terça-feira, 18 de agosto de 2009

Lombriguices

Verdade que temos muitas fomes, outro nome para ambição. Mas falemos hoje de fome orgânica mesmo. Tudo isto porque a matéria de capa do último domingo do jornal local, o Laredo Morning Times, era sobre o fato do condado de Webb, o qual Laredo é a capital, ser o 5o no Texas com a maior taxa de obesidade. De certa forma, nada tão "anormal", considerando que no Brasil 20% dos homens e 1/3 das mulheres são obesos, segundo dados do IBGE. Mas a verdade é que o jornal comprova o que os olhos não mentem. É impossível não prestar atenção nos corpos mais que roliços desta região. E se eu não parar de devorar tacos, enchiladas, feijão refrito, costela de boi e manteiga de amendoim com mel, vou passar a fazer parte das estatísticas.

Não sei para você, mas para mim comer é prazer. Não é apenas saciar a fome e encher a barriga. Comer é permitir-se sentir a textura de cada alimento, experimentar a combinação de temperos, sentir o aroma que abre o paladar e faz salivar a boca. É a forma mais primitiva de masturbação. Não é à toa que comer é sinônimo pra fuque-fuque. São prazeres comparáveis e até compatíveis. Todo mundo já deve ter ouvido falar na tal pesquisa feita com mulheres americanas: "se você tivesse que escolher entre parar de fazer sexo e parar de comer chocolate, o que escolheria?." A mulherada escolheu o chocolate como o homem dos seus sonhos. Claro que isto nos leva a crer que as americanas precisam de mais terapia do que nós brasileiras, mas enfim, esta hipérbole exemplifica o fascínio de alguns de nós com comida.

Nos Estados Unidos a presença de comida é algo quase opressor. Comer, comer, comer é anunciado por todos os lados. As placas de restaurantes e cadeias de fast-food piscam incessantemente, 24h. Caminhar por um supermercado é uma experiência avassaladora, tamanha a quantidade e variedade de alimentos. Tudo em porções tamanho gigantes, com muito creme, muito molho, muito queijo, muito açúcar. Um copo de refresco em tamanho pequeno equivale a um tamanho grande na maioria dos estabelecimentos brasileiros. Em Laredo, a cozinha típica é tex-mex, uma mistura de comida texana com mexicana. Em outras palavras: muito feijão refrito (o nome já fala tudo), muita salsa, pimenta, mole (um molho para carnes que leva chocolate, amendoim e muito tempero) e muitas tortilhas para acompanhar os pratos. A expressão tortilla belly (barriga de tortilha) é bastante comum por aqui.

Sempre fui de bater um pratão de qualquer coisa. Nunca fui uma pessoa enjoada para comer, nem mesmo quando criança. Alface, tomate, macarrão, melado de tamarindo e picolé napolitano eram tudo a mesma coisa: comida. Já fui também o terror da vizinhança: quando eu almoçava na casa de minhas amigas de infância, as mães e pais se horrorizavam com o tamanho das minhas porções. Minha lombriga era faminta. Como já dizia o véi Janu, meu avô paterno baiano, "coma hoje porque amanhã pode não ter". Também sempre gostei de experimentar coisas exóticas: no México, pedi de aperitivo gusanos fritos, uma iguaria local: trata-se de um tipo de verme, o mesmo usado na tequila! E não é que depois de entupi-los com guacamole e pimenta brava não eram bem saborosos? Mas ainda não consigo encarar os pickles de pé de porco saboreados por aqui.

Aprendi a comer de forma saudável ao longo da vida. Morei em alojamento universitário com cozinha vegetariana, dividi apartamento com uma amiga carioca que adorava um mato (hoje ela inclusive germina seus grãos), me inspirei com amigos que sabem cozinhar delícias simples e saudáveis. Gosto de uma beringela, peixe fresco, pão integral, uma rúcula com molho de iorgurte. Mas confesso que de tempos e tempos eu enfio o pé na jaca, ou melhor, na gordura e no açúcar. E de com força. Que o diga minha amiga que me viu devorando um sanduíche de banha em Sevilha no ano passado. Então quando a fase junk chega, a comida vira meu canto de sereia e muitas vezes leva tempo para eu ter a disposição de me amarrar para não cair nas suas tentações. A balança já chegou no ponto onde sei que é necessário frear. Este sempre foi o meu truque: sou um baita dum ioiô, mas dentro de um limite de não mais de 5kg acima do meu ideal. Pena que depois dos 30 anos os 5kg a mais cheguem de forma pra lá de acelerada. Saudades daquele metabolismo feroz dos velhos tempos.

Minha mãe acaba de chegar para passar um mês de férias. Recém descobriu um diabetes e está cheia de restrições alimentares. É, mas tou achando que vou aproveitar sua chegada pra dar uma chafurdada numa geléia diet, um pudinzinho sem açúcar...Ah, estas sereiazinhas do século XXI.

Um comentário:

  1. Digamos que o problema dos americanos não é somente a comida, mas a falta de exercicio...então coma tudo o que tem direito, mas nao pegue no volante, vai a pé pensando nas longas caminhadas na orla carioca. Mande um beijo pra sua mami!! saudades de voce!

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Eu adoro um comentário sobre as minhas coisices. Escreve, escreve!