domingo, 30 de agosto de 2009

A chuva que não me molhou

Choveu nesta terra quente e eu não vi. A chuva correu de mim como eu agora corro das obrigações. Foi uma chuva torrencial de alguns minutos, eu soube. Eu estava fora da cidade e não ouvi, não senti, não me molhei. Uma chuva que me enganou: gordas nuvens dissimuladas, celulites de excesso d'água naquele céu de azul berrante que 24h antes não diziam nada que romperiam sobre o meu telhado. Trapaceira. A chuva que espero há dois meses para lavar minha cabeça, purificar meus sentidos, molhar as partes que querem se fazer áridas contra a minha vontade. Queria escutar o som de Laredo na chuva, inspirar o cheiro de Laredo na chuva, sentir o meu corpo em Laredo na chuva. Queria me batizar na chuva que carrega a água do já deplorável Rio Grande, pingos de contrabando centenário, gotas fortes de mexicanos em fuga, garoa de amores delimitados por uma fronteira de feridas abertas. Água doce, água salobra, que gosto tem esta água que cai do céu sem me avisar? Pergunte ao mato, pergunte ao vento, pergunte aos arbustos que esverdejaram quando entrei na cidade e o céu estava azul-fim-de-mundo, belo, sórdido e medonho, um azul sem piedade, e a terra cheirava finalmente a terra e o pó agora era finalmente lama. Pague agora, gota por gota: não te darei o gosto de derramar minhas lágrimas. Represarei minhas águas para o momento exato em que eu quiser exibir o quão caudalosa eu também posso ser.

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PS: Não faz duas horas que escrevi estas linhas acima. Consegui pirraçar a natureza: chove um Rio Grande volumoso sobre a minha cabeça. Laredo está em baixo d'água. Preciso sair e mergulhar um pouco.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Descongelando

Esta semana fará dois meses que aportei no hemisfério norte. Não chega a ser um marco para comemoração (apesar de crer veemente que basta ter vontade para abrir um espumante), porém na quarta-feira, dirigindo sozinha por uma larga avenida por onde eu jamais havia dirigido, senti primeiramente a deliciosa sensação de estar começando a me familiarizar com os meus entornos. Logo em seguida, algo maior que me fez sorrir enquanto aguardava o sinal abrir: a sensação de estar começando a descongelar, a vencer uma insegurança e resistência que se apoderavam de mim. O mais interessante é que foi necessário a chegada da minha mãe em temporada de férias para me dar conta disto. E para ajustar meu termostato. Estas mães que nos fazem nascer e renascer tantas vezes ao longo de uma vida.

Já morei em pequenas, médias e grandes cidades. Já me internei sozinha em hospital queimando de febre proveniente de infecção renal (e raiva, no nível emocional); cozinhei banquetes para mim mesma; viajei sozinha por montanhas nevadas; me embebedei até vomitar num bar de tango sem conhecer uma alma porteña; dei palestra em universidade americana para mais de 50 coronéis estrangeiros sobre "o papel da mulher na sociedade moderna"; rebolei o tchan umas quinhentas vezes; amei algumas; fui traída e chorei convulsivamente por meses; escalei um vulcão ativo; aprendi depois de um incêndio no meu apartamento que não levamos nada da vida a não ser memórias; cantei em banda de rock; tomei chá de rabo de cascavel; e pela terceira vez faço uma mudança para os Estados Unidos, lugar que já me acolheu por mais de seis anos no passado. Entre estas e outras, acumulei estoque mais do que suficiente para me virar sozinha, enfrentar a vida ou qualquer outro termo sinônimo. Ainda assim, confesso que travei assim que pus os pés em Laredo.

Medo de abrir as gavetas da minha nova casa. Medo de revirar as caixas empilhadas na garagem. Medo de andar pela grama verde e sempre úmida do jardim. Medo de pegar o carro. Medo de abrir algumas persianas. Medo de conhecer pessoas. Medo de embarangar. Medo de mudar o trajeto de casa ao supermercado. Medo de virar inútil e medíocre. Um medo que chegava mais ou menos da hora do jantar, se escondia temporariamente durante uma viagem de final de semana e reaparecia durante o banho. De repente, todas as barreiras e fronteiras já desbravadas pareciam placebo.

As razões eram óbvias e eu conseguia racionalizá-las. Cá estava eu começando algo completamente novo, um casamento de verdade, para valer, com direito a assinatura em cartório e o compromisso de formar família. Por mais liberal que seja a minha cabeça, havia toda uma instituição por trás da minha chegada a estas terras. Cá estava eu sem trabalho, com todo o tempo do mundo nas mãos -- o tempo que eu sempre quis, mas o que fazer com ele? Como aproveitá-lo para que não se perca em tardes vazias arrancando cutículas e enchendo a cabeça de gordas minhocas? Como otimizá-lo? Quais eram mesmo aqueles planos que eu tinha há anos e queria colocar em prática? Até muito pouco tempo atrás eu me jogava no burburinho carioca com vista para Copacabana, na correria da vida corporativa, nas festas repletas de pessoas interessantes, viajadas, globalizadas. Então caio neste lugar tão singular e tão árido de vida cosmopolita. Cá estava eu tendo que começar do zero, fazer amigos e me fazer ouvir.

W tem sido super amigo e companheiro, me incentivando a ser sempre a mulher "destemida" e curiosa que ele conheceu. Se a vida conseguiu me dar um pouquinho de sabedoria, uma delas é que não podemos e não devemos nunca jogar nossas amarras e frustrações no outro. As paranóias estavam na minha cabeça e era necessário agir. Já tive alguns momentos de paralisia na vida, portanto atualmente é mais fácil diagnosticá-los e tomar medidas profiláticas.

Primeira dose: numa quarta-feira qualquer no meio da tarde, abra uma garrafa de chardonnay e faça um brinde para lembrar-se que de tempos em tempos a vida pode ser vivida sem relógio e sem burocracias. É incrível a capacidade que temos de nos burocratizar mesmo quando em período sabático. Em seguida, mude os móveis de lugar. Mude novamente só para pirraçar seu próprio senso de organização. Compre para o banheiro de hospédes um sabonete líquido premium mesmo contra a vontade do seu cônjugue (e mesmo que o dinheiro seja dele). Também jogue fora aquele abajur de cetim cor-de-repolho hor-ro-roso que a ex dele deixou de lembrança. Catuque as caixas intocáveis e descubra lindos objetos de viagem que seu cônjugue nem se lembrava mais que existiam. Dê um jeito de, aos poucos, ir tirando da sala aqueles quadros que você jamais compraria, mas para não magoar seu querido, pregue-os num quarto que você quase nunca entra. E, finalmente, pegue o carro e comece a conduzir por ruas nunca antes navegadas. Perca-se. Deixem que buzinem atrás de você. Entendo: não existe receita de bolo para a vida, mas para mim funcionou.

E onde é que entra Dona B, a progenitora? Tirando o chardonnay, ela catalizou cada uma dessas ações. Queria arrumar a casa para tê-la aqui, recebê-la com um bom sabonete, comprar-lhe um hidratante de mãos para aliviar este ar tão ressacado. Em doses homeopáticas, fui também me reidratando de mim mesma, deixando escapar a essência que volta e meia quer escorrer pelo ralo. Até entrei em aula de violão pela primeira vez na vida. A casa que foi me dada de braços tão abertos foi ficando mais minha. As impressões digitais estão agora mais visíveis. Mas ainda há trabalho a ser feito.

