meu telhado. Trapaceira. A chuva que espero há dois meses para lavar minha cabeça, purificar meus sentidos, molhar as partes que querem se fazer áridas contra a minha vontade. Queria escutar o som de Laredo na chuva, inspirar o cheiro de Laredo na chuva, sentir o meu corpo em Laredo na chuva. Queria me batizar na chuva que carrega a água do já deplorável Rio Grande, pingos de contrabando centenário, gotas fortes de mexicanos em fuga, garoa de amores delimitados por uma fronteira de feridas abertas. Água doce, água salobra, que gosto tem esta água que cai do céu sem me avisar? Pergunte ao mato, pergunte ao vento, pergunte aos arbustos que esverdejaram quando entrei na cidade e o céu estava azul-fim-de-mundo, belo, sórdido e medonho, um azul sem piedade, e a terra cheirava finalmente a terra e o pó agora era finalmente lama. Pague agora, gota por gota: não te darei o gosto de derramar minhas lágrimas. Represarei minhas águas para o momento exato em que eu quiser exibir o quão caudalosa eu também posso ser.

xxx

PS: Não faz duas horas que escrevi estas linhas acima. Consegui pirraçar a natureza: chove um Rio Grande volumoso sobre a minha cabeça. Laredo está em baixo d'água. Preciso sair e mergulhar um pouco.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Descongelando

Esta semana fará dois meses que aportei no hemisfério norte. Não chega a ser um marco para comemoração (apesar de crer veemente que basta ter vontade para abrir um espumante), porém na quarta-feira, dirigindo sozinha por uma larga avenida por onde eu jamais havia dirigido, senti primeiramente a deliciosa sensação de estar começando a me familiarizar com os meus entornos. Logo em seguida, algo maior que me fez sorrir enquanto aguardava o sinal abrir: a sensação de estar começando a descongelar, a vencer uma insegurança e resistência que se apoderavam de mim. O mais interessante é que foi necessário a chegada da minha mãe em temporada de férias para me dar conta disto. E para ajustar meu termostato. Estas mães que nos fazem nascer e renascer tantas vezes ao longo de uma vida.

Já morei em pequenas, médias e grandes cidades. Já me internei sozinha em hospital queimando de febre proveniente de infecção renal (e raiva, no nível emocional); cozinhei banquetes para mim mesma; viajei sozinha por montanhas nevadas; me embebedei até vomitar num bar de tango sem conhecer uma alma porteña; dei palestra em universidade americana para mais de 50 coronéis estrangeiros sobre "o papel da mulher na sociedade moderna"; rebolei o tchan umas quinhentas vezes; amei algumas; fui traída e chorei convulsivamente por meses; escalei um vulcão ativo; aprendi depois de um incêndio no meu apartamento que não levamos nada da vida a não ser memórias; cantei em banda de rock; tomei chá de rabo de cascavel; e pela terceira vez faço uma mudança para os Estados Unidos, lugar que já me acolheu por mais de seis anos no passado. Entre estas e outras, acumulei estoque mais do que suficiente para me virar sozinha, enfrentar a vida ou qualquer outro termo sinônimo. Ainda assim, confesso que travei assim que pus os pés em Laredo.

Medo de abrir as gavetas da minha nova casa. Medo de revirar as caixas empilhadas na garagem. Medo de andar pela grama verde e sempre úmida do jardim. Medo de pegar o carro. Medo de abrir algumas persianas. Medo de conhecer pessoas. Medo de embarangar. Medo de mudar o trajeto de casa ao supermercado. Medo de virar inútil e medíocre. Um medo que chegava mais ou menos da hora do jantar, se escondia temporariamente durante uma viagem de final de semana e reaparecia durante o banho. De repente, todas as barreiras e fronteiras já desbravadas pareciam placebo.

As razões eram óbvias e eu conseguia racionalizá-las. Cá estava eu começando algo completamente novo, um casamento de verdade, para valer, com direito a assinatura em cartório e o compromisso de formar família. Por mais liberal que seja a minha cabeça, havia toda uma instituição por trás da minha chegada a estas terras. Cá estava eu sem trabalho, com todo o tempo do mundo nas mãos -- o tempo que eu sempre quis, mas o que fazer com ele? Como aproveitá-lo para que não se perca em tardes vazias arrancando cutículas e enchendo a cabeça de gordas minhocas? Como otimizá-lo? Quais eram mesmo aqueles planos que eu tinha há anos e queria colocar em prática? Até muito pouco tempo atrás eu me jogava no burburinho carioca com vista para Copacabana, na correria da vida corporativa, nas festas repletas de pessoas interessantes, viajadas, globalizadas. Então caio neste lugar tão singular e tão árido de vida cosmopolita. Cá estava eu tendo que começar do zero, fazer amigos e me fazer ouvir.

