segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Estereótipos e caricaturas de um certo Brazil


Sábado à tarde, irritada com o fato de o Presidente Barack Obama ter recebido na última quinta-feira o Nobel da Paz -- considerando que apenas uma semana antes ele havia anunciado o envio de mais 30.000 tropas para o Afeganistão, numa campanha em que até mesmo alguns de seus generais prevêem o que se tornará uma guerra ainda mais caótica que a do Iraque -- eu zapeava canais de televisão até encontrar algo totalmente leve, divertido e à prova de irritação. Parei no canal Bravo, onde mais um episódio de America's Next Top Model se desenrolava. Este reality show, no qual meninas esqueléticas tentam ser a próxima Gisele Bündchen, é uma daquelas frivolidades que rende boas gargalhadas sem exigir fosfato algum do cérebro. Como toda mulher, carrego a mulherzinha interior que sempre teve um desejo oculto de ser modelete. Às vezes nem tão oculto assim. Tanto que --- e aqui revelo aspectos do meu negro passado -- aos 11 anos ganhei o concurso de Rainha de Milho do colégio e aos 12 anos conquistei o título de Miss Jardim Paulo Afonso, o nome do meu bairro. Parei por aí. Alguém me disse que é a beleza interior que conta, mas depois de crescer e ficar um pouco mais cínica acho que deve ter sido alguém bem feio. Mas voltando ao programa: sábado não era o meu dia, pois não apenas aquele foi o episódio mais irritante que poderia ser veiculado, como também uma força maior me impedia de desligar o vídeo. Eu precisava assistir até o final aquele conteúdo medonho que trazia à tela mais uma caricatura de um estereotipado país chamado Brazil, só para ter certeza de que a sua imagem no exterior continua tão igual à que sempre foi.


O tom de "originalidade" foi dado no momento em que as modelos souberam onde se passaria a próxima prova: uma chuva de papéis verde-amarela, samba como fundo musical e jurados dançando desengonçadamente com caribenhas maracas coloridas nas mãos. Afinal, tudo ao sul do Texas é praticamente a mesma coisa para a maior parte do (ignorante) público nestas bandas do norte. Ou seriam as maracas representativas de Carmem Miranda, o estereótipo-mor da brasileira que desde a década de 1940 permeia o imaginário norte-americano? Meu marido, às gargalhadas com minha fúria no olhar, trazia bananas e maçãs da cozinha e as colocava na minha cabeça. O que mais dói é que aquele programa não foi preparado por pessoas ignorantes. Refaço: ignorância é algo relativo. Tenho certeza que quem escreveu, dirigiu e/ou produziu o show estudou, viajou e saiu dos Estados Unidos pelo menos uma vez na vida. Mas é mesmo muito mais fácil e cômodo nivelar por baixo.

O episódio se passava em São Paulo, onde as modelos enfrentavam diversos desafios que culminariam na eliminação de uma delas. A recepção das moçoilas foi no Jardim Botânico, onde -- e como não? -- um grupo de mulatas em roupas minúsculas e estandartes na cabeça rebolavam o burugundum. Na primeira prova, as modelos tinham que comprar flores para levar para ninguém menos que a Girl from Ipanema. Pelo menos nesta parte eu vibrei -- não pela Garota de Ipanema, mas por ver minha amiga Verônica fazendo o papel de florista. Foi bom ter assim, tão dentro de casa e a milhares de quilômetros um rosto familiar e querido. Mas eis que a própria Garota de Ipanema, Helô Pinheiro, em carne e osso (e total falta de bom senso) desce as escadarias requebrando as cadeiras e remexendo os bracinhos bem ao estilo Carmem. Não satisfeita, ainda ensina às participantes que elas precisam saber se mover "com graça", pois foi por esta razão que se tornou musa daquela música. A esta altura, eu já estava com a cara totalmente enterrada na almofada, morrendo uma trágica morte de VPP (Vergonha Pela Pessoa, genial termo que aprendi durante minha estada carioca).

Helô Pinheiro aparece no vídeo abaixo a partir da marca de 1 minuto.


Como todo bolo que se preze tem uma cereja no topo, o programa ainda adicionou esta mega cereja de desafio: as garotas iam a uma favela para uma sessão de fotos fantasiadas de quem? De quem? Ninguém menos que Carmem Miranda! Façamos justiça: foi interessante o programa trazer a favela tão para dentro do mainstream. Neste ponto, ajuda a quebrar o preconceito de violência sempre associado a estas comunidades. Mas havia algo de bizarro e cruel naquele gritante contraste de pobreza com o luxo de belas fotos em modelos gringas e (quase todas) muito brancas. Era a miséria sendo tomada como exótica e apresentada a um público que não conhece nada ou praticamente nada daquele universo.



A falta de aprofundamento deste olhar estrangeiro sobre o país registrava (novamente) em foto e vídeo um Brasil simplificado, paradisíaco, pobre, selvagem, tropical e sensual. Um olhar estrangeiro formador de opinião que repassava para mais uma geração uma versão lugar-comum de Brasil, batida por séculos desde os tempos de Hans Staden. Não que o estereótipo não traga traços da realidade, mas por fazê-lo de maneira tão simplista e superficial acaba por se tornar nocivo, carregado de preconceitos, reduzindo a realidade a um olhar repetitivo e carregado de clichés. O próprio Brasil tem em parte culpa por este olhar reducionista, pois durante décadas vendeu em campanhas turísticas no exterior um Brasil de mulatas, samba, futebol e floresta Amazônica. Até mesmo recentemente a própria campanha pelas Olimpíadas no Rio esteve carregada com estes mesmos símbolos tão profundamente cimentados no imaginário universal. Pior ainda é quando vejo ou escuto que brasileiros continuam a propagar os mesmos velhos conceitos. Outro dia num restaurante mexicano o dono, quando soube minha nacionalidade, veio me dizer que conheceu uma brasileira em San Antonio, Texas, que vendia biquínis "muy, muy pequeños" e que de acordo com ela era o que as compatriotas usavam nas nossas belas e tropicais praias. Há mentira nisto? Não. Mas este tipo de situação só enfatiza o aspecto "Brasil-terra-de-mulher-sensual-diga-se-de-passagem-puta" que permeia o imaginário da gringolândia. Está na hora desta gente bronzeada dar novos exemplos.

Conforme dissertação acadêmica do jornalista Ivan Paganotti, "os estereótipos são cruciais para a assimilação e reprodução de conceitos complexos, e tem um efeito positivo (...): oferecem um denominador comum a partir dos quais ( as pessoas) podem construir suas narrativas mais aprofundadas. Mas a armadilha simplificadora dos estereótipos persiste: quando não mais condizem com a situação que representam, eles precisam ser discutidos, transformados e, quando necessário, negados. (...) É cômodo basear a cobertura (jornalística) em pressupostos, alimentando as pré-concepções com dados, histórias e interpretações que reafirmam o que o público já sabe sobre a realidade ou, no pior cenário, repetir conceitos ideologicamente enviesados que simplesmente não condizem com a verdade." Porque sabemos (ou não?), que o Brasil é um país diverso e complexo, muitas vezes incompreensível até mesmo para nós brasileiros, que vai muito além destas representações batidas. Um país que tem pobreza sim, mas também progresso. Um país que produz e exporta aviões, possuidor de belas cidades, caatinga e serrado -- e não apenas praia e floresta amazônica--, e dono de uma produção cultural de alto nível em cinema, teatro, literatura, artes plásticas e dança (muito além do puro samba e rebolado). Um país empreendedor, com espaço para erudição, ciência e tecnologia. Para ser levado a sério, o Brasil precisa vender estes conceitos. Senão, corre o risco de ser eternamente um enlatado Brazil com prazo de validade vencido.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dia da Carreira na high school (e algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária)

Na semana passada fui convidada para contar as delícias de uma carreira em marketing para cinco turmas de formandos no Dia da Carreira da United High School em Laredo. O convite chegou como um suco concentrado de açaí com gengibre na veia que trafega diretamente ao meu ego, levantando meu ânimo de dona de casa ao me fazer voltar à minha personagem eu-profissional. Já estava até esquecendo a temperatura daquele friozinho na barriga antes de uma apresentação -- e olha que já fiz tantas, quase sempre de sucesso, mas também já fiquei à beira de levar tomates da platéia. Naquela manhã fria e molhada de um outono que chegou tarde, diante de estudantes adolescentes que ainda têm a vida inteira pela frente, eu refleti em silêncio sobre minhas escolhas profissionais, meu atual momento de desemprego enquanto aguardo uma licença para trabalhar e o que é que eu farei com o resto da vida inteira que também tenho pela frente.

O convite partiu de uma amiga brasileira que é professora desta escola pública, situada num prédio recém-construído que custou US$ 57 milhões. Só a estátua de um longhorn, o boizão de mega-chifres símbolo do Texas e da escola, custou US$ 110 mil. Com uma estrutura física de fazer cair o queixo -- salas altamente equipadas com computadores e audiovisual, biblioteca gigantesca repleta de desktops, academia física de primeira linha, aulas de culinária com cozinha industrial, entre outras amenidades -- era certamente melhor do que a maioria das universidades públicas que já visitei no Brasil. Certamente melhor do que a UFPE quando lá estudei em 1996, onde mal havia máquinas fotográficas para as aulas de fotografia. Mas como em terra de cego quem tem um olho é cego também, minha amiga professora da United High School conta que a hipocrisa local não permite, por exemplo, que os estudantes tenham aulas de educação sexual -- a pedido dos pais, a propósito. Em pelo menos uma das suas turmas há três garotas de menos de 17 anos que já têm filhos. Os professores são instruídos a não tocarem no assunto. Aulas sobre drogas são permitidas, inclusive há um senhor autorizado a andar com uma maleta cheia de exemplares das drogas mais consumidas instruíndo os estudantes a manterem-se longe delas. Vá entender.