Observar minha mãe também tem sido teurapêutico. Em menos de uma semana já havia revirado todas as caixas, todos os closets, aberto todas as portas, percorrido o jardim de cabo a rabo e colhido flores, fazendo delas belos arranjo para a sala (como eu não pude pensar nisto antes?). Entrou em aula de desenho, me deixou exausta caminhando no supermercado por três horas seguidas, abriu persianas que eu não ousava tocar, pediu para usarmos lâmpadas mais fortes nos quartos, questionou se o sol nasce mesmo no leste e se põe no oeste, mandou eu comprar meias novas para W, criticou a quantidade de tempero da minha comida, me fez ter mais simpatia pelas feiosas cadelinhas de pêlo áspero Sadie e Precious, as quais ela denominou carinhosamente de Arame e Araminho.

Estas mães que nos parem e que não nos deixam parar. Quando menos me dou conta, foram doses cavalares de curiosidade e ânimo. Um mergulho profundo nas minhas raízes mais embrionárias para não dizer o óbvio. Aguardando aquele sinal vermelho no cruzamento das avenidas McPherson com Lamar, abri um sorriso largo e aumentei o volume do rádio. Abaixei os vidros, me livrando do ar seco e gélido do ar-condicionado. Precisava de calor e de sauna. Meu termostato começava, finalmente, a voltar ao clima tropical.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Galeria 201



De longe o lugar mais aconchegante de Laredo, além da minha cama, é a Galeria 201. Encravada no início da Avenida San Bernardo, no centro histórico da cidade, abriga exposições e eventos culturais. Quem vê a galeria de fora não imagina o pequeno tesouro que se encontra além daquelas portas. Como quase tudo nesta cidade, tem um toque amador: quadros de artistas profissionais misturam-se a trabalhos de alunos de aula de desenho, a caixas de papelão esquecidas nos cantos e a até uma cama portátil encostada num corredor. A impressão é de que o lugar está sempre esperando uma arrumação que nunca chega. Mas é linda, charmosa e convida a sonhar.

A área de exposição das obras fica numa casa centenária. Pequena, talvez esta seja a primeira característica que lhe faz atraente. Casas pequenas geralmente têm alma grande. Casas grandes demais acabam se tornando impessoais e quase sempre desertos de ostentação. Grande parte do charme dessa casa provém de paredes que tiveram seu revestimento arrancado durante a renovação do lugar, deixando à mostra grossas colunas de pedras e tijolos que sustentam o prédio. Paredes desnudas, com entranhas tão expostas. Pedras de tom amarelado que emanam calor, como um amontoado de mulheres centenárias que souberam aproveitar bem a vida e hoje, banguelas, ainda cobrem-se de ouro e rendas, achando graça do tempo que lhes resta. O piso de tábuas de madeira corrida range ao menor caminhar. Uma voz rouca do tempo sob meus pés de novas eras. Sempre mudando de lugar, um recamier bordado de preto tem a medida das minhas ancas. Queria adormecer sobre sua manta já gasta e despertar nua numa tela de Rivera. Uma janela grande que nunca se abre traz iluminação natural através do vidro e veda qualquer sinal de vida racional. Ali dentro somos lúdicos, e que assim seja.

Aos fundos da galeria encontra-se um belíssimo pátio cercado de árvores, cactus, grandes vasos de cerâmica crua e obras de arte, como sereias fêmeas e machos penduradas nos galhos e esculturas de esqueletos observando a todos do telhado. Tem-se vontade de amanhecer ali, almoçar ali, jantar ali. Até mesmo morrer ali, rindo alto enquanto se come uma melancia no final da tarde.

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Tenho ido à Galeria 201 nestas manhãs de agosto, acompanhando minha mãe que está de férias e não hesitou em se matricular na aula de desenho em carvão com modelo vivo. O grupo é pequeno: o simpático professor mexicano Juan, três alunas e a modelo Chris. Jovem e muito branca, sua pele descasca por excesso de sol sem proteção. Cheia de pudores, não se despe completamente: desenlaça a parte superior do biquíni mas cobre os seios com as mãos. De costas para as alunas, tenta manter-se imóvel para que elas lhe retratem suas curvas e sombras. No dia seguinte, me confidencia sorrindo que está com os músculos doloridos de tanto ficar na mesma posição. O ambiente me inspira a fazer qualquer coisa, inclusive trabalho sério: num canto da casa, ligo meu notebook e dou andamento a uma pesquisa de mercado para uma empresa brasileira. Nada como dar uma pausa nestas condições. Não bastasse uma casa com alma, existe também a vibração leve e sedutora de arte em andamento.

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No momento a galeria abriga obras de arte da artista Kathy Sosa, texana de origem mexicana. Uma arte figurativa de cores fortes, repleta de elementos mexicanos retratando belas mulheres mestiças e indígenas. Não encontro originalidade nos quadros (ainda existe algo original em vigor nesta vida cercada de informação?), mas gosto do que vejo. Transmite festividade, luz, cor e faz bem às minhas retinas. Gostaria de ter US$ 3.000 disponíveis para arrematar o Our Lady of Grace, uma Nossa Senhora vestida de índia mexicana com um fundo ornado por diversas Virgens de Guadalupe. Artistas também precisam de capitalismo para sobreviver e continuar inspirando brasileiras tentando se encontrar nestas vastas fronteiras.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Lombriguices

Verdade que temos muitas fomes, outro nome para ambição. Mas falemos hoje de fome orgânica mesmo. Tudo isto porque a matéria de capa do último domingo do jornal local, o Laredo Morning Times, era sobre o fato do condado de Webb, o qual Laredo é a capital, ser o 5o no Texas com a maior taxa de obesidade. De certa forma, nada tão "anormal", considerando que no Brasil 20% dos homens e 1/3 das mulheres são obesos, segundo dados do IBGE. Mas a verdade é que o jornal comprova o que os olhos não mentem. É impossível não prestar atenção nos corpos mais que roliços desta região. E se eu não parar de devorar tacos, enchiladas, feijão refrito, costela de boi e manteiga de amendoim com mel, vou passar a fazer parte das estatísticas.

Não sei para você, mas para mim comer é prazer. Não é apenas saciar a fome e encher a barriga. Comer é permitir-se sentir a textura de cada alimento, experimentar a combinação de temperos, sentir o aroma que abre o paladar e faz salivar a boca. É a forma mais primitiva de masturbação. Não é à toa que comer é sinônimo pra fuque-fuque. São prazeres comparáveis e até compatíveis. Todo mundo já deve ter ouvido falar na tal pesquisa feita com mulheres americanas: "se você tivesse que escolher entre parar de fazer sexo e parar de comer chocolate, o que escolheria?." A mulherada escolheu o chocolate como o homem dos seus sonhos. Claro que isto nos leva a crer que as americanas precisam de mais terapia do que nós brasileiras, mas enfim, esta hipérbole exemplifica o fascínio de alguns de nós com comida.

Nos Estados Unidos a presença de comida é algo quase opressor. Comer, comer, comer é anunciado por todos os lados. As placas de restaurantes e cadeias de fast-food piscam incessantemente, 24h. Caminhar por um supermercado é uma experiência avassaladora, tamanha a quantidade e variedade de alimentos. Tudo em porções tamanho gigantes, com muito creme, muito molho, muito queijo, muito açúcar. Um copo de refresco em tamanho pequeno equivale a um tamanho grande na maioria dos estabelecimentos brasileiros. Em Laredo, a cozinha típica é tex-mex, uma mistura de comida texana com mexicana. Em outras palavras: muito feijão refrito (o nome já fala tudo), muita salsa, pimenta, mole (um molho para carnes que leva chocolate, amendoim e muito tempero) e muitas tortilhas para acompanhar os pratos. A expressão tortilla belly (barriga de tortilha) é bastante comum por aqui.