W tem sido super amigo e companheiro, me incentivando a ser sempre a mulher "destemida" e curiosa que ele conheceu. Se a vida conseguiu me dar um pouquinho de sabedoria, uma delas é que não podemos e não devemos nunca jogar nossas amarras e frustrações no outro. As paranóias estavam na minha cabeça e era necessário agir. Já tive alguns momentos de paralisia na vida, portanto atualmente é mais fácil diagnosticá-los e tomar medidas profiláticas.

Primeira dose: numa quarta-feira qualquer no meio da tarde, abra uma garrafa de chardonnay e faça um brinde para lembrar-se que de tempos em tempos a vida pode ser vivida sem relógio e sem burocracias. É incrível a capacidade que temos de nos burocratizar mesmo quando em período sabático. Em seguida, mude os móveis de lugar. Mude novamente só para pirraçar seu próprio senso de organização. Compre para o banheiro de hospédes um sabonete líquido premium mesmo contra a vontade do seu cônjugue (e mesmo que o dinheiro seja dele). Também jogue fora aquele abajur de cetim cor-de-repolho hor-ro-roso que a ex dele deixou de lembrança. Catuque as caixas intocáveis e descubra lindos objetos de viagem que seu cônjugue nem se lembrava mais que existiam. Dê um jeito de, aos poucos, ir tirando da sala aqueles quadros que você jamais compraria, mas para não magoar seu querido, pregue-os num quarto que você quase nunca entra. E, finalmente, pegue o carro e comece a conduzir por ruas nunca antes navegadas. Perca-se. Deixem que buzinem atrás de você. Entendo: não existe receita de bolo para a vida, mas para mim funcionou.

E onde é que entra Dona B, a progenitora? Tirando o chardonnay, ela catalizou cada uma dessas ações. Queria arrumar a casa para tê-la aqui, recebê-la com um bom sabonete, comprar-lhe um hidratante de mãos para aliviar este ar tão ressacado. Em doses homeopáticas, fui também me reidratando de mim mesma, deixando escapar a essência que volta e meia quer escorrer pelo ralo. Até entrei em aula de violão pela primeira vez na vida. A casa que foi me dada de braços tão abertos foi ficando mais minha. As impressões digitais estão agora mais visíveis. Mas ainda há trabalho a ser feito.

Observar minha mãe também tem sido teurapêutico. Em menos de uma semana já havia revirado todas as caixas, todos os closets, aberto todas as portas, percorrido o jardim de cabo a rabo e colhido flores, fazendo delas belos arranjo para a sala (como eu não pude pensar nisto antes?). Entrou em aula de desenho, me deixou exausta caminhando no supermercado por três horas seguidas, abriu persianas que eu não ousava tocar, pediu para usarmos lâmpadas mais fortes nos quartos, questionou se o sol nasce mesmo no leste e se põe no oeste, mandou eu comprar meias novas para W, criticou a quantidade de tempero da minha comida, me fez ter mais simpatia pelas feiosas cadelinhas de pêlo áspero Sadie e Precious, as quais ela denominou carinhosamente de Arame e Araminho.

Estas mães que nos parem e que não nos deixam parar. Quando menos me dou conta, foram doses cavalares de curiosidade e ânimo. Um mergulho profundo nas minhas raízes mais embrionárias para não dizer o óbvio. Aguardando aquele sinal vermelho no cruzamento das avenidas McPherson com Lamar, abri um sorriso largo e aumentei o volume do rádio. Abaixei os vidros, me livrando do ar seco e gélido do ar-condicionado. Precisava de calor e de sauna. Meu termostato começava, finalmente, a voltar ao clima tropical.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Galeria 201



De longe o lugar mais aconchegante de Laredo, além da minha cama, é a Galeria 201. Encravada no início da Avenida San Bernardo, no centro histórico da cidade, abriga exposições e eventos culturais. Quem vê a galeria de fora não imagina o pequeno tesouro que se encontra além daquelas portas. Como quase tudo nesta cidade, tem um toque amador: quadros de artistas profissionais misturam-se a trabalhos de alunos de aula de desenho, a caixas de papelão esquecidas nos cantos e a até uma cama portátil encostada num corredor. A impressão é de que o lugar está sempre esperando uma arrumação que nunca chega. Mas é linda, charmosa e convida a sonhar.