Como grande perfeccionista que sou, preparei apresentação de PowerPoint, busquei exemplos de produtos e ações com os quais os estudantes se identificassem e treinei minha fala por diversas vezes, mentalizando uma sala repleta de alunos interessadíssimos no que eu tinha a lhes dizer. Meu marido tirou o maior sarro de mim, me chamando de teacher's pet, ou "bichinho de estimação do professor", apelido muito comum por aqui para quem é estudante certinho e faz amizade com professores. Reconheço, sou bem geek mesmo, vulgo CDF, e até hoje mantenho contato com alguns professores da universidade onde me formei.

Havia vários profissionais naquela manhã fazendo visitas de sala em sala: advogados, policiais, bombeiros, pastores de igreja, médicos e até onde sei, apenas eu de marketing. Também apenas eu utilizando PowerPoint, mas e daí? Tenho certeza que me diverti mais do que qualquer outro palestrante convidado e os estudantes mostraram-se super interessados, fazendo várias perguntas. Exceto por uma aluna que queria cursar faculdade de marketing, nenhum estudante tinha noção da disciplina. Gostei de me ver exercendo aquele papel professoral, passando adiante um pouco do conhecimento que adquiri ao longo de 10 anos de carreira. Me fez até repensar que tipo de emprego vou procurar quando for chegada a hora. Se eu pelo menos consegui motivar um aluno que seja -- nem falo necessariamente para a profissão de marketing, mas para ingressar na universidade, já que o índice de alunos que completam o high school em Laredo é de apenas 50% -- eu serei eternamente grata por ter tido aquela chance de conversar com as turmas. É calmante e acalorada a sensação de ajudar alguém que precisa de orientação. Um garoto perguntou se eu gostava do que faço. Respondi que sim e tentei ser o mais convincente possível (acho que consegui), sem o cinismo de quem já viu muito ao longo dos anos, exaltando o dinamismo de uma área que está sempre se modificando para melhor atender às necessidades e desejos dos consumidores que todos somos. Mas aquela simples pergunta me trouxe algumas reflexões.

Aprendemos que o trabalho enaltece o ser humano. Até aí, verdade. Os aprendizados da jornada profissional de fato contribuem para o nosso crescimento pessoal. Precisamos produzir, criar, e o trabalho nos traz esta possibilidade. Nasci num meio proletário-classe-média, ainda que um proletariado intelectual que usava o cérebro para trazer para casa o arroz e feijão de cada dia. Entre os valores aprendidos na infância estavam o de que o trabalho é honrado e que deve-se trabalhar para ganhar o seu. Eu e meus irmãos fomos ensinadas a termos ambições e a sermos financeiramente (além de emocionalmente) independentes. Eu e minha irmã fomos doutrinadas especificamente a jamais dependermos de homem algum. Valores que certamente passarei adiante para meus descendentes. Ao mesmo tempo, cresci com aquele desejo nutrido por 99,99% dos humanóides de quem sabe um dia eu ganharia tanto dinheiro a ponto de não precisar mais trabalhar, ou de apenas fazer projetos quando me desse vontade, sem que minha existência física neste mundo dependesse deles. Porque convenhamos, para a maioria de nós que trabalha para sobreviver, por mais que se goste da profissão e do trabalho que se escolhe a verdade é que no fundo é trabalho. Trabalho oposto a lazer e descanso. Trabalho para onde temos que nos deslocar de segunda a sexta, enfrentando ônibus, metrô e trânsito e passando mais tempo com seus colegas de trabalho do que com sua família e amigos. Como a maioria das pessoas do meu círculo de amizades, escolhi até quatro meses atrás labutar pegando no batente em horário comercial, mas quase sempre passando da hora sem ganhar hora-extra por isto. Ironias a parte, eu deveria inclusive ficar feliz por ter ganhado uma promoção para gerente e, portanto, deveria fazer hora extra quando possível sem ganhar um centavo a mais por isto, pois era "cargo de confiança". Doei corpo e alma para trabalhar em empresas onde, com o salário que eu recebia -- ainda que considerado um bom salário para padrões brasileiros -- não teria condições de ser compradora dos produtos que eu mesmo vendia. No passado isto já rendeu revoluções, mas hoje calamos a boca devivo às outras amenidades que conseguimos com o fruto das nossas noites mal-dormidas e das poucas horas diárias dedicadas ao lazer (simplesmente pela total impossibilidade de se ter tempo livre com frequência, uma vez que da hora que se levanta pela manhã em função do trabalho até o momento de se chegar em casa à noite já se passaram entre 13 e 14 horas; reserva-se duas ou três horas para descomprimir e torna-se necessário encostar a cabeça no travesseiro para começar tudo novamente na manhã seguinte). Claro, há um batalhão de pessoas na pior e eu aqui reclamando do meu risoto de camarão. Apenas um porém: isto não chega a ser uma reclamação, apenas uma constatação do óbvio, das coisas como elas são.

Agora me encontro num momento particular em que estou sem emprego porque ainda não tenho permissão para trabalhar neste país. E dependendo do meu marido para o frango-com-macarrão de todos os dias. Há cinco meses não trabalho fora de casa: ganhei o nobre título de rainha do lar. Virei pilota de fogão, algo que também pode ser extremamente cansativo e enfadonho, mas que neste momento não chega a me incomodar. Divido o meu dia entre a cozinha, o computador, as aulas de violão, a academia, a cuidar dos animais de estimação e o supermercado. Diariamente alguém dos Estados Unidos ou do Brasil me pergunta quando voltarei a pegar no batente. Ainda que minha permissão de trabalho só saia daqui a três ou seis meses, semanalmente meu marido me pergunta se já andei pesquisando empresas em Houston, para onde nos mudaremos em breve. E cada vez mais percebo novamente o óbvio: que somos julgados pelo trabalho que temos ou que não temos, e que há uma pressão enorme em ter que se trabalhar. Ou em ter que produzir algo, qualquer coisa que não seja tão ordinário como esta vida doméstica que atualmente vivo. Como já sabemos, os playboys de antigamente, que passavam a vida entre festas e iates sem jamais bater ponto, já não têm o mesmo status dos playboys de agora que trabalham pela ambição de fazer mais dinheiro, por poder, ou quem sabe até por prazer. A tônica da modernidade dita que se você não precisa trabalhar, então tem que ser patrão. Agora, uma heresia: não sou playgirl e a verdade -- e preciso gritar -- é que não estou sentindo a menor falta do trabalho. Daquele trabalho que me trouxe tanto e me fez chegar até onde estou hoje (olhando por um lado bem simplista, fui eu quem comprei minha passagem e fiz toda a minha mudança para os Estados Unidos; tudo com os reais contados do meu suor). Nem estou com pressa de produzir nada além deste blog, nem de inventar outros projetos, outros hobbies, enfim. Tem horas que a gente tem que ser ordinário mesmo, até porque no meu caso sei que isto não será para sempre. Tem horas que a gente tem que apertar o botão de pause pessoal para poder digerir tudo o que não tivemos tempo de fazê-lo porque não tínhamos tempo.

Não ganhei na loteria nem me casei com um homem rico. O dinheiro está contado e para mantermos o padrão que tínhamos antes do casamento eu terei que voltar às origens muito em breve. O que farei com gosto quando a hora chegar, dando o melhor de mim para a empresa que me contratar. Já tenho um plano traçado, e o desejo de ser patrão também está lá, me servindo de cenourinha nesta corrida chamada vida. Mas tudo dentro do seu tempo.

domingo, 29 de novembro de 2009

As viradas do tempo

Há um tanto de ironia nestas viradas de tempo. Vai-se embora o calor de um verão impiedoso na recepção que me derretia por dentro enquanto eu tentava compreender tantas mudanças numa só vida. Chega, por fim, uma brisa fria para a cobrir a noite destas planícies texanas, mas continuo a botar lenha no meu coração. O inverno iminente igualmente traz previsões acaloradas. Em dois meses ou menos deixarei Laredo rumo à cosmopolitanidade de Houston e às milhares de urbanas oportunidades. São tantos processos: vender a casa, organizar bazar para se livrar dos descartáveis que o marido acumulou com o tempo, procurar uma nova casa na cidade que não se conhece e entender as pequenas grandes contradições inerentes à vida. Como a de se despedir tentando se enraigar. O adeus traz sempre consigo a possibilidade do nunca mais, portanto é preciso viver para se lembrar daquilo que nunca mais será. É preciso conhecer as pessoas que você nunca mais verá, é preciso rir com elas, dançar com elas, brindar com elas, comungar das suas alegrias e oferecer ambos os ombros para seus lamentos. As pessoas que chegam até você quando você não as procura. Ao menos conscientemente. No querer-ir há sempre um querer-ficar, mesmo quando a escolha é clara. Porque ali fomos nós um dia e agora somos outra coisa em movimento. Olho para frente. Daqui a dois meses ou menos tudo muda. Nova casa, nova cidade, novos amigos, novo emprego. Tudo ainda a se procurar, não há nada certo além da certeza de que estarei lá. Tudo de novo outra vez. Aprende-se a dominar a saudade. Escolhi viver todas as estações. Dormirei pensando em primaveras.

sábado, 21 de novembro de 2009

Mulheres unidas jamais serão vencidas

Para me tirar do tédio da vasta agenda social deste momento doméstico da minha vida (preparar o almoço diariamente, ir à aula de violão onde descubro que tenho talento zero, brincar com a gatinha que apareceu no jardim há cerca de três semanas, lavar a louça que não se cansa de sujar, trocar a comida das cadelinhas, ir a hidroginástica, retocar a pintura do cabelo em casa e fazer compras no supermercado), esta semana uma amiga advogada me convidou para ir a um evento da Laredo Women's Bar Association, ou Associação das Advogadas de Laredo (não, não é associação das mulheres dos bares, mas se fosse eu iria con mucho gusto). Apesar de eu não ser advogada, e mesmo temendo que fosse ser algo extremamente enfadonho, não recusei nem que me oferecessem um lavada completa de louça do almoço do dia seguinte. Ainda por cima, o evento era na Galeria 201, um dos meus lugares preferidos de Laredo, e tinha degustação de vinhos (ver post prévio sobre a Galeria aqui neste blog). Juntou a fome com a inanição, portanto não tinha como eu negar minha presença. Ainda bem que eu fui, pois a noite acabou se transformando num palco para uma reflexão sobre a força da união feminina.