Sempre fui de bater um pratão de qualquer coisa. Nunca fui uma pessoa enjoada para comer, nem mesmo quando criança. Alface, tomate, macarrão, melado de tamarindo e picolé napolitano eram tudo a mesma coisa: comida. Já fui também o terror da vizinhança: quando eu almoçava na casa de minhas amigas de infância, as mães e pais se horrorizavam com o tamanho das minhas porções. Minha lombriga era faminta. Como já dizia o véi Janu, meu avô paterno baiano, "coma hoje porque amanhã pode não ter". Também sempre gostei de experimentar coisas exóticas: no México, pedi de aperitivo gusanos fritos, uma iguaria local: trata-se de um tipo de verme, o mesmo usado na tequila! E não é que depois de entupi-los com guacamole e pimenta brava não eram bem saborosos? Mas ainda não consigo encarar os pickles de pé de porco saboreados por aqui.

Aprendi a comer de forma saudável ao longo da vida. Morei em alojamento universitário com cozinha vegetariana, dividi apartamento com uma amiga carioca que adorava um mato (hoje ela inclusive germina seus grãos), me inspirei com amigos que sabem cozinhar delícias simples e saudáveis. Gosto de uma beringela, peixe fresco, pão integral, uma rúcula com molho de iorgurte. Mas confesso que de tempos e tempos eu enfio o pé na jaca, ou melhor, na gordura e no açúcar. E de com força. Que o diga minha amiga que me viu devorando um sanduíche de banha em Sevilha no ano passado. Então quando a fase junk chega, a comida vira meu canto de sereia e muitas vezes leva tempo para eu ter a disposição de me amarrar para não cair nas suas tentações. A balança já chegou no ponto onde sei que é necessário frear. Este sempre foi o meu truque: sou um baita dum ioiô, mas dentro de um limite de não mais de 5kg acima do meu ideal. Pena que depois dos 30 anos os 5kg a mais cheguem de forma pra lá de acelerada. Saudades daquele metabolismo feroz dos velhos tempos.

Minha mãe acaba de chegar para passar um mês de férias. Recém descobriu um diabetes e está cheia de restrições alimentares. É, mas tou achando que vou aproveitar sua chegada pra dar uma chafurdada numa geléia diet, um pudinzinho sem açúcar...Ah, estas sereiazinhas do século XXI.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

No exílio, proiba-se comparar

Quando você parte em exílio auto-permitido e auto-proclamado, não se pode comparar o destino para onde se vai com o porto que ficou para trás. Proiba-se. Se você se permitir, arrisca-se a não enxergar as belezas dos arredores presentes e cair na pieguice de um ser com saudadite aguda. Entrará em mode Gonçalves Dias, achando que as palmeiras daqui não são como as de lá. Não são, nunca serão e não devem ter a pretensão de ser.

Quando se sofre de saudadite, você entra em comparações baratas: "ah, aqui tenho que cobrir minha bunda com uma fralda de nadar; que saudades do meu biquininho tropicaliente". Esquece-se de que depois dos 30 anos e muitas colheres de sorvete mais tarde, é melhor mesmo ter um biquíni que lhe cubra as polpas. Não caia na tentação de dizer que lá você pode tomar cerveja no meio da rua, enquanto no lado de cá só em propriedade privada. Poliane-se: aqui as opções de cervejas são infinitas, ainda que não sejam tão estupidamente geladas. Lembre-se que os amigos de verdade são eternos e que qualquer amizade, ainda que passageira, deixa a lembrança de um encontro imortal. Nada morre enquanto as memórias ainda vivem.

Desprenda-se. Aprenda a fazer cupcakes -- nunca se sabe se um dia você precisará alimentar um exército de famintos. Deixe o cabelo crescer se ele ficou curto durante tanto tempo. Volte à era bush se se depilar a cada 20 dias ficou tão mais caro (hmmm, pensando bem, pule este opção e ache uma maneira de fazer dinheiro). Escute canções bregas cantadas em espanhol e aprenda rima a rima, letra a letra -- você pode ser a sensação do próximo karaokê quando voltar à civilização culta e antenada. Enfim, quando você se exilar, deixe encarnar nas suas tripas o espírito do lugar. Não exorcize-o: louve-o. Não se esqueça de onde veio, nem por que partiu, mas abrace o novo e recicle o velho. Mas não permita Deus que morra sem que volte, ao menos uma vez, para lá.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Os contrastes da estrada


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Na estrada, onde toda a vida pulsa mais intensamente porque tudo é novo mesmo quando tudo já começa a parecer familiar, observo a fronteira EUA-México nas quatro horas de viagem para um final de semana na praia em South Padre, Golfo do México. Notam-se grandes contrastes(ou seria um balanço?):
- verdes plantações de cebola;
- secas pastagens com placas de ranchos na porteira, muitos com esculturas em ferro representando a típica cena do velho oeste (cowboys, cactus e cavalos);
- perfuradeiras de petróleo martelando o solo na coleta do ouro negro;
- casas velhas e descuidadas, com junk (lixo) empilhado nos jardins;
- mansões construídas na beira da highway (por que alguém constrói uma casa, ainda mais um casarão, na beira de uma movimentada pista? seria um amante da estrada? talvez um exibicionista?);
- cidadezinhas empoeiradas com seus belos prédios históricos caindo aos pedaços, entregues às almas do século retrasado;
- novos bairros e suas incontáveis lojas de cadeias dos séculos XX e XXI tinindo seus letreiros que massificam todos os novos bairros de todas as cidades deste país, causando a estranha sensação de que por mais que se ande, nunca se consegue sair do lugar;
- comida, muita comida: desde cadeias de fast-food a birosquinhas de BBQ (barbecue, que não é o churrasco brasileiro como muitos pensam, e sim carnes defumadas, como costela e linguiça, num molho marrom adocicado), coloridas barraquinhas de tacos e tortillas, vendedores de melancias, melões, pêssegos e mangas perfumadas e suculentas;
- um homem com um copo enfiado no vazio do braço amputado pedindo esmola no cruzamento na subida de um viaduto;
- uma igreja das Testemunhas de Jeová;
- um estabelecimento de streap-tease chamado Xoticas (pronuncia-se "Exóticas");
- um outdoor com uma campanha sobre cordialidade e cidadania;
- uma placa nos arredores de uma cadeia alertando motoristas para não darem carona a ninguém, pois podem ser fugitivos.

Paramos para ir ao banheiro na bela e esquecida Rio Grande City, fundada em 1848 e que já foi uma das principais rotas de comércio entre os EUA e o México. Sua placa indica que há 11.923 habitantes. Não se arredonda nada por aqui e não faço idéia sobre quando foi a última atualização. Imagino uma cidade sem mortes nem nascimentos. Estável e permanente, sem curvas de declínio ou crescimento. A highway atravessa o centro histórico. É impossível ficar alheia àqueles prédios semi-abandonados com placas e sinais ainda em caligrafia antiga do início do século XX. Belas casas que pararam no tempo para contar uma história de gerações, mas que as novas gerações simplesmente ignoram. Consigo ver as sombras de mulheres de anquinhas e sombrinhas passeando com seus sapatos de cetim e suas luvas de rendas, acompanhadas por seus esposos trajando ternos bem-passados e olhando para seus relógios de bolso. Eu não sei nada sobre aquele lugar, mas posso sentir o cheiro de colônia de uma época que não vivi. As velhas paredes sussurram passado.