A área de exposição das obras fica numa casa centenária. Pequena, talvez esta seja a primeira característica que lhe faz atraente. Casas pequenas geralmente têm alma grande. Casas grandes demais acabam se tornando impessoais e quase sempre desertos de ostentação. Grande parte do charme dessa casa provém de paredes que tiveram seu revestimento arrancado durante a renovação do lugar, deixando à mostra grossas colunas de pedras e tijolos que sustentam o prédio. Paredes desnudas, com entranhas tão expostas. Pedras de tom amarelado que emanam calor, como um amontoado de mulheres centenárias que souberam aproveitar bem a vida e hoje, banguelas, ainda cobrem-se de ouro e rendas, achando graça do tempo que lhes resta. O piso de tábuas de madeira corrida range ao menor caminhar. Uma voz rouca do tempo sob meus pés de novas eras. Sempre mudando de lugar, um recamier bordado de preto tem a medida das minhas ancas. Queria adormecer sobre sua manta já gasta e despertar nua numa tela de Rivera. Uma janela grande que nunca se abre traz iluminação natural através do vidro e veda qualquer sinal de vida racional. Ali dentro somos lúdicos, e que assim seja.

Aos fundos da galeria encontra-se um belíssimo pátio cercado de árvores, cactus, grandes vasos de cerâmica crua e obras de arte, como sereias fêmeas e machos penduradas nos galhos e esculturas de esqueletos observando a todos do telhado. Tem-se vontade de amanhecer ali, almoçar ali, jantar ali. Até mesmo morrer ali, rindo alto enquanto se come uma melancia no final da tarde.

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Tenho ido à Galeria 201 nestas manhãs de agosto, acompanhando minha mãe que está de férias e não hesitou em se matricular na aula de desenho em carvão com modelo vivo. O grupo é pequeno: o simpático professor mexicano Juan, três alunas e a modelo Chris. Jovem e muito branca, sua pele descasca por excesso de sol sem proteção. Cheia de pudores, não se despe completamente: desenlaça a parte superior do biquíni mas cobre os seios com as mãos. De costas para as alunas, tenta manter-se imóvel para que elas lhe retratem suas curvas e sombras. No dia seguinte, me confidencia sorrindo que está com os músculos doloridos de tanto ficar na mesma posição. O ambiente me inspira a fazer qualquer coisa, inclusive trabalho sério: num canto da casa, ligo meu notebook e dou andamento a uma pesquisa de mercado para uma empresa brasileira. Nada como dar uma pausa nestas condições. Não bastasse uma casa com alma, existe também a vibração leve e sedutora de arte em andamento.

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No momento a galeria abriga obras de arte da artista Kathy Sosa, texana de origem mexicana. Uma arte figurativa de cores fortes, repleta de elementos mexicanos retratando belas mulheres mestiças e indígenas. Não encontro originalidade nos quadros (ainda existe algo original em vigor nesta vida cercada de informação?), mas gosto do que vejo. Transmite festividade, luz, cor e faz bem às minhas retinas. Gostaria de ter US$ 3.000 disponíveis para arrematar o Our Lady of Grace, uma Nossa Senhora vestida de índia mexicana com um fundo ornado por diversas Virgens de Guadalupe. Artistas também precisam de capitalismo para sobreviver e continuar inspirando brasileiras tentando se encontrar nestas vastas fronteiras.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Lombriguices

Verdade que temos muitas fomes, outro nome para ambição. Mas falemos hoje de fome orgânica mesmo. Tudo isto porque a matéria de capa do último domingo do jornal local, o Laredo Morning Times, era sobre o fato do condado de Webb, o qual Laredo é a capital, ser o 5o no Texas com a maior taxa de obesidade. De certa forma, nada tão "anormal", considerando que no Brasil 20% dos homens e 1/3 das mulheres são obesos, segundo dados do IBGE. Mas a verdade é que o jornal comprova o que os olhos não mentem. É impossível não prestar atenção nos corpos mais que roliços desta região. E se eu não parar de devorar tacos, enchiladas, feijão refrito, costela de boi e manteiga de amendoim com mel, vou passar a fazer parte das estatísticas.