A razão principal do evento era a arrecadação de fundos para uma organização que cuida de crianças em espera de adoção porque a justiça as afastou de seus pais devido a abuso e/ou negligência destes. Americanos adoram eventos para arrecadar dinheiro -- e sabem fazer isto muito bem, por sinal. Por valores que variavam de US$ 10-30, comprava-se uma rifa para o sorteio de até quatro lindas bolsas -- quase todas beeeem peruais, mas lindas -- da renomada designer americana Melie Blanco, que por sinal é irmã de uma das advogadas. Prêmio totalmente condizente com o público-alvo. Óbvio que apesar de eu ser uma semi-perua (aquela que adora um acessório e maquiagem, mas sabe ser discreta no uso), sucumbi e comprei minha rifa.

Enquanto as doações iam sendo arrecadadas, enchíamos pratinhos com aperitivos e copinhos plásticos com vinhos diversos -- o que aconteceu com vidro, oh my God? Uma elegante convidada enóloga, responsável pelo departamento de vinhos dos Supermercados HEB, nos dava uma pequena aula sobre como degustar a bebida além de dicas importantes: "se você for convidada para um jantar e não souber qual será a comida servida, leve um Pinot Noir." A platéia de aproximadamente 40 mulheres foi bastante participativa. Quase todas estávamos sentadas à uma grande mesa no meio do salão principal da pequena galeria de paredes centenárias e quadros coloridos de artistas locais. Um cantor com seu infalível órgão cantava músicas derramadamente românticas em espanhol. A advogada que estava ao meu lado me confidenciou o quanto amava este tipo de música. As mulheres conversavam, riam e interagiam. Várias vieram se apresentar para mim. "Oi, meu nome é Fulana de Tal, sou advogada particular/promotora federal/advogada criminalista". No que eu respondia: "oi, sou Desbra Vando, convidada de Fabiola Flores". Fabi, então, adicionava mais um capítulo à minha apresentação: "ela é a esposa de WB". E ali estava eu, sendo não mais eu, mas a esposa de alguém, em meio a um grupo de profissionais. Vez por outra uma se aproximava e fazia algum comentário: "você é brasileira, certo? uau, o que acha de Laredo?", ou "gosto muito do seu marido, diga 'oi' para ele por mim". O que mais que chamou atenção foi que naquele evento, na minha função de convidada de alguém, apresentada como a esposa de alguém mais, eu não me senti em nenhum momento como peixe fora d'água.

Havia um sentimento de união naquele grupo. Mulheres seguras de si, mulheres elegantes sem afetação, mulheres interessadas umas nas outras. Mulheres que sabiam ser profissionais e sabiam ser mulheres também, em todo o sentido mais feminino da palavra: comentavam como a roupa da outra estava bonita, como a torta de banana com doce de leite estava saborosa, suspiravam ao dizer o quanto gostavam da música romântica, aplaudiam com vibração quando a diretoria da Associação foi apresentada. Mulheres que se emocionavam ao colocar suas vidas pessoais em pauta para vender a idéia de ajudar a associação que cuida de crianças, como a juíza que perdeu uma gravidez há alguns meses e que pegou o microfone para contar que está em processo de adotar um filho. Mulheres que, como mulheres, também adoram dar umas alfinetadas nos homens: três delas comentavam como o juiz Fulano de Tal e o promotor Sicrano de Val não liam os novos códigos de leis e estavam totalmente defasados nas novas legislações. Todas diziam que em geral as mulheres rapidamente aprendiam as novas leis, enquanto que os homens eram mais passivos. Mulheres seguras de si e de suas convicções. Mulheres que sabem delegar e dividir os louros do sucesso com o grupo do qual fazem parte. Mulheres que não precisam provar nada para ninguém, apenas para si mesmas. Aquelas mulheres de quarta-feira à noite em Laredo pareciam felizes por estar ali, em poder trabalhar e interagir umas com as outras.

Foi inevitával não relacionar aquele evento com o contato retomado com uma amiga de colégio primário, que continua tão bonita quanto como eu me lembro dela na primeira série. Ela me escreveu coisas lindas e me falou que gostava de poesia. Eu a incentivei a criar o seu blog de poemas, pois percebi na maneira que ela me escrevia em prosa que era talentosa. Ela me respondeu que a princípio ficou com receio de criar um blog e eu achar que ela estava me invejando, já que eu tenho o meu, mas logo viu que isto era tolice, coisa de quem mora em cidade pequena e já é "gato escaldado" em inveja de interior. Óbvio que eu achei que não havia nada de invejoso nisto, e que bom que ela também, pois logo em seguida criou seu blog. Juntando este acontecimento com o evento em Laredo, pensei: somos mulheres e temos que nos unir. Sempre. Temos que nos ajudar, nos incentivar, nos motivar, sermos modelos umas para as outras. Temos que saber ser mulheres, sendo mulheres -- que falam, que riem, que se emocionam e que sabem ser firmes também. Parafraseando Che, endurecer mas sem perder a doçura. E se a inveja surgir, porque inveja é coisa de humano -- eu sinto, tu sentes, ela sente, ele sente, nós sentimos -- que esta inveja seja direcionada para superar nossas limitações, nossas tristezas e mágoas. Se eu não tivesse sentido inveja em alguns momentos da minha vida, não teria andado para frente. Gerações passadas já conseguiram tantos avanços na luta da emancipação feminina; gerações presentes seguem lutando; mas este ainda é um mundo masculino na sua maior parte, mesmo aqui na superpotência americana. O comportamento feminino é julgado tendo como base o comportamento masculino, sobretudo no âmbito profissional: em público não podemos chorar, não podemos falar alto, não podemos abrir o coração, não podemos imitar algo que nos agrada. São gestos e atitudes vistos como fracos, pois sabemos que historicamente estão associados ao comportamento feminino. Mas o bom é que a Terra gira todos os dias e nós mudamos também. Que bom que as mulheres vão se fazendo cada vez mais vozes fortes no mundo, usando o que lhes é mais feminino a seu favor. Portanto mulheres, sejam amigas, inspirem e deixem-se inspirar.

Aquela noite eu não ganhei uma bolsa bonita na rifa, mas ganhei uma lufada de ar fresco cor-de-rosa-choque.

domingo, 15 de novembro de 2009

La vida guacamole

Fez um domingo quente. Um domingo quente de guacamole. Domingo verde-abacate pra recomeçar novinha e esquecer que em uma semana a gente pode amadurecer até passar do ponto. Abacate com sal, azeite e limão pra lembrar que é bom ser azeda.

Fez um sol de rachar lábios e pingar suor grosso. Cada poro do tamanho de uma América Latina num coração balançando ao atlas musical que tocou Grécia e Portugal, tocou Espanha e as Arábias. Me tocou orelhas, pés, pescoço e uma coluna biônica eternamente em recuperação que sacudia tudo. O corpo subiu no sofá, ignorou o cheiro de mijo de gato que o tira-odores superpower não tirou e dançou sem parar até a exaustão, caindo em gargalhadas, lambido pelas cadelas roucas de tanto latir com a louca do sofá que gargalhava e rodopiava sozinha. Não ficou nenhuma costela no lugar, foi tudo defumado em suor. Este corpo que se recusou a tomar banho por horas depois do suadouro daria uma suculenta feijoada.

A perda de auto-controle é tão libertadora.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Das coisas enterradas no jardim

O ser humano não é apenas matéria, é também espírito. Ou assim tentamos crer. Entendemos os eclipses, a virada das marés, o conceito de Big Bang, a evolução de primatas a homo sapiens a homo informaciones nesta época de blogs, Twitter e Facebook. Entendemos que somos carne, mas prosseguimos na busca do entendimento do que há por trás dela, ou dentro dela ou além dela. Tem algo a mais além de átomos e células e mitocôndrias que dá a ignição para nos mantermos alertas e que nos faz seres conscientes da própria consciência. Chame de Deus, de Deusa, de Força Universal. Viver a vida racionalmente é um caminho, mas viver com elementos de misticismo e fé atrelados, certamente faz desta uma jornada mais rica. E como pode ser mística a vida aqui na fronteira! Há três semanas um causo curioso me ocorreu fazendo reativar minha dormente fé. Um causo que envolve caveira de porco, chifres de veado, vela de pimenta forte, ovos de galinha de capoeira, um bruxo travesti e um santo enterrado no jardim de casa. Eu, que vivo na fronteira entre o crer e o não crer, sempre pendendo para a primeira alternativa, por via das dúvidas saí em busca de auxílio para reverter um feitiço que havia sido lançado contra meu matrimônio.

Há um jardim plantado na frente de casa. Arbustos verdes bem cortados com pequenas flores roxas que proliferam no verão. Nunca fui de saber o nome das flores, mas sempre soube apreciá-las. No princípio do outono plantamos uma roseira que aos poucos está vingando. Naquela tarde de outubro, três dias após o meu casamento, descobrimos que haviam plantado à nossa revelia algo um pouco mais medonho: uma caveira de porco selvagem e três chifres de veado. Tudo enfiado num balde semi-enterrado no canteiro e que com certeza absoluta não estava lá pelo menos duas semanas antes. Minha mãe descobriu a "encomenda" por acaso enquanto esmiuçava o jardim. Achou a caveira perturbadora, mas os chifres tão lindos que chegou a limpá-los para decorarem a casa. W. pediu para não mexermos em nada, e temendo que pudesse ser algum tipo de ameaça, chamou amigos policiais para investigarem. A investigação não chegou a conclusão alguma, mas eu não tive dúvidas: é despacho, mandinga, macumba e é coisa de mulher!