No meu primeiríssimo e novo Blackberry busco no Google mais informações sobre a cidade. Descubro que a ex-primeira dama Lady Bird Johnson ficou hospedada no hotel histórico para uma viagem com o propósito de conhecer melhor as flores selvagens da primavera. Gosto disto. É uma nobre razão para se viajar e emana contraste também: inocência e aristocracia. Do lado de fora do posto, um homem de meia-idade dorme de pernas cruzadas num banquinho à sombra, a aba dianteira do seu chapéu de cowboy a lhe cobrir seus olhos. Da estrada, três homens no banco da frente de uma caminhonete gritam gracinhas para mim. Confesso que me sinto lisonjeada. Quando se sai do Rio de Janeiro, a terra das ousadias, toda mulher acaba sentindo falta de um fiu-fiu. Entro no posto. Eu e W somos os únicos clientes. O banheiro está trancado e temos que pedir a chave ao atendente. Pergunto em inglês a razão disto, mas noto que ele não me entende bem. Mudo para espanhol e ele responde que é para evitar a delinquência, já que vários clientes depredam o banheiro. "Teve um que deixou merda no chão e eu que tive que limpar".

Paramos para almoçar na cidadezinha de Zapata, no restaurante Paraiso, cuja especialidade é chicken fried steak, ou seja, bife frito da mesma maneira que se frita galinha por aqui, com uma grossa e crocante camada empanada sobre a carne. É domingo, 13h30 e o lugar está vazio. Isto não me parece muito bom. W diz que é porque aos domingos as famílias fazem churrascos nos seus quintais. Peço uma porção pequena e por US$ 8,00 como um bifão com molho gravy, salada de alface e tomate, purê, 2 fatias de pão de forma, arroz e feijão refrito. A não ser que você seja uma cruza de cavalo com leão, jamais peça uma porção grande neste país. Depois de comer metade da minha refeição, meu estômago já não aguenta mais -- não apenas porque não há mais espaço, mas verdade seja dita, a comida do Paraiso é meio infernal. Aos poucos os clientes vão chegando. 90% são senhores e senhoras de cabecinha branca e chapéus de cowboy. Parecem já ter estado ali centenas de vezes nas últimas quatro décadas.

Voltamos para a estrada. Observo o vôo dos falcões enquanto escutamos velhas revolucionárias canções irlandesas. Ao entrar em Laredo, enxergo as duas grandes bandeiras mexicana e americana flamulando no calor tórrido da tarde. Há uma sensação de conforto e alívio ao se chegar em casa, mas imediatamente já começo a planejar a próxima viagem. Contrastes pessoais. Tudo é tão yin yang nas fronteiras da minha alma.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"Piensa en mi, llora por mi..."

"Seu nome é Jenny e ela é morena, 1,65m, 50kg, longos cabelos negros, 24 anos de idade e tem como hobbies assistir televisão e ouvir música. Trabalha em uma maquiladora e quer conhecer homens com idades entre 24 e 25 anos que compartilhem os mesmos interesses. Novamente, Jenny tem 24 anos e quer muito conhecer você, portanto ligue agora para conhecer Jenny e desfrutar deste novo encontro".

Quarta-feira de uma bela lua cheia em Laredo. Nada de Facebook, My Space ou Match.com: na 100.5 FM, o correio sentimental não foi substituído pelas novas mídias. Pelo contrário, continua vivíssimo unindo solitários em busca do amor. A voz suave e sensual da DJ comunica em espanhol a lista dos anunciantes. Extensa lista de homens e mulheres românticos e apaixonantes, prontos para se apaixonarem. Jenny, a morena petite mexicana, espera em casa pela ligação daquele que pode ser o grande amor da sua vida. Homens de todo o sul do Texas e norte do México se alvoraçam para ligar o número anunciado pela rádio e entrar em contato com a versão radiofônica de Jenny.

A DJ toca a próxima canção. O Grupo Mojado entra com o mega hit sensação brasileiro dos anos 90 que soa ainda mais hit sensação quando hablado en español. É, o amor não tem idade nem fronteiras. A dor de corno também não.


Piensa En Mi - Grupo Mojado

Café, hookah, vinho e uma noite que flui



Neste meu primeiro mês de aniversário em Laredo City, descobri um dos lugares mais agradáveis da cidade: Cuadro Cafe. Décor super aconchegante, com mesinhas e mobiliário lounge cheios de almofadas, canecas de café com uma plantinha de bambu sobre as mesas, garrafas de vinho espalhadas por todos os lados, posters artísticos, quadros, fotografias, máscaras africanas e um palquinho com caixas de som, microfone e bateria pronto para receber uma banda. Fui pela primeira vez na tarde desta última terça-feira. Levei meu laptop, pedi um iced caramel mocha e passei a tarde inteira me deliciando naquele pedaço de cultura urbana tão nada a ver com a cidade.
Ah, nada como as ilhas! O lugar pertence a três jovens e simpáticos sócios na casa dos vinte anos. São eles quem tomam conta do lugar, fazem os cafés e servem os clientes. Fui praticamente a única cliente ali a tarde inteira. Confesso que esperava um público maior, até porque existe em Laredo uma universidade (Texas A&M International University) e uma faculdade. Pelo visto, contudo, não existe uma cultura de coffee shop. O que é uma pena. Alguns dos melhores momentos da minha vida foram regados a cafeína e vinho em cafés simpáticos nos meus anos universitários em Lawrence, Kansas.

Voltei ao Cuadro ontem à noite, para minha primeira girls' night out, ou seja, uma saída só com as meninas. Só as mulé! Já estava sentindo falta de estar num universo feminino. Além de agradabilíssimo, o local é BYOB, ou seja Bring Your Own Beer -- você pode levar qualquer bebida, em qualquer quantidade, e paga apenas US$ 5 pela consumação. Esta taxa ainda inclui o serviço de abrir suas garrafas, taças e gelo. E não é só isto: em agosto, quem levar sua própria bebida ganha uma rodada de hookah, aquele cachimbo à base d'água muito usado nos países árabes. Em outras palavras: perfeito.

Fui com Fabi e sua amiga Laurie, quem conheci ontem à noite. Ambas são advogadas e trabalham numa ONG que oferece serviços jurídicos para quem não tem condições de pagá-los. Fabi é local da cidade e a conheci através de W. Eles, por sua vez, se conheceram durante os trabalhos voluntários da campanha de Obama. Fabi acaba de voltar a Laredo após ter morado em Austin, Texas, por oito anos. Para mim, é bom vê-la se readaptando à sua cidade natal (lembrando que tudo é válido como fonte de inspiração). Ela reconhece as deficiências locais, mas parece estar feliz. Muito inteligente e extrovertida, tomei uma simpatia rápida por esta jovem de olhos grandes e lindo cabelão encaracolado. Laurie é californiana e mora aqui há dois anos. Muito simpática, parece uma estátua de marfim de tão branquinha e delicada. Quando perguntei o que ela achava da cidade, sua resposta foi hesitante: "bom, estou me adaptando". Ri e disse "isto significa que você está odiando." Gargalhadas compartilhadas a três.


