segunda-feira, 11 de maio de 2020

Ruminagens sobre o presente

Juliana nas Termas de Caracala, Roma, Italia, janeiro de 2020
A autora nas Termas de Caracala, Roma, Itália, contemplando o passado romano num então presente janeiro de 2020
2020 começou com a paz de espírito de quem, aos poucos, vai se dando conta que maturidade não é fake news. Fui dormir antes da meia-noite. Há 25 anos, eu teria visto o alvorecer rosa dourado do ano novo cintilar num pé de caatinga às margens do meu nativo Rio São Francisco. Há 15 anos, no auge da minha boemia dos vinte e algo, eu teria acordado com o bater das ondas na areia da praia de Copacabana segurando uma garrafa de cidra barata como testemunha. Em 2020, despertei com os fogos de artifício na distância de algum lugar no inverno de Houston, Texas, onde construí meu atual lar. Cada foguete, uma fada do passado ao meu ouvido: “Escuta-me! Reverbero as explosões do seu coração de outrora! Vem reviver a minha chama! Injeta festa na alma!” Senti o coração pulsar centímetros cúbicos a mais de nostalgia enquanto um novo ano se abria. Aí então o cérebro mudou a marcha, passando da ré para o sonho da viagem de férias que estava prestes a ocorrer. Porém, virei para o lado, dei um beijo na testa do meu marido que já roncava em uníssono e dormi com a leveza dos que já viveram o suficiente para destilar recordações e planos sem se embriagar. A beleza do amadurecer está nisto: o presente começa a ganhar a batalha sobre o passado e o futuro. Jamais saberia eu, que cerca de três meses depois daquela noite, o mundo iria parar em proporções semi-apocalípticas e que eu teria que rever o conceito de estar presente para lidar com a pandemia do século.

Dali a poucos dias, eu partia para a cidade eterna, Roma, em uma das muitas viagens que tive o privilégio de vivenciar. Acompanhei o nascimento da minha sobrinha, filha da minha irmã que por aquelas bandas há alguns anos se instalara. Foram três semanas de um sentimento arrebatador de plenitude: cercada de família, da chegada de uma nova vida, de descobertas e gargalhadas terapêuticas entre as icônicas ruínas do império romano. A minha vida naquele momento parecia estar completamente no lugar. Foram tantos anos batalhando dilemas - trabalho, saúde, mudança de país, casamento, dinheiro, ter ou não ter filhos e tudo mais que caiba nos parênteses - sempre aguardando a chegada da tal estabilidade. Naqueles dias de janeiro eu finalmente me brindava com taça de cristal, saboreando cada momento do meu presente, mas consciente do meu privilégio, consciente do que construí no sentido material e psicológico e consciente, sobretudo, de que todas aquelas experiências extasiantes eram passageiras. Entre cursos de life coaching e o arsenal paramilitar de auto-ajuda da Internet, aprendi que a vida é impermanente. E não deu por outra. A viagem intercontinental de volta ao Texas já anunciava que o mundo tomava outras dimensões e que a humanidade caminhava em areia movediça. 

Máscaras nos aeroportos. Os olhares de terror e asco a mim dirigidos quando espirrei no terminal. Em semanas, o mundo social se fechou e a vida se recolheu para dentro de casa. O nirvana romano virou página do passado e não houve maturidade ou life coaching suficiente para aguentar o tamanho da transformação (ou perceber de imediato que a realidade estava dando a oportunidade de um toque de recolher espiritual). A ruptura foi cavalar. Como me firmar na realidade se a realidade era tão imprevisível? Foi difícil me firmar no presente. A mente viajava em velocidade supersônica para lugares escuros: haveria emprego? Meus pais vão morrer? Irei parar num hospital entubada sem a possibilidade de contato humano? Em diversas ocasiões precisei respirar com meditação guiada para não perder o eixo. E aí veio o clarão da transcendência na forma de um curso online para enfrentar os novos tempos: a realidade é que a vida nunca foi, não é e nunca será previsível. Repito: a vida não é, nunca foi, nem nunca será previsível. Pensar de forma contrária é pura ilusão. 

Antes de COVID-19 nada garantia que sairíamos de casa pela manhã e retornaríamos sãos e salvos para o jantar. Nada garantia que nossos sonhos seriam alcançados ou que nossos corações não se partiriam em mil pedaços. Ainda que eu tivesse metas e planos, passei boa parte da vida recolhendo os cacos dos sonhos que não afloraram. A realidade sempre deu um jeito de se mostrar rainha e ai de nós, virgem Maria, ao tentarmos resisti-la. Existe receita sim para enfrentar o incerto: a não-resistência. Aceitar o presente imperfeito que chega com máscaras respiratórias, distanciamento social e adiamento de planos. Aceitar o presente é nada mais que aceitar o óbvio, ente escorregadio que uma hora faz total sentido e em outro gangrena horizontes. Lembrando que o presente também passará, pois uma das poucas leis universais é a da impermanência. Não confundir com passividade: existe lugar para a luta, mas é necessário ser estratégico. A luta, neste contexto, é pela volta da saúde coletiva, pelo afastamento da doença ou da possibilidade da morte: lutar é lavar as mãos, descontaminar as sacolas de supermercado, ficar em casa (vale também lutar para descontaminar a sociedade das cegueiras político-sócio-econômicas pré-isolamento e talvez agora seja o momento mais adequado). 

Ainda não é momento para fogos de artifício. O mundo segue repleto de cadeados que limitam o nosso ir e vir e há uma longa estrada pela frente até a estabilização da curva e a criação de uma vacina. E por isto mesmo, se assim o presente desejar e não puxar o meu tapete, esta noite vou deitar antes da meia-noite, dar um beijo no meu marido e dormir determinada a pensar que em meio de toda esta bagunça ainda vivo cercada de amor, saúde e privilégios. Porque é no presente que vivemos.


Texto publicado pela primeira vez em 11 de maio de 2020 na coluna Amigos que Escrevem, blog Café Extra Forte. 

Um comentário:

  1. Viagem desafiadora desenhada no seu lindo texto: voltar-se para dentro de casa e de si mesma...O toque de recolher espiritual anuncia maturidade, autoconhecimento, sábias reflexões...Tim tim ao presente eleito! Carpe Diem! Grande abraço.

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