As expressões "corno", "chifrar" ou "cornear alguém" não fazem o menor sentido para o americano comum, mas no México carregam o mesmo significado que para nós brasileiros. Conversando com locais mexicanos e descendentes descobrimos que eu não estava enganada: era feitiço e tinha a intenção de separar o casal através de infidelidade, representada pelos três chifres. E para trazer ainda mais dramaticidade à esta insólita história, ainda havia uma conexão satânica, simbolizada pela caveira de porco. Valei-me, meu Oxóssi!

Jamais imaginei que quando saí do Brasil para vir ao Texas eu fosse ter contato com este tipo de misticismo. Eu sempre fui muito medrosa em relação a espíritos, demônios, capetas e etc, certamente influência da educação em colégio católico que deixou alguns traumas na minha psique. Como eu morava perto de uma encruzilhada, de vez em quando apareciam umas galinhas pretas com farofa na esquina. Eu morria de pavor e passava longe. Quando morei em Iowa e no Kansas há mais de uma década, raramente meus medievais medos passavam pela cabeça, pois tudo lá era tão material. Por mais que vez por outra eu fosse à igreja (como parte de uma aventura cultural e sempre acompanhando alguém), a vida naquelas terras transpirava a matéria pura e simplesmente. A própria natureza dos cultos protestantes que eu atendia, exceto os da Igreja Batista, não dava tanta margem ao misticismo quanto as missas católicas. Meu medo naqueles tempos era de solidão, algo que já não sinto mais (a vida me ensinou que sozinhos sempre fomos e sempre seremos, mas que ser solitário ou não cabe a cada um). Mais tarde na vida entendi melhor as manifestações religiosas e passei a respeitar as oferendas. No Rio de Janeiro eu sempre pedia licença quando topava com uma -- e se você fizer uma trilha pela Floresta da Tijuca, encontrará várias. Mas diferentemente do meio-oeste americano, aqui nesta fronteira de Estados Unidos e México matéria e espírito se entrelaçam. O catolicismo é fervoroso, ainda que todos pratiquem os habituais pecados, e os elementos de sincretismo religioso são fortes e visíveis, como o culto de adoração à Santa Morte, que merece um texto só para ela. Vísivel também, como acabei de conhecer, é mandinga das bravas. Não cheguei a sentir medo do despacho no meu jardim. Senti mais foi indignação em saber que alguma alma-viva sebosa se deu ao trabalho de catar aqueles ossos e despejar negatividade para minha família.

Como não posso sair do país até meu greencard chegar, minha amiga M., a quem relatei a história, tomou o assunto com urgência e tratou de levar minha mãe a uma hierbería (casa de artigos religiosos e de santería) em Nuevo Laredo, México. M. é mexicana e conhecedora da alma deste lugar, com PhD da vida em homens inescrupulosos, inveja feminina, feitiçarias e mandingagens. Afirma que era uma pessoa descrente até quando passaram a lançar despachos contra ela e sua casa foi tomada por demônios que infernizaram sua vida e a dos seus filhos, arranhando as paredes, batendo portas e fazendo toda sorte de demonices. Desde então, M. nunca deixou de tomar todas as precauções possíveis para se defender da negatividade alheia, como andar com santinhos na bolsa, no carro e rezar muito. Naquela noite, M. e minha mãe voltaram do México com um pequeno arsenal de proteção contra o mundo dos espíritos ruins: três velas regressoras de feitiço (instrução: acender de cabeça para baixo e em seguida colocá-las no chão formando um triângulo; dentro dele eu deveria escrever o meu nome e o do meu marido); uma vela para o anjo da guarda (instrução: enfiar na cera papeizinhos com os nomes das pessoas por quem peço proteção, com o cuidado de acendar a vela de cabeça para baixo); uma vela de chili (pimenta forte) para levar embora a inveja e o olho grande (instrução: enfiar na cera papeizinhos com os nomes das pessoas que possivelmente poderiam sentir inveja minha e do meu marido, com o mesmo cuidado de acender a vela de cabeça para baixo); um incenso para limpar o ambiente; e dois ovos de galinha de capoeira que fariam parte de uma sessão de desfaz-feitiço organizada por uma senhorinha do lado de cá da fronteira.

Como a tal senhorinha desmarcou de última hora a nossa pajelança, M. nos levou para uma consulta com Luis, que atende numa hierberia no lado sul de Laredo, Estados Unidos, área notadamente mais pobre e com estigma de gueto. Era uma loja semelhante às de artigos para candomblé e umbanda comuns no Brasil, exceto que em vez de imagens de Iemanjás e São Jorges proliferavam imagens da Santa Muerte. Não me prolongarei sobre este fascinante culto, mas posso dizer que depois daquele dia a Morte representada por aquela cadavérica senhora vestida de preto deixou de ser algo amedrontador. Mas até eu conhecer os fatos sobre a Senhora-do-Além, sentia um desconforto seguido de frio na base da espinha naquele lugar repleto de imagens, fumaça de incenso, cheiro de velas queimando e oferendas de maçãs, tequila e flores.

Luis chegou e se dirigiu a uma salinha onde fazia suas consultas de tarô em frente a um altar repleto de oferendas e velas para uma Santa Muerte do meu tamanho. Luis tinha uma cara enorme com uma papada sobressaltante, cabelo castanho-acaju com cachos duros de laquê descendo até os ombros, olhos pequeninos pintados com sombra escura e várias camadas de rímel. Vestia saia curta e uma camiseta colada no corpo grande e inchado, deixando aparecer o decote nos pequenos seios. Sua pele marrom-escura estava coberta por vários colares, pulseiras e anéis de ouro. Se apresentou como Fer, seu alter-ego travestido, e exibia um ar de mistério e sedução. Fui direto ao ponto e expliquei a razão da minha presença. Ao mostrar a foto da caveira com os chifres, Luis/Fer começou a indagar sobre o passado amoroso do meu marido até apontar precisamente que foi uma ex quem preparou o despacho, dando praticamente nome aos bois. "Não porque ela seja apaixonada por ele, mas ela não quer vê-lo feliz." A mesma ex que meu marido, embora incrédulo, disse dias antes ser a única pessoa que poderia se dar ao trabalho de fazer, bem, um trabalho. Luis/Fer garantiu que tudo ficaria bem, mas que para quebrar o despacho eu deveria acender uma vela de 7 dias com aroma de maçã e limpar a casa com a Água Espiritual 7 Potências.

Logo após a consulta, minha casa estava repleta de velas e devidamente higienizada com a água bentificada. Não me dei ao trabalho de enfiar papeizinhos na cera e acabei fritando uma boa omelete com os ovos de galinha de capoeira. Mas até meu marido W., que é extremamente cético a ponto de rir de tudo o que eu estava fazendo, passou a usar um escapulário que minha tia havia lhe presenteado. Nestes mesmos dias havíamos ganhado de presente de casamento uma imagem de São José. Segundo o costume local, caso você queira vender sua casa, algo que estamos tentando há quase um mês, deve-se enterrar o santo de cabeça para baixo no seu jardim. Quando o milagre for atendido, o santinho deve ocupar lugar de destaque na nova residência. O enterro (tortura?) do São José teve, assim, duplo significado: funções imobiliárias e protetoras de possíveis futuros despachos. Em tempo: por que tanta fissura com coisas enterradas por aqui?

Expliquei ao meu pai todos os pormenores da história e perguntei o que ele teria feito no meu lugar. Do alto da sua sabedoria e praticidade, o homem não hesitou: "sentava no lugar onde acharam a macumba e cagava em cima." Acho que realmente uma boa cagada depois de um almoço regado a brócolis e repolho daria conta: reverter mandinga com catinga. Mas eu não conseguiria ir por um caminho tão racional. Se no reveillon na praia peço luz e proteção com velas acesas e flores ao mar, por que não acrescentar um pouco de firula mística a um episódio enraigado numa crença popular? Depois de tanta vela acesa creio que não sobra mais nem pó das intenções maléficas dirigidas ao meu lar. Mas não custa nada passar um sal grosso no corpo e fazer umas orações vez por outra. No fim das contas, bem ao meu estilo Poliana de ser, até agradeço à mandingueira de plantão por não apenas ajudar a reacender a minha fé, como também a me fazer vivenciar a deliciosa experiência cultural do submundo espiritual da fronteira.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Política de chapinha

Certas realidades são tão bizarras que parecem causos saídos de crenças populares. Alguns tão fantásticos que nem novelas de Gloria Perez conseguiriam tamanha inventividade. Aqui nos Estados Unidos, o Texas certamente é um celeiro de realidades fantásticas. A última delas é de um dos candidatos a governador pelo partido democrata.

Farouk Shami é palestino naturalizado americano que imigrou para os Estados Unidos na década de 1960. Personificação do sonho americano, chegou neste país com apenas US$75 e fez uma fortuna bilionária no ramo de beleza. Sua grande invenção foi a primeira coloração para cabelos sem amônia (ah, sim, nós gostamos disto). Suas três marcas de produtos para cabelos e pele, BioSilk, Sunglitz e CHI, são exportadas para 50 países. Sua plataforma política é trazer "milhares de empregos para o Texas". Desta forma, chegou a fechar uma fábrica na China e está abrindo outra em Houston.

Tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente ontem à noite durante um evento político. Na verdade eu havia ido ao evento da candidata Sylvia Palumbo a tesoureira do condado de Webb, que tem Laredo como sede. Confesso que não fui por vontade própria, mas como esposa-acompanhante de W., que apóia sua candidatura. Ao final do evento vi dezenas de mulheres do lado de fora carregando bolsas com produtos de beleza. Uma delas soltou para mim: "vai lá pegar uma pra você também." Eu, com minha fraqueza por shampoos, não resisti.