Não sei para você, mas para mim comer é prazer. Não é apenas saciar a fome e encher a barriga. Comer é permitir-se sentir a textura de cada alimento, experimentar a combinação de temperos, sentir o aroma que abre o paladar e faz salivar a boca. É a forma mais primitiva de masturbação. Não é à toa que comer é sinônimo pra fuque-fuque. São prazeres comparáveis e até compatíveis. Todo mundo já deve ter ouvido falar na tal pesquisa feita com mulheres americanas: "se você tivesse que escolher entre parar de fazer sexo e parar de comer chocolate, o que escolheria?." A mulherada escolheu o chocolate como o homem dos seus sonhos. Claro que isto nos leva a crer que as americanas precisam de mais terapia do que nós brasileiras, mas enfim, esta hipérbole exemplifica o fascínio de alguns de nós com comida.

Nos Estados Unidos a presença de comida é algo quase opressor. Comer, comer, comer é anunciado por todos os lados. As placas de restaurantes e cadeias de fast-food piscam incessantemente, 24h. Caminhar por um supermercado é uma experiência avassaladora, tamanha a quantidade e variedade de alimentos. Tudo em porções tamanho gigantes, com muito creme, muito molho, muito queijo, muito açúcar. Um copo de refresco em tamanho pequeno equivale a um tamanho grande na maioria dos estabelecimentos brasileiros. Em Laredo, a cozinha típica é tex-mex, uma mistura de comida texana com mexicana. Em outras palavras: muito feijão refrito (o nome já fala tudo), muita salsa, pimenta, mole (um molho para carnes que leva chocolate, amendoim e muito tempero) e muitas tortilhas para acompanhar os pratos. A expressão tortilla belly (barriga de tortilha) é bastante comum por aqui.

Sempre fui de bater um pratão de qualquer coisa. Nunca fui uma pessoa enjoada para comer, nem mesmo quando criança. Alface, tomate, macarrão, melado de tamarindo e picolé napolitano eram tudo a mesma coisa: comida. Já fui também o terror da vizinhança: quando eu almoçava na casa de minhas amigas de infância, as mães e pais se horrorizavam com o tamanho das minhas porções. Minha lombriga era faminta. Como já dizia o véi Janu, meu avô paterno baiano, "coma hoje porque amanhã pode não ter". Também sempre gostei de experimentar coisas exóticas: no México, pedi de aperitivo gusanos fritos, uma iguaria local: trata-se de um tipo de verme, o mesmo usado na tequila! E não é que depois de entupi-los com guacamole e pimenta brava não eram bem saborosos? Mas ainda não consigo encarar os pickles de pé de porco saboreados por aqui.

Aprendi a comer de forma saudável ao longo da vida. Morei em alojamento universitário com cozinha vegetariana, dividi apartamento com uma amiga carioca que adorava um mato (hoje ela inclusive germina seus grãos), me inspirei com amigos que sabem cozinhar delícias simples e saudáveis. Gosto de uma beringela, peixe fresco, pão integral, uma rúcula com molho de iorgurte. Mas confesso que de tempos e tempos eu enfio o pé na jaca, ou melhor, na gordura e no açúcar. E de com força. Que o diga minha amiga que me viu devorando um sanduíche de banha em Sevilha no ano passado. Então quando a fase junk chega, a comida vira meu canto de sereia e muitas vezes leva tempo para eu ter a disposição de me amarrar para não cair nas suas tentações. A balança já chegou no ponto onde sei que é necessário frear. Este sempre foi o meu truque: sou um baita dum ioiô, mas dentro de um limite de não mais de 5kg acima do meu ideal. Pena que depois dos 30 anos os 5kg a mais cheguem de forma pra lá de acelerada. Saudades daquele metabolismo feroz dos velhos tempos.

Minha mãe acaba de chegar para passar um mês de férias. Recém descobriu um diabetes e está cheia de restrições alimentares. É, mas tou achando que vou aproveitar sua chegada pra dar uma chafurdada numa geléia diet, um pudinzinho sem açúcar...Ah, estas sereiazinhas do século XXI.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

No exílio, proiba-se comparar

Quando você parte em exílio auto-permitido e auto-proclamado, não se pode comparar o destino para onde se vai com o porto que ficou para trás. Proiba-se. Se você se permitir, arrisca-se a não enxergar as belezas dos arredores presentes e cair na pieguice de um ser com saudadite aguda. Entrará em mode Gonçalves Dias, achando que as palmeiras daqui não são como as de lá. Não são, nunca serão e não devem ter a pretensão de ser.