E assim a noite foi fluindo, entre vinhos, tragadas de hookah com sabor de maçã e mel, velhas canções de James Taylor na voz e violão de dois filipinos que cantavam como anjos (que vozes, que vozes!), algumas confidências e muitas risadas. Tudo muito leve, como a doce embriaguez do meu vinho espanhol de La Rioja (propositalmente escolhido na minha ida ao supermercado: eu precisava de umas forças flamencas para levantar meu ânimo que estava meio enviezado nos últimos dias). Ao redor, mesas vazias. Apenas um grupo de filipinos amigos dos músicos, um outro grupo de três pessoas e dois casais que foram embora pouco depois de chegarmos. No big deal. Às vezes não precisamos de nada mais além de um coração cheio, um peito aberto e boas gargalhadas para curar qualquer aproximação de tédio. E vivam as ressacas das quintas-feiras!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Os pássaros

Existe um quintal verdejante em Laredo onde pássaros do tamanho de galinhas atacam diariamente, vorazmente, ferozmente, a bacia de ração de duas feias cadelinhas por quem meu coração começa a amolecer. Dos galhos da bela árvore que sombreia os fundos deste quintal, a gang espera a chegada da manhã, quando a comida de Sadie e sua ciumenta e enlouquecida filha Precious é reposta. Existe uma silenciosa conspiração em andamento sobre aquela fresca grama.

O líder do bando é um corvo invocado de bico sempre aberto. Chega saltitante, peito para o alto, muito macho no seu papel de corvo líder. Seu olhar tem a adrenalina do proibido, o regogizo do sucesso clandestino. Mas também a "medonha dor de um demônio que sonha", como diria Poe. Toma o primeiro pedaço de ração e, assim, dá sinal verde para o resto da horda fazer seu arrastão diário. Em poucos segundos, a grama é ocultada por outros destemidos corvos, gordas pombas acinzentadas e plutônicos pardais. As desgrenhadas cadelinhas, do tamanho dos seus algozes, refugiam-se nos fundos da casa, na sombra do muro. Pra que lutar, se não temos asas? Pra que latir se em breve nossos humanos nos alimentarão novamente com sacos de 10kg de comida? Comam, sirvam-se. Há abundância para todos na América.

Uma conspiração no fundo do quintal. A submissão à raça humana é apenas um disfarce bem planejado. As cadelinhas ensaiam seu latido de liberdade. É necessário haver algum tipo de justiça na fronteira. As asas precisam de força para voar. A revolução começa nas garagens e nos quintais frondosos. No prato de ração. Por um prato de ração. O corvo líder, já destemido com minha presença, gralha "fome, nunca mais."

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O homem da carrocinha


E não é que Laredo também tem o homem da carrocinha? Estava em casa no final da tarde quando ouvi ao longe um sonzinho vintage, parecido com aquelas musiquinhas tocadas em circos ou em parques de diversão de cidade de interior. Começou baixinho e à medida em que foi aumentando de intensidade, percebi que algo grande se aproximava. E eis que surge enorme, colorido e extremamente convidativo, um caminhão de doces. Na verdade, um caminhão de tudo o que é porcaria que adoraríamos poder nos entupir diariamente sem culpa, sem cáries, sem banha e sem colesterol: picolé, batata chips, picles, chocolates, caramelos, chicletes, raspadinhas. Tudo o que já foi um sonho e que hoje é praticamente ilegal nestes tempos politicamente corretos.

Senti um sensação também doce e morna ao avistar aquele carro sendo conduzido pela minha nova rua. Fiquei paralisada por uns instantes, sem acreditar que existiam carrocinhas de doces, mesmo em versão motorizada, aqui nestas bandas texanas. Não apenas isto, mas o fato de ainda existirem é o que me provocou mais espanto. Os pensamentos viajaram imediatamente à infância. Passavam pelo meu bairro pernambucano o sorveteiro, o homem do mungunzá e o homem do quebra-queixo. Cada um com seu jingle, ou seja, um assobio original que os diferenciava da concorrência. Eu era fregueza assídua, magra de ruim e com os dentes cariados.

O homem da carrocinha era um senhor com cara de mexicano. Andou devagarinho rua abaixo, a musiquinha tocando tininininim ,mas nenhuma criança veio à porta. Eu torcia para que alguma aparecesse gritando suada e em êxtase atrás de um picolé. Se fosse nos meus tempos eu já teria aporrinhado a paciência da empregada para me emprestar umas moedas. Onde estavam as crianças? Será que alguém contou sobre o homem da carrocinha versão Brasil? Não, o daqui não vai arrancar seu fígado! Venham, comam os doces, não se amarguem! Mas nada. A clientela estava vazia. No ar, um que de inocência perdida. Ouvi a musiquinha trafegando pelo bairro por mais uns minutos até sumir no abafado da tarde. Nas minhas observações que me levam a crer que estou ficando velha, constato que ainda existem carrocinhas, mas não mais crianças como antigamente.

Memory lane

Um dos termos mais belos da língua inglesa para mim é memory lane, algo como "estrada da memória", usado geralmente para evocar o passado e suas lembranças saudosistas. Ontem fui conhecer a memory lane de Laredo. Decidi tirar a tarde para passear pelo centro histórico da cidade e senti-la mais de perto, conhecê-la a partir das suas artérias mais cheias de saudades, gravitar ao redor do seu cordão umbilical. O bairro onde moro é muito agradável, porém relativamente novo, com casas relativamente novas, um típico subúrbio americano (subúrbio aqui é onde a classe média alta se refugia da vida geralmente caótica dos grandes centros. Laredo não tem o caos das metrópoles, mas as famílias parecem querer se afastar mesmo assim).


O bairro histórico de San Agustin, mais precisamente a Plaza de San Agustin, é o marco inicial da cidade, fundada em 1755 como Villa de San Agustin de Laredo ainda durante a colonização espanhola no México. O pavimento de tijolinhos vermelhos permanece intocado por vários quarteirões. A plaza é uma pacata pracinha com cara típica de cidade de interior: um coreto no meio, jardins bem cuidados e uma igrejinha à sua frente. Ao redor também localizam-se diversos prédios históricos que perteceram aos primeiros moradores. Um deles é hoje o Museu da República do Rio Grande, que além de sede deste governo no século XIX, também foi a residência de um dos seus fundadores.

Em 1840, cerca de 20 anos após o México conquistar sua independência, três estados do norte --Taumalipas, Nuevo León e Coahuila -- segregaram-se por descontentamento com o governo centralista mexicano do ditador Santa Anna e criaram sua própria república federalista. Laredo, então, virou a capital da República do Rio Grande. Quando o exército centralista finalmente avançou sobre Laredo e derrotou os federalistas, Antônio Zapata (não confundir com Emiliano), líder da cavalaria da nova república, teve sua cabeça arrancada e exposta durante três dias para intimidar os oponentes. A República durou apenas 283 dias. De toda forma, Laredo orgulha-se de ter sido a única cidade texana a existir sob sete bandeiras: Espanha, França, México, República do Texas, Confederados, Estados Unidos e República do Rio Grande. Na plaza, todas estas bandeiras flamulam no exterior do museu e no hotel histórico La Posada.


Caminhando pelas ruas de San Agustin, a poucos metros das pontes internacionais que ligam o país ao México, sentia um misto de curiosidade e revolta. Curiosidade por tentar ver os detalhes daquilo que já foi um dia e revolta por ver a realidade daquilo que é hoje. A verdade é que, fora um pequeno trecho preservado localizado em volta da plaza, o restante do bairro é uma espécie de centrão popular onde os belos prédios históricos viraram depósito de bugingangas made in China para venda no atacado ou no varejo. Salvo algumas perfumarias e lojas de roupas e uma ou outra loja com os vestidos de gosto duvidoso de quinceañeras (debutantes de 15 anos, tradição ainda muito forte na cultura mexicana),quase todos os estabelecimentos vendem mares de lixarada cafona plástica e purpurinada. Quando a fome apertou, saí em busca de alguma lanchonete aconchegante com um pouco de alma, mas tudo o que encontrei foram filiais gordurosas de fast-food de galinha frita. Aquela descaracterização dos tempos modernos em pleno solo sagrado da história me tirou a fome. Foi a mesma sensação que tive quando vi uma KFC e um Taco Bell em frente às pirâmides milenares do Egito. Sou 100% a favor da modernidade, mas 0% a favor do tipo de modernidade baseada no consumo desenfreado de porcarias.