Descobri, assim, que Mr. Shami estava na sala adjacente, num ambiente que contrastava berrantemente do solene e tradicional evento de Mrs. Palumbo. Ali ao lado, nada de luz branca incadescente, almôndegas nem palitos de aipo e cenoura em estilo self-service. A festa de Farouk estava iluminada com jatos de luz estroboscópica; a música era de boate, inclusive tocava uma canção brasileira animadíssima que eu nunca havia ouvido antes; os aperitivos incluíam mexilhões gratinados servidos individualmente em pratinhos por vários garçons; e um locutor anunciava sem parar: "Aguardem, aguardem! Daqui a pouco sortearemos as chapinhas CHI, alta tecnologia para seus cabelos!" No centro da sala lotada, 90% por mulheres, estava o senhor Farouk Shami, pequenino, pele esticada, abraçado a várias louras oxigenadas pelo menos dois palmos mais altas que ele, exibindo orgulhosas seus cabelos lisíssimos. Ele sorria ainda mais orgulhoso que elas, tocando e cheirando seus cabelos num momento Hug Hefner de ser, enquanto os flashes não paravam de brilhar. Apesar de achar tudo aquilo deliciosamente bizarro, entrei na fila para pegar meu kit CHI com shampoo, condicionador, spray de brilho e um panfleto de "Farouk Shami para Governador do Texas 2010". Abracei meu ondulado e deixei a chapinha pra outro dia. Saí dali pensando: isto sim é que é comício!

Política, shampoo e chapinha: genial! Este homem realmente é um bravo: não apenas é nascido na Palestina, como também tem nome árabe (pelo menos Barack Housseim Obama já abriu o caminho) e quer concorrer a governador pelo partido Democrata em um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos, distribuindo ao Texas cabelos mais belos e lisos. Nem Odorico Paraguaçú seria tão criativo. Como as fotos mostram, para sua campanha ele deu uma turbinada no visual. Nada de bolsinha sob os olhos: bolsinhas agora, só com shampoo dentro.

E quem disse que o Brasil é o país da piada pronta? Vem para o Texas você também, vem!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Yes, I do"


Dizem que quando você passa por uma situação de morte iminente sua mente produz um curta-metragem que resume sua vida em segundos. No dia do meu casamento, algo semelhante ocorreu comigo, porém com uma diferença em conteúdo: vi a minha vida amorosa passar na minha frente em segundos. Segundos que iam e voltavam ao longo de todo o dia 16 de outubro de 2009. Não é à toa: sair da solteirice e tornar-se Sra. Seu Marido é também uma espécie de morte. Mas nada de luto e sentimentos negativos: falo aqui da morte como renovação, conforme é interpretada pelos mexicanos dos dois lados desta fronteira onde temporariamente habito. Finda-se uma fase e começa-se outra. E a minha nova fase, com assinatura registrada em cartório, testemunhas e alianças, foi sacramentada num final de tarde quente, úmido e lindo do outono texano, sob uma chuva de milhares de borboletas que enfeitaram o Lago Casablanca como confeti da natureza enviado especialmente para brindar os noivos.

O formato final do casamento surgiu apenas três semanas antes da data oficial. W., que no passado se casou com todas as pompas, queria fazer do seu segundo casamento uma cerimônia extremamente simples. Como casamento é também negligenciar certas vontades, acabei cedendo: em comum acordo, optamos por um formato tradicional de casamento em cartório apenas com a presença de duas testemunhas. O modelo mais simples e o mais absolutamente nada a ver comigo. Nunca sonhei com festão de casamento, nem com igreja enfeitada, nem mesmo com casamento em igreja. Mas também jamais pensei em fazer algo tão burocrático. À medida em que a data se aproximava, eu já pressentia um arrependimento que duraria pelo resto da vida. Além da minha própria vozinha interior, eu também escutava de amigas casadas (algumas pela segunda vez) e amigas divorciadas que deveríamos fazer alguma celebração. Existem momentos que definitivamente devem ser celebrados, empanados em purpurina, sorrisos de amigos e bênçãos da família, e casamento é certamente um deles. Casar não é igual ir a padaria comprar pão. Você está comprando uma viagem alucinante, sem roteiro detalhado, apenas uma vaga idéia baseada nas experiências alheias e no seus instintos mais viscerais. Foi em setembro, quando eu encontrei meu vestido de noiva perambulando pelo shopping Mall del Norte, que a entidade burocrática que havia encarnado em mim começou a ser exorcizada. E num único telefonema que dei para a juíza confirmando a data da cerimônia, todos os detalhes do que seria a minha boda-tudo-a-ver-comigo surgiram como se eu já os tivesse ensaiado ao longo dos anos. Mal acreditei quando W. não apenas concordou com o formato final, como também quando seus pequenos olhinhos verdes brilharam mais fortes quando mencionei os pequenos detalhes que tinha em mente.

Algumas fortes emoções acompanharam os últimos momentos da preparação da boda. Pavor e pânico número um: dois dias antes do casório, o zíper do vestido não fechava nem a pau! Tentei acreditar que era o fecho que estava duro, mas tive que encarar a realidade: de todas as noiva que conheci, eu fui a única que engordou. Corri para a loja desesperada e ufa, um último número num tamanho imediatamente maior ainda estava no cabide. O ajuste ficou perfeito e a saga da busca pelo tão adorado vestido finalmente acabava ali.

Pavor e pânico número dois: a cinco dias do casório a aliança de W. ainda estava na Irlanda. W., que tem ascendência irlandesa, havia escolhido um modelo celta. Eu comprei a jóia pela Internet um mês antes do casamento e jamais poderia prever tamanha demora na entrega. Acompanhamos ansiosos o percurso da aliança pelo link do site dos correios. Um dia antes da cerimônia a aliança finalmente chegou a Laredo. Entrei em contato com os correios, que para aumentar o suspense explicou que a aliança seria entregue até as 15h do dia do casamento --sendo que a cerimônia estava marcada para as 17h! --e que antes desta tentativa de entrega não poderíamos buscar a encomenda pessoalmente. Eu já previa uma daquelas alianças de doce de criança sendo usada como substituta. Na manhã do grande dia, W. contou que se casava naquela tarde e conseguiu convencer os correios a entregar o pacote antes do horário de entrega oficial. Em Laredo, tudo é possível.

O relato do dia do meu casamento com W. começa com o detalhe pensado após todos os outros detalhes: o dia de noiva. Fiz questão de que fosse digno da minha purpurinice. Apesar do dinheiro contado em minhas parcas economias, não hesitei em ir no melhor salão e day spa da cidade. Comecei com uma sauna para desintoxicar meu corpo de qualquer medo e insegurança (a noiva que disser que não sentiu uma pontada destes sentimentos no dia do seu casamento está mentindo). Dali, segui para uma salinha escura de repouso que tinha na parede uma grande foto iluminada mostrando uma caudalosa fonte, como que para levar sua mente embora naquela espuma branca. Me ofereceram água ou vinho: não hesitei em escolher o chardonnay. Com o estômago vazio, o vinho começou a surtir uma deliciosa e relaxante embriaguez. Naquele momento, o filminho da vida amorosa começou a rodar: as brincadeiras de casinha na infância (curiosamente, eu e minhas amigas quase sempre dizíamos que o marido estava viajando); a primeira paixãozinha do colégio; o primeiro beijo aos 12 anos; os amores da adolescência; os amores da vida adulta; os homens que me endeusaram; os homens que não me valorizaram; os homens que viraram amigos; os homens cujos corações eu parti...todos, até culminar com a cena daquela manhã, em que eu e W. acordamos juntos e a primeira coisa que ouvi foi "feliz dia de casamento, meu amor". Naquela sala, o compartimento sentimental da minha mente estava a mil. Pensei na cerimônia que seria dali a poucas horas, lembrei dos familiares e amigos que não estariam presentes. Uma lágrima escorreu involuntariamente, mas nada disto, o momento é de alegrias, se eu pudesse fretava um avião e traria todos para cá, ou voaríamos até o Caribe e faríamos um luau por três dias e três noites sem parar, ou colocaria todos num barco no Rio São Francisco e comeríamos bode assado durante uma semana ou então... "Senhora, por favor me acompanhe para sua hidromassagem". Aquele frenesi de neurônios fez uma breve pausa durante os segundos entre a sala de repouso e a hidro. Mas foi apenas deitar naquela banheira para os próximos 40 minutos de uma intensa hidromassagem em leite de coco combinada com a fantástica massagem pelas mãos de uma massoterapeuta, para o burburinho de neurônios voltar. Eu boiava sobre a água naquele quarto à meia-luz com cheiro de fruta, cheiro de vela e música de meditação. Eu me purificava naquela água e nela me batizava, deixando para trás minha solteirice, todas as suas alegrias e dores, e entrava num casamento, com igualmente todas as suas dores e alegrias. Um pé no sonho e outro na realidade, cada um tem que encontrar sua forma de equilíbrio. Já refeita do meu momentâneo delírio catártico, parti para o último tratamento, mais uma hora de massagem sueca profundamente relaxante. Terminei meu combo-Cleópatra me sentindo uma pena de tão leve e tranquila. Tomei uma ducha forte e segui para a área do salão de beleza.

Uma semana antes eu havia ido ao salão para deixar todo o pacote pago e escolher o meu penteado. Tinham até tirado uma fotocópia do modelo que gostei e deixado separado para o dia oficial. Claro que vida sem emoção não é nada: no dia oficial perderam a foto. A cabeleireira fez um penteado que até hoje fico na dúvida se gostei ou não. Era definitivamente um ninho de passáros. Tinha ao mesmo tempo uma anarquia e uma harmonia que me encantava e me repelia. No ano passado fui ao casamento da minha amiga Cecília e me arrumei juntamente com ela e sua mãe no mesmo salão. Achei lindo mãe e filha compartilhando aquele momento -- há algo de poderoso neste processo de embelezamento onde criadora e criatura interagem -- e desejei desde então que o mesmo ocorresse comigo. Desejo atendido: minha mãe, que há apenas dois dias havia retornado a Laredo especialmente para celebrar a data, chegou ao salão. Com o cabelo aprovado pela progenitora, era hora de seguir para a maquiagem.