Quando se sofre de saudadite, você entra em comparações baratas: "ah, aqui tenho que cobrir minha bunda com uma fralda de nadar; que saudades do meu biquininho tropicaliente". Esquece-se de que depois dos 30 anos e muitas colheres de sorvete mais tarde, é melhor mesmo ter um biquíni que lhe cubra as polpas. Não caia na tentação de dizer que lá você pode tomar cerveja no meio da rua, enquanto no lado de cá só em propriedade privada. Poliane-se: aqui as opções de cervejas são infinitas, ainda que não sejam tão estupidamente geladas. Lembre-se que os amigos de verdade são eternos e que qualquer amizade, ainda que passageira, deixa a lembrança de um encontro imortal. Nada morre enquanto as memórias ainda vivem.

Desprenda-se. Aprenda a fazer cupcakes -- nunca se sabe se um dia você precisará alimentar um exército de famintos. Deixe o cabelo crescer se ele ficou curto durante tanto tempo. Volte à era bush se se depilar a cada 20 dias ficou tão mais caro (hmmm, pensando bem, pule este opção e ache uma maneira de fazer dinheiro). Escute canções bregas cantadas em espanhol e aprenda rima a rima, letra a letra -- você pode ser a sensação do próximo karaokê quando voltar à civilização culta e antenada. Enfim, quando você se exilar, deixe encarnar nas suas tripas o espírito do lugar. Não exorcize-o: louve-o. Não se esqueça de onde veio, nem por que partiu, mas abrace o novo e recicle o velho. Mas não permita Deus que morra sem que volte, ao menos uma vez, para lá.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Os contrastes da estrada


Exibir mapa ampliado

Na estrada, onde toda a vida pulsa mais intensamente porque tudo é novo mesmo quando tudo já começa a parecer familiar, observo a fronteira EUA-México nas quatro horas de viagem para um final de semana na praia em South Padre, Golfo do México. Notam-se grandes contrastes(ou seria um balanço?):
- verdes plantações de cebola;
- secas pastagens com placas de ranchos na porteira, muitos com esculturas em ferro representando a típica cena do velho oeste (cowboys, cactus e cavalos);
- perfuradeiras de petróleo martelando o solo na coleta do ouro negro;
- casas velhas e descuidadas, com junk (lixo) empilhado nos jardins;
- mansões construídas na beira da highway (por que alguém constrói uma casa, ainda mais um casarão, na beira de uma movimentada pista? seria um amante da estrada? talvez um exibicionista?);
- cidadezinhas empoeiradas com seus belos prédios históricos caindo aos pedaços, entregues às almas do século retrasado;
- novos bairros e suas incontáveis lojas de cadeias dos séculos XX e XXI tinindo seus letreiros que massificam todos os novos bairros de todas as cidades deste país, causando a estranha sensação de que por mais que se ande, nunca se consegue sair do lugar;
- comida, muita comida: desde cadeias de fast-food a birosquinhas de BBQ (barbecue, que não é o churrasco brasileiro como muitos pensam, e sim carnes defumadas, como costela e linguiça, num molho marrom adocicado), coloridas barraquinhas de tacos e tortillas, vendedores de melancias, melões, pêssegos e mangas perfumadas e suculentas;
- um homem com um copo enfiado no vazio do braço amputado pedindo esmola no cruzamento na subida de um viaduto;
- uma igreja das Testemunhas de Jeová;
- um estabelecimento de streap-tease chamado Xoticas (pronuncia-se "Exóticas");
- um outdoor com uma campanha sobre cordialidade e cidadania;
- uma placa nos arredores de uma cadeia alertando motoristas para não darem carona a ninguém, pois podem ser fugitivos.