Parti então em direção à plaza, que havia conhecido em maio durante minha primeira visita à cidade. Ela permanecia exatamente igual, bonita e bem conservada. Várias pessoas descansavam nos banquinhos de pedra doados por famílias e instituições. A mesma plaza que, no passado, foi palco de celebrações de tribos indígenas após saquearem a cidade, recepções das tropas militares da coroa espanhola e, em 1855, uma batalha entre os grupos políticos rivais Las Botas e Los Guaraches. Me dirigi ao museu e percebi que eu era a única visitante. Perguntei ao simpático senhor da recepção quantas pessoas apareciam ali por dia. Ele disse, com cara de desolação, que às vezes nenhuma. Porém, falou com um certo orgulho que nem sempre foi assim, pois o museu já chegou a comportar 3.000 pessoas por mês nos tempos áureos do turismo. Ou seja, há não mais que cinco anos, quando a violência proveniente dos cartéis do narcotráfico do outro lado da fronteira não era tão pronunciada. As pessoas visitavam o museu em consequência de sua viagem ao México, mas o turismo foi fortemente afetado depois que sequestros, tiroteiros e até explosões de granadas passaram a ocorrer com frequência em Nuevo Laredo. Dizem que atualmente a violência diminuiu, mas a verdade é que as pessoas de Laredo sentem muito medo de cruzar a ponte.


Minha visita ao pequeno museu foi bastante informativa. Eu me deliciei com aquele mergulho no passado. A casa, construída em 1830 e expandida em 1861, ainda tinha o piso, paredes e vigas originais. Havia vários objetos expostos, como uma bandeira original da República do Rio Grande, armas do século XIX e uma representação dos aposentos, como a sala de estar, o quarto e a cozinha.

O quarto era uma representação do período de 1840 a 1880. Ao olhar para aquela cama, pensava se todas as 12 crianças criadas naquela casa tinham sido geradas ali. Me encantei com as lingeries, as sombrinhas e o sapato de mulher. Absolutamente femininos e encantadores.



Na cozinha, havia uma amostra de objetos de ferro facilitadores dos trabalhos das donas de casa, como máquinas manuais lavar roupa, engenhocas de fazer linguiça e batedores de manteiga. Os tataravós dos eletrodomésticos.

Quando terminei minha visita, uma equipe de um canal de TV de Nuevo Laredo se preparava para fazer uma matéria sobre o museu. Na lojinha, me dei de presente um livro de um autor local sobre sua viagem de canoa pelo Rio Grande, "The Tecate Journals". Para W, comprei um livreto sobre a história da organização dos advogados na cidade.

Saí e, guiada pela fome, finalmente encontrei uma lanchonete avulsa (não uma filial de restaurante gorduroso) bem simples a duas quadras dali. A atendente, uma senhora de cabelo ruivo endurecido por quilos de laquê e muita maquiagem nos olhos anotou o meu pedido de um taco pirata: carne de fajita, feijão refrito e queijo derretido enrolados numa tortilha de milho. Sustança para uma tarde cultural!

Satisfeita, sentei-me num banquinho em frente ao antigo Cine Plaza, já desativado porém ainda reluzindo o mesmo letreiro dos anos 40/50. Revezava entre ler meu livro recém-adquirido e observar os arredores e as pessoas. Estava feliz por ter tirado aquela tarde para ir à rua e quebrar minha rotina de ficar horas em casa no computador fazendo um projeto voluntário para uma empresa no Brasil. A rua é onde a vida pulsa, é onde o passado e o presente se consolidam, se entrelaçam e se confrontam. São bastantes especiais aqueles que ainda lutam para preservar a memória da cidade, pois como sabemos um povo sem memória é não apenas um povo sem futuro, mas é um povo de presente insosso também. Laredo me pareceu um lugar bem mais interessante após aquelas horas de imersão no seu legado histórico.

Certamente ainda há muito a ser feito. Existem vários prédios interessantíssimos semi-abandonados, como um velho hotel onde o ditador mexicano Santa Anna ficou hospedado a caminho da batalha do Alamo em 1836, a mais famosa batalha da Revolução Texana. Hoje o hotel parece um cortiço caindo aos pedaços. Toda aquela área poderia ser reformada e revitalizada, com a instalação de cafés, restaurantes típicos, galerias de arte e cinemas, por exemplo. Certamente o turismo local só iria se beneficiar, tornando-se mais independente da cidade vizinha mexicana. Mas como tudo nesta vida se resume a dinheiro, é necessário que algum empresário ainda veja o potencial turístico de "downtown".

Enquanto estava entretida com meu livro, um louco imundo e maltrapilho me pediu um dólar. Era alto, magro e gesticulava bastante. Respondi que não tinha dinheiro, mas ele gentilmente me ofereceu um pouco do seu suco de maçã de caixa. Falei que não queria, obrigada, mas ele insistiu. Respondi negativamente mais uma vez e fixei meus olhos no livro. O doido então partiu com sua caixa de suco na mão, risonho, falando suas doidices ao quatro ventos, mais um personagem a se perder nas ruas de memory lane.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Meda: fantasmas no motel

Antes de achar que estou sendo safadinha, vale lembrar que o sentido original de motel vem aqui dos Isteites: trata-se de um hotel de beira de estrada onde você estaciona seu carro e hospeda-se. O brasileiro, este ser safado (ainda bem) por natureza (ops, já entrei em contradição!), se apropriou do termo para nomear os diversos templos de prazeres espalhados pelo país. Portanto, aqui nas bandas do norte, motel é hotel e você não é obrigado a fazer fuque fuque se não quiser. Famílias inteiras hospedam-se nestes motéis para descansarem após um longo dia de viagem. No caso do Motel 6, em Sinton, Texas, fantasmas também.

Estávamos cansados da longa sexta-feira viajando 2h30m de Laredo a Sinton para a reunião do partido Democrata regada a várias horas de recepção com cerveja, barbecue e palestras políticas. Eu e W. queríamos dormir cedo, pois um dia na praia do Golfo do México nos aguardava na manhã seguinte. Estacionamos o carro nos fundos do motel. A noite era um breu total e não conseguíamos ver o que se localizava à frente do estacionamento. Tão sonolentos estávamos que nem fuque fuque ocorreu.

W. adormece rapidamente. Eu, após um breve ensaio de não mais de meia hora, acordo como se tivesse tomado três litros de Redbull. Começo a sentir um medo que me parece bastante irracional: medo de fantasmas. Olho para a cama vazia ao lado e acho que alguma imagem fantasmagórica aparecerá sorrindo maldosamente para mim. Verdade: de vez em quando sinto uns pavorzinhos assim. Deve ter sido a educação de terror em colégio católico. Mas ali, naquele lugar totalmente neutro, agarrada ao meu homão de 1,90m e 90Kg, este pavor não faz o menor sentido. Fecho então os olhos para evitar contato com os defuntos e falo para mim mesma que tudo aquilo é irracional. O relógio se arrasta madrugada adentro e nada do sono se apoderar de mim. Enquanto isto, durante a noite, W. pula da cama pelo menos quatro vezes de forma bastante violenta! Ele nunca foi de pular da cama. Parecia um ex-combatente do Vietnã tendo flashbacks de bombardeios. Imediatamente após cada convulsão sonâmbula, ele volta a dormir. Na verdade, me dou conta que ele nunca nem despertou. Num destes espasmos, se agarra à minha cintura e como uma criancinha, diz: "me abraça, me abraça, estou com tanto medo". Meda, pavor, pânico! Apesar de aterrorizada, preferi não acordá-lo.