Eu temia que me deixassem com cara de drag queen, a maquiagem oficial de Laredo, seguida do estilo "gueixa latina". As lareirenses adoram uns looks pavorosos seja dia ou noite, baixo sol ou chuva: argamassa de base e pó, blush em excesso, sombra escura e pesada, delineador da grossura de um dedo e cílios grudados por dezenas de camadas de máscara. Mas a minha maquiagem foi nota 10. Gostei tanto do serviço que desejei nunca mais lavar meu rosto. O buquê chegou da floricultura e eu me enamorei com a delicadeza das rosas brancas. Estava lindo, discreto e elegante. Eu já era um projeto quase pronto de noiva. Também havia encomendado uma orquídea natural para meu cabelo, mas não caiu bem. Por sorte, o salão vendia acessórios e achei um enfeite com pérolas que combinou perfeitamente com a ocasião. Coloquei o vestido e eis que diante do espelho vi uma noiva de verdade. Uma noiva bem eu, com um vestido que não era uma fantasia de noiva, mas um vestido eu com cara de noiva. Um vestido curtésimo, o que levou minha mãe a falar incessantemente, até minutos antes da cerimônia, que eu deveria usar uma meia fina, algo que certamente não fiz. Uma noiva rechonchuda comparada com meu peso normal,com braços e pernas grossas, mas gostando muito do conjunto que via. E eu não queria mais largar aquele buquê. Incorporei a noiva, encarnei a personagem e parti para a cerimônia escoltada por minha mãe, o padrasto de W. e sua esposa, que juntamente com as três sobrinhas de W. pegaram estrada e avião de Kansas e Maryland para celebrar o momento.

Chegamos ao Lago Casablanca e uma nuvem de milhares de borboletas de várias cores nos recebeu, pequenos leques flutuantes abanando o calor daquele final de tarde. O tempo amanheceu nublado naquela sexta-feira, mas duas horas antes da cerimônia, abriu: o sol saiu completamente, dourado e morno, emoldurado por um céu azul de esparças nuvens. Uma monarca pousou no meu buquê. A natureza celebrava com delicadeza e graça. Uma brisa constante soprava nossos cabelos. Não quis me importar mais com laquê: daquela hora em diante deixei o vento soprar, o cabelo assanhar, o salto doer, o batom escorrer. O barco que serviria de altar estava decorado com flores brancas. O barco que simbolizava a grande jornada na qual estávamos embarcando e que nos traria sorte para passarmos a vida viajando como sempre sonhamos. A violinista tocava Bach. Passageiros e tripulação somavam 13 pessoas, número forte: minha mãe, os padrastos e sobrinhas de W., a juíza amiga de faculdade de W., o casal de testemunhas, a violinista e o amigo capitão do barco. Decidi de última hora que queria ser levada até W. por minha mãe. Ele me esperava no barco vestindo camiseta preta, blazer e calça marfim, combinando com meu vestido. Eu não conseguia parar de sorrir.

Navegamos até o meio do lago. No percurso, famílias e pescadores prestavam atenção no barco florido. Ancoramos e então, em meio às águas do Casablanca, a juíza leu os votos oficiais de casamento. Só ali foi que a ficha caiu completamente: era tudo verdade, eu estava me casando e aquilo ali não era encenação. Eu estava me casando, e in English. Eu estava me casando com W., meu amigo que conheci há nove anos e que em menos de dez meses de namoro, duas idas dele ao Brasil e duas vindas minhas ao Texas, virou meu amor, meu esposo, meu digníssimo marido. Prestei atenção no discurso breve da juíza e também gostei do que ouvi: que a vida a dois não será fácil e que será preciso ter muita força de vontade para superar as dificuldades. É bom ser avisada destas cláusulas contratuais emocionais. Eu e W. também lemos em voz alta um voto de casamento celta que escolhi em sua homenagem. O que mais me encantou neste voto foi que trata o homem e a mulher como iguais, nenhum dono do outro, mas ambos pessoas livres que oficializam por vontade própria que cuidarão um do outro. As cerimônias de casamento celtas eram realizadas por uma sacerdotiza, portanto foi uma bem-vinda coincidência (existem coincidências?) que tivemos uma juíza celebrando a nossa.

Trocamos as alianças -- e pela primeira vez vi sua reluzente e dourada aliança celta fazendo par com meu diamante de noivado. "Yes, I do", ele disse. "Yes, I do", eu disse. O beijo. Por fim, incorporamos um ritual brasileiro de ano novo, porque assim como o ano novo o casamento é um começo: cada convidado recebeu uma rosa branca e fez um desejo ao seu Deus pedindo bênçãos aos noivos. Havia cristãos, judeus e mulçumanos reunidos.Em seguida, todos jogaram as rosas ao lago. Nosso lago de rosas. Treze rosas brancas alimentando as águas. Fiz um breve discurso de agradecimento aos que estavam presentes. A voz embargou e as lágrimas escorreram. Estouramos champanhe e comemos os bem-casados e alfajores que minha vizinha petrolinense que fez questão de enviá-los. Borbulhas e doces para brindar a nova vida, do jeito que eu gosto.

Dali partimos para jantar num tradicional hotel de Laredo, o La Posada, num esquema super informal de cada convidado pagando o seu jantar. Aproximadamente outros 10 convidados se juntaram a nós. Partimos o bolo encomendado especialmente para cerimônia. Juntamos todas as solteiras e nos dirigimos ao pátio. Tirei o salto alto e me deixei ainda mais à vontade. Começar a vida nova sem torturas! Subi uma escadinha e joguei para trás o buquê de rosas brancas que caíram nas mãos da minha instrutora de hidroginástica, que não apenas tem se mostrado uma amiga querida, como também tem uma longa história de amor com o Brasil. Não, certas coisas não podem ser apenas coincidências.

Tantas bênçãos, tantos símbolos, tantos planos, tantos desejos de sermos o melhor que podemos ser. Tantas decisões tomadas em nome de se iniciar uma família, como a minha decisão de mudar de sobrenome. Jamais imaginei que faria isto. Não faço parte de nenhuma família tradicional ou conhecida, mas sempre tive orgulho do nome que fui registrada. Por que eu tenho que mudar e não meu marido? Mas mudei. Foi meu presente a W. e sei que ele gostou, pois não esperava isto de mim. A legislação brasileira não permite que eu omita meu sobrenome, portanto apenas acrescentarei ao final o sobrenome do meu marido. Dentro de casa sinto que algo mudou. Dentro de mim sinto que algo mudou. Me sinto mais segura. Agora esta também é a minha casa. Agora as decisões serão tomadas em conjunto. Agora é oficial e gosto desta sensação de ordem que a oficialização traz. Gostei de morrer solteira para renascer casada. E que venham as outras fases e ritos de passagem. A viagem continua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vestido de noiva

Por mais independente, bem resolvida e despojada que seja uma mulher; por mais descolada, mais pra frente e mais "muderna" que seja uma mulher; por mais mulherão, mais furacão, mais "tô nem aí" pras instituições que seja uma mulher, no fundo do seu coraçãozinho pulsante ela carrega uma criatura que só usa vestido cor-de-rosa e suspira com pestanas apaixonadas. Esta sósia ao avesso se chama mulherzinha. Uma mulherzinha que sonha com o príncipe encantado na hora de dormir, mesmo que sua plena e intensa vida amorosa a tenha feito compreender que assim como dentro de toda mulher existe uma mulherzinha, dentro de todo homem existe um sapo, muitas vezes um baita dum cururu grande, verde e bizarro. Esta mesma mulherão-mulherzinha que descobriu a intrínseca relação entre humanos e anfíbios (no caso feminino, a perereca é o elo perdido) sonha, desde os tempos de menininha, com aquele dia, o grande dia, o supostamente maior dia da sua existência: aquele em que ela olha nos olhos do seu príncipe-sapo e, explodindo de emoção, diz "sim, serei sua para o resto de nossas vidas." Mas antes de chegar nestes finalmentes, teve um outro detalhe que ela não deixou passar desapercebido: o vestido de noiva. Eis aqui um breve relato do meu momento mulherzinha.

Foi sábado passado e fazia um dia lindo, quente e úmido. Numa cidade onde não há nada culturalmente interessante para se fazer, o que se faz? Vai às compras. Saí de casa para uma breve sessão de tortura, sabendo que eu não poderia gastar: apenas para olhar, fazendo as vezes de consumidora inteligente que dificilmente sei ser. Perambulando pelas lojas do shopping, pelos infinitos balcões de maquiagem e prateleiras de sapatos, me dei conta que me casaria dali a menos de um mês. Já estava quase conformada com o formato burocrático do que seria a minha boda: uma visita ao cartório local, uma troca de votos de cinco minutos e que vivam felizes para sempre. A minha mulherzinha já estava morrendo sufocada de tédio com falta de gliter na veia. Parei para um café e a cafeína teve um efeito ressucitador: "não me assassine. Procure um vestido. Um vestido de noiva."