Paramos para ir ao banheiro na bela e esquecida Rio Grande City, fundada em 1848 e que já foi uma das principais rotas de comércio entre os EUA e o México. Sua placa indica que há 11.923 habitantes. Não se arredonda nada por aqui e não faço idéia sobre quando foi a última atualização. Imagino uma cidade sem mortes nem nascimentos. Estável e permanente, sem curvas de declínio ou crescimento. A highway atravessa o centro histórico. É impossível ficar alheia àqueles prédios semi-abandonados com placas e sinais ainda em caligrafia antiga do início do século XX. Belas casas que pararam no tempo para contar uma história de gerações, mas que as novas gerações simplesmente ignoram. Consigo ver as sombras de mulheres de anquinhas e sombrinhas passeando com seus sapatos de cetim e suas luvas de rendas, acompanhadas por seus esposos trajando ternos bem-passados e olhando para seus relógios de bolso. Eu não sei nada sobre aquele lugar, mas posso sentir o cheiro de colônia de uma época que não vivi. As velhas paredes sussurram passado.

No meu primeiríssimo e novo Blackberry busco no Google mais informações sobre a cidade. Descubro que a ex-primeira dama Lady Bird Johnson ficou hospedada no hotel histórico para uma viagem com o propósito de conhecer melhor as flores selvagens da primavera. Gosto disto. É uma nobre razão para se viajar e emana contraste também: inocência e aristocracia. Do lado de fora do posto, um homem de meia-idade dorme de pernas cruzadas num banquinho à sombra, a aba dianteira do seu chapéu de cowboy a lhe cobrir seus olhos. Da estrada, três homens no banco da frente de uma caminhonete gritam gracinhas para mim. Confesso que me sinto lisonjeada. Quando se sai do Rio de Janeiro, a terra das ousadias, toda mulher acaba sentindo falta de um fiu-fiu. Entro no posto. Eu e W somos os únicos clientes. O banheiro está trancado e temos que pedir a chave ao atendente. Pergunto em inglês a razão disto, mas noto que ele não me entende bem. Mudo para espanhol e ele responde que é para evitar a delinquência, já que vários clientes depredam o banheiro. "Teve um que deixou merda no chão e eu que tive que limpar".

Paramos para almoçar na cidadezinha de Zapata, no restaurante Paraiso, cuja especialidade é chicken fried steak, ou seja, bife frito da mesma maneira que se frita galinha por aqui, com uma grossa e crocante camada empanada sobre a carne. É domingo, 13h30 e o lugar está vazio. Isto não me parece muito bom. W diz que é porque aos domingos as famílias fazem churrascos nos seus quintais. Peço uma porção pequena e por US$ 8,00 como um bifão com molho gravy, salada de alface e tomate, purê, 2 fatias de pão de forma, arroz e feijão refrito. A não ser que você seja uma cruza de cavalo com leão, jamais peça uma porção grande neste país. Depois de comer metade da minha refeição, meu estômago já não aguenta mais -- não apenas porque não há mais espaço, mas verdade seja dita, a comida do Paraiso é meio infernal. Aos poucos os clientes vão chegando. 90% são senhores e senhoras de cabecinha branca e chapéus de cowboy. Parecem já ter estado ali centenas de vezes nas últimas quatro décadas.

Voltamos para a estrada. Observo o vôo dos falcões enquanto escutamos velhas revolucionárias canções irlandesas. Ao entrar em Laredo, enxergo as duas grandes bandeiras mexicana e americana flamulando no calor tórrido da tarde. Há uma sensação de conforto e alívio ao se chegar em casa, mas imediatamente já começo a planejar a próxima viagem. Contrastes pessoais. Tudo é tão yin yang nas fronteiras da minha alma.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"Piensa en mi, llora por mi..."

"Seu nome é Jenny e ela é morena, 1,65m, 50kg, longos cabelos negros, 24 anos de idade e tem como hobbies assistir televisão e ouvir música. Trabalha em uma maquiladora e quer conhecer homens com idades entre 24 e 25 anos que compartilhem os mesmos interesses. Novamente, Jenny tem 24 anos e quer muito conhecer você, portanto ligue agora para conhecer Jenny e desfrutar deste novo encontro".

Quarta-feira de uma bela lua cheia em Laredo. Nada de Facebook, My Space ou Match.com: na 100.5 FM, o correio sentimental não foi substituído pelas novas mídias. Pelo contrário, continua vivíssimo unindo solitários em busca do amor. A voz suave e sensual da DJ comunica em espanhol a lista dos anunciantes. Extensa lista de homens e mulheres românticos e apaixonantes, prontos para se apaixonarem. Jenny, a morena petite mexicana, espera em casa pela ligação daquele que pode ser o grande amor da sua vida. Homens de todo o sul do Texas e norte do México se alvoraçam para ligar o número anunciado pela rádio e entrar em contato com a versão radiofônica de Jenny.