De repente, escuto vozes. No quarto ao lado, um casal discute violentamente. Quinhentos "fuck you" por minuto de cada parte. Meu coração quer pular fora do corpo. Que diabos está acontecendo naquele lugar? O medo começa a me paralisar. Sinto que serei testemunha de algum crime de tão porradaria que está sendo a briga. Começo, então, a rezar, suplicando para que uma legião de anjos entre no quarto e aparte aquela briga. As preces são atendidas: em menos de cinco minutos uma mulher bate à porta do casal e pede firmemente para que parem, não se machuquem e deixem todos dormir. A briga para e eu certamente tenho minha fé renovada.

Vejo o dia raiar. Não dormi quase nada, apenas alguns cochilos espaçados entre um pânico e outro. Minhas olheiras batem nos pés. W. acorda de bom humor dizendo que apagou e estava pronto para ir à praia. Conto para ele tudo o que ocorreu durante a noite. Ele não se lembra de absolutamente nada sobre seus violentos pulos e também não ouviu nada do tumulto do quarto ao lado.

Saíamos do motel pela porta dos fundos em direção ao carro. E ali, em plena luz do dia, a cerca de 15m do quarto, avistamos o cemitério histórico do condado de San Patricio repleto de lápides e de fantasmas que enfim descansavam para naquela noite tirar o sono dos próximos hóspedes do quarto 120.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Angariação de fundos do partido Democrata: minha breve introdução à política do sul do Texas



Na sexta-feira, 24 de julho, partimos em direção a Sinton, uma cidadezinha do sul do Texas com pouco mais de 5.000 habitantes, para assitir a uma angariação de fundos ("fundraising") do partido Democrata. Lembrando que o Texas é um estado primariamente Republicano, governado por um Republicano, Rick Perry, há 11 anos. O sul do estado, porém, tem maioria Democrata. W, meu noivo, é um forte militante do partido Democrata, tendo sido um dos principais voluntários da campanha de Obama em 2009 em Laredo.

Lembrei-me de como são comuns estes eventos de angariação de fundos aqui nos EUA. É uma cultura amplamente disseminada, assim como os abaixo-assinados. No evento em Sinton, pessoas físicas pagavam US$ 35 por cabeça e os condados (instâncias geo-políticas superiores à cidade, porém inferiores ao estado) podiam comprar mesas que variavam de US$ a 300 a US$ 1000.

Foi uma experiência muito rica ver a cara do partido Democrata aqui do sul do Texas, sobretudo no que diz respeito às pessoas comuns que estavam ali para se informar e apoiar o partido. Eram em sua maioria Hispânicos, como praticamente toda a população da região, mas também havia uma boa quantidade de não-Hispânicos. Neste caso, quase todos brancos (tenho consciência que estou erroneamente considerando a classificação local de que todos os Hispânicos são morenos). Não vi negros. Homens e mulheres pareciam estar presentes na mesma proporção, porém a faixa etária média era 50 anos. Havia raríssimas pessoas na casa dos 20 e 30 anos. Todos pareciam muito simples, vestindo roupas simples e comportando-se de maneira simples. Não vi afetações. Era o povo, a massa, o povão.

A primeira parte do evento era uma "VIP party" numa lojinha de antiguidades na simpática Main Street da cidade. Na verdade qualquer pessoa podia entrar, mas nada como marketing para dar mais glamour às denominações. Entre comes e bebes, as pessoas faziam networking e conheciam alguns dos palestrantes e candidatos que estariam presentes no evento oficial daquela noite.


Após uma hora na recepção, partimos para o evento oficial no centro de convenções, que atraiu entre 400 e 500 pessoas e foi considerado um sucesso. Como tudo neste país, começou com comida: um buffet de "barbecue", uma atrocidade deliciosa de colesterol e calorias. Havia algumas pessoas tão obesas na platéia que só conseguiam se locomover através de cadeiras de rodas. Os candidatos palestrantes do partido posicionavam-se nas filas para se apresentar aos seus futuros eleitores e entregar-lhes seus cartões de visita que incluiam informações de site, e-mail, Twitter e Facebook. Como sabemos, as mídias sociais foram de enorme importância na campanha de Obama.

Após o jantar, uma adolescente subiu ao palco para cantar o hino nacional, mas desafinou e engasgou nas notas mais altas. Foi aplaudida ainda assim. Em seguida, uma oração cristã de gratidão, finalizada com um vibrante e cheerlídico "God bless Texas" proferido por Rose Harrison, a Coordenadora Democrata do Condado de São Patrício, onde situa-se a cidade de Sinton. Rose, que na adolescência foi "cheerleader", era uma boa apresentadora e fez questão de usar trajes chamativos: um vestidinho azul cheio de grandes pedras na gola, botas de cowboy azuis e um chapéu de cowboy em um outro chamativo tom de azul. Ainda antes de chamar os palestrantes, ela e outros apresentadores fizeram longos agradecimentos a diversos militantes ali presentes, incluindo W. Nota-se que aprenderam muito bem a personalizar a comunicação para torná-la mais eficiente e motivar a auto-estima dos colaboradores.

Entre os palestrantes, destacavam-se:

- Palestrante principal: Henry Cisneros, Secretário de Moradia e Assuntos Urbanos do governo de Bill Clinton.

- Candidatos ao senado federal pelo Texas Bill White e John Sharp, que ainda competirão nas primárias para ver quem será o candidato único do partido Democrata.

- Candidato ao governo do Texas Tom Schieffer, que foi embaixador na Austrália e no Japão no governo de George W. Bush.

Como um bom comunicador, Henry Cisneros sabia usar as palavras, as frases, as entonações e as histórias certas para tocar o coração e mentes dos seguidores do partido. Seu discurso tinha um objetivo de animar a massa ali presente para as eleições de maio próximo. Trouxe lágrimas aos olhos de alguns ouvintes ao contar a história do funeral de Franklin D. Roosevelt, na qual um homem muito emocionado viu o cortejo fúnebre passar e, ao ser perguntado se conhecia FDR, respondeu "não, mas ele me conhecia muito bem." O propósito era mostrar como o partido Democrata quer conhecer cada um dos seus eleitores.

Entre os candidatos ao senado, Bill White, atual prefeito de Houston, certamente se mostrou mais bem articulado. Indicou no seu discurso que "política é algo pessoal sim, pois tem a ver com o seu emprego, sua moradia, sua saúde e se seus pais de 80 anos terão dinheiro para pagar as contas domésticas e os remédios no final do mês." Também exaltou sua altíssima taxa de aprovação como prefeito (89%), um projeto focado na instalação de grandes áreas de produção de energia eólica e como conseguiu absorver e dar assistência aos mais de 100.000 refugiados após os furacões Katrina e Rita. Já John Sharp mencionou que foi derrotado duas vezes por candidatos do partido Republicano, porém "com uma baixa margem". Também prometeu que, se eleito, focará em dar educação universitária gratuita a jovens que prestarem serviços comunitários, já que o custo da anuidade universitária ("tuition") é muito elevado no país. Neste ponto, observei várias pessoas balançando as cabeças em concordância e alguns aplausos. O candidato a governo do Texas falou por não mais que três minutos e basicamente só instigou os ouvintes a votarem democrata nas próximas eleições.