Flasback. Lá nos idos dos anos 80 eu, pirralha, olhava revistas de noivas e procurava pelo modelo ideal. Era uma época de mangas bufantes, horrendas, noivas à la merengue de limão. Achei um tomara-que-caia perdido entre as páginas e fiz ali minha escolha. Vi pela primeira vez que havia vestidos que não eram brancos, mas perolados. Gostei, mas a minha mulherzinha-tradição dizia que para casar, só se fosse de branco. Mesmo que fizessem troça com o fato de casar de branco. Cresci numa terra machista, onde virgindade ainda era trunfo, onde homens e mulheres iam aos casamentos e cochichavam maliciosamente que aquela noiva nunca deveria ter se casado de branco. Ainda: fui criada por uma mãe moderna que dizia que vestido de noiva era algo cafona, coisa de festa a fantasia. Cresci com amigas bem mulherzinhas, mas também com amigas modernas que abafaram suas mulherzinhas e abraçaram a máxima que vestido de noiva é brega. E finalmente: nunca entendi por que minha mãe comprava aquelas revistas, afinal ela não apenas achava vestido de noiva coisa cafona, como também já estava casada há tanto tempo. Minha mãe que casou no cartório de botas de cano alto, saia plissada xadrez, blusa de manga comprida e lenço de seda na cabeça. Quando pequena achava um horror, mas hoje acho o máximo. Mas foi preciso chegar o momento de eu comprar o meu vestido para me dar conta que, como ela não se casou dentro de um, sua mulherzinha certamente aparecia como noiva-fantasma e pedia oferendas em formas de revistas.

Comecei a entrar de loja em loja procurando um vestido branco. Um vestido branco, curto e moderno. Um vestido que eu pudesse usar depois, que não tivesse cara de festa a fantasia. Um vestido sóbrio porém sexy. Até pouco tempo atrás um editorial da Marie Claire dizia que branco era o novo preto. Mas certamente esta moda não chegou aqui na fronteira, muito menos nesta entrada de outono repleto de cores escuras. Até achei um perdido numa arara nos fundos de uma loja, mas o tecido era ruim, o corte era ruim, tudo era ruim e eu mal conseguia respirar de tão apertado. Comecei a mudar de idéia e a achar que meu vestido de noiva seria vermelho. Por que não? Minha mulherzinha-libertina começava a dar pulos, golpeando a mulherzinha-tradição.

Flashback. Sou de uma cultura obsecada por casamento, por tradições rígidas para certos ritos de passagem e, consequentemente, pelos vestidos que fazem parte destas tradições. Eu não tive festa de quinze anos. Nem baile de debutantes. Minha mãe achava cafona. Minhas amigas mais próximas achavam cafona. Eu também achava cafona, mas minha mulherzinha-tradição pestanejava apaixonadamente em segredo com aqueles vestidos de princesa. As aniversariantes e debutantes trocavam até três vezes de roupa na mesma festa. Nos meus quinze anos fui comer pizza trajando um conjuntinho de malha roxo colado no corpo. Nunca vou me esquecer daquele vestidinho. Não porque eu fosse louca por ele, mas porque no fundo ele foi o substituto do vestido branco que eu nunca tive.

Circulei o shopping inteiro. Havia uma última loja, uma enorme loja de departamento para entrar. Resolvi ir embora. Porém, a alguns passos dali, o resto da cafeína que ainda circulava no sangue me mandou dar meia volta volver. Um sexto sentido em ação. E eis que no lado esquerdo da escada rolante do segundo andar da Dillard's, eu o encontrei. Ele. O vestido. Tecido maravilhoso, corte impecável. Simples, elegante, sexy e jovial. De marca, BCBG Max Azria, a um preço excelente, "com 20% de desconto somente até amanhã se você preencher esta ficha cadastral." E ainda havia um modelo no meu número.

Enquanto o atendente foi buscá-lo, lembrei de um programa na TV que mostrava noivas comprando seus vestidos. Noivas felizes, nervosas e ansiosas com champanhe na mão escolhendo o vestido que usariam uma única vez nas suas vidas. Lembrei de todos os filmes e séries de televisão com cenas de noivas escolhendo seus vestidos. E senti uma vontade enorme de poder compartilhar aquele momento com as minhas amigas, com a minha irmã, com a minha mãe. Contudo, não deixei a melancolia me dominar. Lembrei também que praticamente durante toda a minha vida adulta, estive sozinha enquanto fiz minhas compras de roupas. O atendente chegou. Experimentei o vestido. Ele fechou o zíper nas costas. Ele era gay e fiquei feliz por isto. O caimento ficou perfeito -- verdade, um tantinho de nada apertado no peito, mas não visivelmente apertado. Ele era meu, eu sabia. O vestido de matalassê acetinado de cor perolada com flores aplicadas no busto e laço preto na cintura. Curto. Super curto. Nada de superstições com cores, nada de puritanismo, por favor. Minha mulherzinha-moderna estava embriagada de felicidade. Liguei para o noivo: "honey, achei." "Hum, que bom. Quanto?" "US$ X". "OK. Pode vir aqui em casa buscar o cartão". Minha mulherzinha-tradição quis que o noivo pagasse pelo mimo. E a mulher dona-de-casa que já compreende os hábitos de compra do seu futuro marido se surpreendeu com o fato de ele não ter hesitado nem por um momento sequer.

Pedi ao atendente para separar o vestido, enfatizando a cada três palavras que era o meu vestido de casamento. Meu-vestido-de-casamento-OK? O simpático atendente disse que eu não precisava me preocupar. Saí do shopping flutuando. No carro, a caminho de casa, ou melhor, a caminho de buscar o cartão de crédito, liguei o som a toda altura e cantei cada música com toda a força dos meus pulmões durante os 15 minutos de viagem. "Minha pequena Eva, Eeeeeeva, o nosso amor na última astronave, Eeeeva (...)", "E pra vocês eu deixo apenas o meu olhar 43, aquele assim (...)". Eu estava histérica e mesmo que aquelas letras não fizessem qualquer sentido, aquela foi a trilha sonora da minha radiante felicidade.

No fundo, eu sabia que não era apenas o vestido. Era ele também, mas não ele somente. Era o rito de passagem. A evolução rumo a esta etapa que eu nunca achei de fato que fosse o maior dia na vida de uma mulher, e até duvidei se fosse acontecer um dia comigo. Havia tanta coisa para se fazer nesta vida; casamento era apenas uma consequência, um acaso ou mais uma possibilidade. Continuo achando. Mas minha mulherzinha anda bem sorridente estes dias. Ainda: a partir do vestido, decidi mudar radicalmente o formato de casamento em cartório. Não à burocracia, sim ao gliter! Mas esta história eu deixarei para depois.

Momentos mais tarde, já chegando em casa com o vestido em mãos, pedi para W fechar os olhos enquanto eu escondia o mimo no closet. Minha mulherzinha-mulherzinha se deixou levar por superstição: nada do noivo ver o vestido até o dia do casamento. Eu estava feliz. W estava feliz. Ele sabe que tem certas coisas que não se deve nunca negar a uma mulher. Meu sábio príncipe-sapo.

sábado, 19 de setembro de 2009

Zunhe-me

Ela tinha as maiores unhas que qualquer mulher dona de casa jamais ousou ter na vida. Unhas gordas e longas. Garras superlativas. Esmalte cor-de-abóbora com cristais na ponta, nenhuma lasca, nenhuma cutícula por fazer, nenhuma sujeira por baixo. Apenas o abóbora reluzindo naquele final de tarde, numa cidade que cheirava a pó quando a chuva chegava. E chovia. Era baixinha. Era larga. Tinha cabelos negros grossos e mal-cuidados. O zelo estava depositado naquelas unhas, naqueles cristais, naquelas pontas quadradas duras como cimento. Quantas manicures vietnamitas por semana? A chuva. Um homem sai do carro. Caminha rápido para não se molhar em direção à mulher de unhas fenomenais. Ele é magro. Ele é franzino. Ela ocupa duas vezes o espaço do seu corpo. Ela sorri com seus olhos pequenos borrados sobrecarregados de sombra, lápis, delineador e rímel. Com o braço esquerdo ele enlaça sua cintura. Ela repousa as intermináveis unhas sobre o seu quadril. Para ele o mundo pode acabar ali. Seu mundo por uma zunhada cor-de-abóbora.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Independência, vencedores e vencidos

Em 16 de setembro o México comemorou seu 199o. aniversário de independência do domínio espanhol. É interessante observar como os mexicanos, pelo menos neste aspecto, são bem mais patrióticos que nós brasileiros. Quando eu era criança lá nas brenhas do sertão, eu marchava com a farda de gala do colégio pelas ruas da cidade, seguindo a marchinha da escola e a banda do batalhão militar. Depois disto, 07 de setembro tornou-se apenas mais um feriado para acordar tarde e descansar. Já no México, as fiestas pátrias são coisa séria. Os mexicanos enfeitam as ruas de vermelho, verde e branco, as cores do país, fazem comidas típicas para esta celebração e reunem-se para festas em casas de familiares e amigos. É um patriotismo que vai além dos desfiles militares que estamos acostumados no Brasil. Há um sentimento civil de patriotismo acima de tudo. Tive a chance de ver isto de perto durante uma viagem à Cidade do México há cerca de quatro anos. Aquela noite no distrito boêmio de Coyoacán, pertinho da casa de Frida Khalo e Diego Rivera, foi uma das mais inesquecíveis que já vivi. Não teve nenhum grande romance, nenhuma grande aventura hollywoodiana. Apenas uma brasileira de coração aberto comendo cactus com tubarão na varanda de um restaurante de culinária fusión moderninha, brindando com um cara que eu havia conhecido durante o vôo Rio-Cidade do México e que virou meu companheiro de viagem durante aquela semana. Fogos de artifício, barraquinhas de comidas típicas e super exóticas por todos os lados, dança, pimenta e leveza no ar eram o pano de fundo perfeito. Também observei semelhante comemoração no Chile há dois anos, por coincidência também em setembro, indo a suas fondas regadas a churrasco, empanadas, cerveja e vinhos, tanto em grandes espaços urbanos quanto nas casas de amigos. Deliciosa experiência, mas que me perdoem os chilenos patriotas: eles não chegam perto do tempero que o México tem. Deve ser o chilli azteca.