A DJ toca a próxima canção. O Grupo Mojado entra com o mega hit sensação brasileiro dos anos 90 que soa ainda mais hit sensação quando hablado en español. É, o amor não tem idade nem fronteiras. A dor de corno também não.


Piensa En Mi - Grupo Mojado

Café, hookah, vinho e uma noite que flui



Neste meu primeiro mês de aniversário em Laredo City, descobri um dos lugares mais agradáveis da cidade: Cuadro Cafe. Décor super aconchegante, com mesinhas e mobiliário lounge cheios de almofadas, canecas de café com uma plantinha de bambu sobre as mesas, garrafas de vinho espalhadas por todos os lados, posters artísticos, quadros, fotografias, máscaras africanas e um palquinho com caixas de som, microfone e bateria pronto para receber uma banda. Fui pela primeira vez na tarde desta última terça-feira. Levei meu laptop, pedi um iced caramel mocha e passei a tarde inteira me deliciando naquele pedaço de cultura urbana tão nada a ver com a cidade.
Ah, nada como as ilhas! O lugar pertence a três jovens e simpáticos sócios na casa dos vinte anos. São eles quem tomam conta do lugar, fazem os cafés e servem os clientes. Fui praticamente a única cliente ali a tarde inteira. Confesso que esperava um público maior, até porque existe em Laredo uma universidade (Texas A&M International University) e uma faculdade. Pelo visto, contudo, não existe uma cultura de coffee shop. O que é uma pena. Alguns dos melhores momentos da minha vida foram regados a cafeína e vinho em cafés simpáticos nos meus anos universitários em Lawrence, Kansas.

Voltei ao Cuadro ontem à noite, para minha primeira girls' night out, ou seja, uma saída só com as meninas. Só as mulé! Já estava sentindo falta de estar num universo feminino. Além de agradabilíssimo, o local é BYOB, ou seja Bring Your Own Beer -- você pode levar qualquer bebida, em qualquer quantidade, e paga apenas US$ 5 pela consumação. Esta taxa ainda inclui o serviço de abrir suas garrafas, taças e gelo. E não é só isto: em agosto, quem levar sua própria bebida ganha uma rodada de hookah, aquele cachimbo à base d'água muito usado nos países árabes. Em outras palavras: perfeito.

Fui com Fabi e sua amiga Laurie, quem conheci ontem à noite. Ambas são advogadas e trabalham numa ONG que oferece serviços jurídicos para quem não tem condições de pagá-los. Fabi é local da cidade e a conheci através de W. Eles, por sua vez, se conheceram durante os trabalhos voluntários da campanha de Obama. Fabi acaba de voltar a Laredo após ter morado em Austin, Texas, por oito anos. Para mim, é bom vê-la se readaptando à sua cidade natal (lembrando que tudo é válido como fonte de inspiração). Ela reconhece as deficiências locais, mas parece estar feliz. Muito inteligente e extrovertida, tomei uma simpatia rápida por esta jovem de olhos grandes e lindo cabelão encaracolado. Laurie é californiana e mora aqui há dois anos. Muito simpática, parece uma estátua de marfim de tão branquinha e delicada. Quando perguntei o que ela achava da cidade, sua resposta foi hesitante: "bom, estou me adaptando". Ri e disse "isto significa que você está odiando." Gargalhadas compartilhadas a três.


E assim a noite foi fluindo, entre vinhos, tragadas de hookah com sabor de maçã e mel, velhas canções de James Taylor na voz e violão de dois filipinos que cantavam como anjos (que vozes, que vozes!), algumas confidências e muitas risadas. Tudo muito leve, como a doce embriaguez do meu vinho espanhol de La Rioja (propositalmente escolhido na minha ida ao supermercado: eu precisava de umas forças flamencas para levantar meu ânimo que estava meio enviezado nos últimos dias). Ao redor, mesas vazias. Apenas um grupo de filipinos amigos dos músicos, um outro grupo de três pessoas e dois casais que foram embora pouco depois de chegarmos. No big deal. Às vezes não precisamos de nada mais além de um coração cheio, um peito aberto e boas gargalhadas para curar qualquer aproximação de tédio. E vivam as ressacas das quintas-feiras!