Enfim, esta foi minha breve porém instigante introdução à política local. Confesso que saí de lá me sentindo mais informada, diria até que talvez mais politizada. Soa ingênuo. E é. Não sou uma completa desinformada, mas a verdade é que também nunca fui de me aprofundar muito em política brasileira, que sempre me causou algum sono, mesmo sabendo que isto soa tão irresponsável. Porém desde que me mudei para Laredo me vejo devorando sites e notícias para me munir mais de informações e consolidar algumas opiniões a respeito das políticas e economias norte-americana e brasileira. Afinal, grande parte das conversas que presencio com os meus novos amigos (ou seja, amigos de W), é sobre política. Portanto, não dá para ficar de bibelô sorridente ou pincelar rapidamente os fatos quando grandes debates vem à tona. A motivação para o interesse político tem que vir de algum lugar, mesmo que seja do casamento.

domingo, 26 de julho de 2009

Domingo

Deus criou o mundo no domingo para no sábado descansarmos. A humanidade mudou a ordem e fez do domingo o dia do descanso. E, independentemente de passarmos a semana trabalhando insanamente ou de desacelerarmos em sábaticos dias, o domingo sempre amanhece com um véu de suave melancolia, uma preguiça entranhada nos lençóis, questionamentos em profusão.


É preciso preparar alguns projetos. Tempero um peixe para W. Misturo banana, leite de côco, duas colheres de creme de leite, salsinha fresca. No escritório, W estuda sua lição de português. Há muitos idiomas a serem aprendidos quando se casa. A língua mãe de cada um é apenas um detalhe. Desbravam-se os olhares, os pequenos cuidados, o beijo prolongado, o sono, as gargalhadas, os silêncios. Há tantas sintaxes e proparoxítonas nestas conjugações. Do canto da sala, uma voz: "oi, rainha, estudo por você. " Meu coração se amorna e o peixe cheira bem.

Dois pratos e quatro talheres sobre a mesa. Ele adora o mesmo peixe que eu acho um horror. Ambos requentamos o feijão da sexta-feira. Uma refeição servida é mais um projeto que se acaba. Vamos cuidar da casa: o chão está encardido, coloque os cachorros para fora, aqui está o rodo, recarregue a furadeira para pregarmos as novas luminárias. O vento sopra quente sobre as árvores do quintal e meus dedos ainda cheiram a cebola e alho. Existem algumas pequenas alegrias vindas das minúsculas sequências de diminutos atos que tornam os domingos tão grandiosos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Cidade bilíngue

"What would you like to drink, ma'am? Café? Agua? Refresco?" Laredo é uma cidade bilíngue. Inglês e espanhol mesclam-se na mesma frase em total harmonia e naturalidade. Você pergunta algo em inglês e o interlocutor decide o idioma da resposta. Em algumas situações, é mais necessário saber espanhol do que inglês. Esta semana trocamos o telhado de casa, destruido pela geada de meses atrás. Como praticamente todos os trabalhadores braçais destas bandas, os homens que fizeram o serviço eram mexicanos e não proferiam uma palavra sequer em inglês. Caso eu não soubesse espanhol, não haveria comunicação. Em alguns caso, por falarem rápido demais, eu realmente não conseguia entendê-los. Cheguei a pedir para um deles repetir a mesma frase seis vezes, mas como meu cérebro não captava nada, apenas lhe servi uma Diet Coke e ficou por aquilo mesmo.

A população da cidade é 94% de origem hispânica, quase totalmente descentente de mexicanos. Portanto, mesmo os nascidos nos EUA falam espanhol, pois foi o idioma falado em casa. Além disto, tem um sotaque distinto, com uma certa diferença nos "erres"e na entonação. Como casam-se com outros hispânicos, continuam a reproduzir o ambiente em que cresceram. Outro dia fomos visitar uma amiga do meu noivo que estava se recuperando de um aborto devido a uma gravidez tubária. Ela é descendente de mexicanos, mas foi criada em inglês e só aprendeu espanhol mais tarde. Seu marido é também descentende de mexicanos. Falam inglês com espanhol salpicado nas frases. Em poucos instantes chegou um outro casal de amigos com dois filhos pequenos. A mãe era mexicana, o pai era americano de origem hispânica. Com os filhos, falavam os dois idiomas na mesma frase. As crianças de 4 e 2 anos entendiam perfeitamente.

Comecei hidroginástica esta semana. No primeiro dia, a professora, notadamente de origem hispânica, fez toda a aula em inglês. "Up, down, there we go ladies! One, two, three, put your knees up!" Já a instrutora de ontem falava assim: "Uno, dos, tres! Legs up! Three, four, five! Ahora con los brazos arriba de la cabeza. Very good, ladies!".

Há um jornalzinho local chamado Rio Magazine. É basicamente um espaço para coluna social e publicidade. O editorial é em inglês, mas os anúncios são quase todos em espanhol.

Estatísticas: de acordo com o Censo americano, em 2006 Hispânicos e Latinos constituiam 14,8% da população dos EUA, ou 44,3 milhões de pessoas. Os descendentes de mexicanos representam 64%, seguidos de 9% de porto-riquenhos. Na Wikipedia você encontra um vasto artigo sobre como é feita esta classificação étnica tão cheia de detalhes. A projeção é de que em 2050, existam mais de 120 milhões de hispânicos no na terra do tio Sam. Atualmente, o ritmo do crescimento desta população (24,3%) é três vezes maior que o crescimento da população total do país (6,1%). O Texas é o segundo estado com a maior população hispânica (8,4 milhões), atrás da Califórnia (13 milhões). Em terceiro lugar está a Flórida (3.6 milhões). Os EUA são o segundo país com o maior número de falantes em espanhol, atrás apenas do México. Ainda de acordo com o Censo, metade indica falar inglês "muito bem".

Existe uma imensa controvérsia sobre o uso do espanhol nos Estados Unidos. Alguns grupos afirmam que será o idioma oficial do país em algumas décadas (e aborrecem-se por completo), outros afirmam que não há riscos para o idioma inglês. Não vou entrar agora nos detalhes defendidos pelas correntes de pensamentos sobre esta discussão , mas acredito que a cultura bilíngue seja extremamente rica e benéfica. Existe uma diferença na forma de se expressar em inglês e espanhol, e como é proveitoso poder selecionar a maneira mais conveniente. Laredo e o país certamente se tornam mais interessantes por conta desta flexibilidade. E acredito sim que quem discorde disto no fundo seja um grande preconceituoso. Como a história bem mostra, linguagem é poder. Querer parar um idioma é uma forma de dominar, colonizar. Que o digam os idiomas indígenas existentes no Brasil. Lá, no século XVIII, o Marquês de Pombal proibiu as línguas indígenas e decretou o português o idioma oficial. Isto fazia parte da sua visão de tirar o país do "atraso", ou seja, de extirpar qualquer forma de manifestação que não fosse a do dominador. Certa vez fui a uma manicure mexicana aqui em Laredo e ela me disse que trabalhava numa empresa com outros mexicanos. De acordo com ela, existia uma distinção social entre os que falavam o inglês mais correto e com menos sotaque. A corda sempre aperta mais para o lado do "colonizado."

Como a língua é dinâmica, gostaria de voltar em 100 anos para saber como será o idioma de então. Um espanhol inglesado? Um inglês espanholado? Aqui existe um termo chamado "Spanglish", o equivalente do nosso portunhol. Talvez já seja o começo do amanhã.