Laredo, Texas, tentou colocar tempero na sua festinha, mas a coisa ainda assim ficou meio morna, faltando faísca. De toda forma, foi prazeiroso ver aquela gente toda reunida no mormaço noturno na Plaza San Agustín, no centro histórico da cidade, celebrando sua herança histórica e cultural. A comemoração ocorreu um dia antes da celebração oficial. O motivo é simples: com Nuevo Laredo, México, a apenas um cruzar de rio, uma festa no dia 16 de setembro ficaria praticamente vazia.

A noite teve direito a danças típicas, geralmente belas moças sendo cortejadas por rapazes, tudo num estilo meio inocente e campestre; desfile de "rainhas" dos estados mexicanos (como eles adoram isto! Tem rainha pra tudo, igualzinho ao Brasil. Olha que eu já fui rainha do milho no século passado!);cantores com nomes como Danilo Daniel; grupos de mariachis; banda do batalhão de Nuevo Laredo; barraquinhas de tacos e jamaicas, um suco à base de hibisco. E belas pequenas cenas, como a menininha flamulando a bandeira mexicana duas vezes maior do que ela. Algumas mulheres e crianças vestiam roupas típicas, como aquelas belas batas de bordados coloridos que eu uso constantemente para ficar em casa. Havia um vendedor de bandeiras com a metade do rosto tapado por uma delas. Membros da Igreja Cristã Misericórdia aproveitando a aglomeração para entregar panfletos de "El infierno: la decisión es tuya". Um organizador de eventos distribuindo os panfletos do show da cantora pop Paulina Rubio com suas pernocas à mostra. Um padre tomando Coca-Cola em frente ao coreto.

Em meio a tanta informação, na minha cabeça ecoava o comentário que minha mãe fez outro dia quando falávamos sobre os vencedores e os vencidos da guerra entre Estados Unidos e México em meados do século XIX. Sim, os EUA venceram militarmente, levando o México a se render e a entregar alguns dos seus territórios, incluíndo o Texas. Mas e o legado cultural deixado pelos "vencidos?" A influência mexicana é muito forte na culinária, nas artes, na cultura, no idioma. Se olharmos por este aspecto, quem de fato é o grande vencedor? Senti uma certa ironia com aquela bem-vinda celebração da história mexicana em solo americano. E, em coro com o cônsul-geral do México que ostentava a bandeira de seu país na sacada do Hotel La Posada, logo após cantarem o hino nacional, também gritei: "Viva México!"




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Éramos três na estrada


Eram três pessoas na estrada, três pessoas felizes na estrada, um homem compenetrado que conduzia e duas mulheres que sorriam na estrada e falavam da estrada e da cor do mato, e do verde do mato, e daquele céu de tantas nuvens, e da forma que as nuvens tomavam na estrada, tanta metamorfose de nuvens na estrada, um pássaro que ela viu eu também vi, e virou um avião e virou um míssil, como assim mudamos de pássaro para míssil? mas podemos também, um dia somos livres, outro dia detonamos bombas suicidas, mas ali na estrada não havia suicídio, havia três pessoas, três pessoas felizes na estrada, um homem que pegava na mão da sua mulher e duas mulheres que sorriam sem parar e brincavam com a luz, com aquele banho de sol dourado no final da tarde, mulheres que sorriam ao se fotografar, que bela e inocente brincadeira narcisista para não perder aquela luz que vinha daquele buraco no céu, e do oeste a noite descia seu manto preto-carvão e lá no leste a luz explodia alaranjada, aquele céu que a apenas oito metros era um céu de dilúvio, vimos um pedaço de fim de mundo ali na estrada, não enxergávamos um palmo à nossa frente, e chovia grosso, e chovia muito, e chovia uma nuvem negra sobre nossas cabeças, mas estávamos na nossa arca, protegidos por gargalhadas e por um arco-íris que se formou lá atrás no norte, porque embarcávamos rumo ao sul, mas sul e norte são tão relativos e para que tanta bússola nesta vida se de repente a vida chega num só fôlego, porque o fôlego foi nossa primeira voz, a minha, a dele, a dela e a sua, e é assim mesmo nesta vida, às vezes tudo chega num só fôlego, um fôlego que dura uma risada, uma risada que dura uma estrada e afe, eu prefiro viver assim, num fôlego interminável, no meio de uma estrada que chove, no meio de uma estrada que ilumina, do meio de uma gente que se metamorfoseia no melhor que consegue ser.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As ruas fictícias de Laredo

Meu pai conhecia Laredo muito antes da minha chegada a estas terras. Não que tenha colocado os pés aqui antes, mas leitor voraz das aventuras em quadrinhos de Tex Willer, o herói fazendeiro americano que personifica as aventuras do velho oeste, já conhecia de forma romantizada os entornos desta região. Conforme o princípio da sincronicidade ("as coisas dão certo quando têm que dar"; ou, idem à lei de Murphy, "quando é pra dar merda espere uma diarréia"), às vésperas da minha mudança para esta cidade ele quis mostrar ao seu futuro genro o seu fascínio por este universo eternizado em gibis e filmes de bang-bang. Pausa para um suspiro globalizado: meu pai baiano, na sua cidade pernambucana, mostrava ao seu genro americano um gibi italiano traduzido para o português sobre uma aventura que se passava na fronteira texano-mexicana. Ao acaso, retirou da estante um dos exemplares da sua vasta coleção e eis que na primeira página da reedição de "Missão Suicida," publicada pela primeira vez em 1979, estavam Laredo e Nuevo Laredo às margens do Rio Grande num mapa simplificado do sul do Texas. Como não sorrir com estes pequenos sinais (de que nada é por acaso, de que há um plano maior para nossas comuns vidas etc etc etc) que ornamentam minha por vezes cética mente? Lembro que naquele exato momento, mesmo sendo um pontinho preto num canto esquerdo de uma página de quadrinhos, Laredo não apenas parecia menos remota, como também ganhava uma certa grandiosidade.

Poucas semanas mais tarde já nas bandas do norte, numa noite boêmia regada a vinho, W me surpreende tocando no computador pelo menos cinco versões de uma linda canção, algumas nas vozes de ninguém menos que Johnny Cash e Joan Baez. Bela e triste, é a balada de um jovem cowboy em seu leito de morte após haver sido baleado no peito. A cera dos meus ouvidos derreteu imediatamente ao saber o título: The streets of Laredo, ou "As Ruas de Laredo". Em pesquisas posteriores, descubro que ela tem origens no século XVIII e portanto várias versões, não sendo atribuída a nenhum autor específico. Num contexto mais pop também fez parte da trilha sonora do filme O segredo de Brokeback Mountain. Perdoem minha ignorância, mas acreditava até então jamais haver escutado esta música. E Laredo, perdoe minha arrogância, mas também não fazia idéia do seu prestígio. No final deste post encontra-se a letra com uma tradução que acabei de improvisar.



Mais uma pesquisa e descubro que existe um filme de 1949 também entitulado The streets of Laredo. A estória se passa no Texas em 1878 e narra as aventuras dos amigos de infância Jim, Lorn, Wahoo e Rannie. Jim vira fora-da-lei, Lorn e Wahoo viram Texas Rangers e Rannie precisa escolher entre o amor de Lorn e Jim. Para completar o meu total arreganhamento de mandíbulas, entre 1967 e 1969, a rede de TV americana NBC exibiu um seriado chamado Laredo. Misturando humor e ação, também tinha os Texas Rangers como protagonistas.



Então Laredo não é tão esquecida. Ou melhor: Laredo é de fato uma cidade lembrada, musa inspiradora -- ou pelo menos assim foi até o final da década de 1960. Existe um nicho que a reconhece, nem que seja através da sua forma fictícia e romantizada: seus cowboys, seus ranchos, seus cactus, seus cavalos. Tudo isto ainda vivo na realidade além-vídeo, tudo isto também já modernizado e transformado: cavalos brancos por todos lados em formas de grandes pickups 4x4; um cowboy paraplégico de chapéu, bota e cinturão na sua cadeira de rodas motorizada escolhendo cereal no corredor do supermercado. Eu ainda não vi, mas minha mãe disse que domingo pela manhã bem na frente da minha casa havia um cowboy montado num grande cavalo.

Existe uma Laredo viva na mente de aficcionados por faroeste que habitam o sertão pernambucano ou remotas colinas de vilas italianas. Existe uma Laredo eternizada numa bela canção de conteúdo agonizante, em clipes de You Tube, nos bites e baites de uma Internet que tudo armazena e tudo expõe. Existe uma Laredo cuja fama atravessa gerações. Existe, neste ano de 2009, a minha tentativa de conhecer esta cidade, mas entendo que minha vaidade a aceita, quase sempre, apenas como pano de fundo para meu auto-conhecimento.

The Streets of Laredo
Versão Johnny Cash

As I walked out on the streets of Laredo.
(Enquanto eu caminhava pelas ruas de Laredo)
As I walked out on Laredo one day,
(Enquanto eu caminhava por Laredo um dia)
I spied a poor cowboy wrapped in white linen,
(Eu espiei um pobre cowboy envolto em linho branco)
Wrapped in white linen as cold as the clay.
(Envolto em linho branco tão frio quanto a argila)

"I can see by your outfit that you are a cowboy."
(Eu posso ver pela sua vestimenta que você é um cowboy)
These words he did say as I boldly walked by.
(Estas foram as palavras que ele disse enquanto eu vigorosamente passei ao seu lado)
"Come an' sit down beside me an' hear my sad story.
(Venha e sente-se ao meu lado e escute minha triste história)
"I'm shot in the breast an' I know I must die."
(Fui baleado no peito e sei que devo morrer)

"It was once in the saddle, I used to go dashing.
(Uma vez sobre a sela eu costumava seguir impetuoso)
"Once in the saddle, I used to go gay.
(Uma vez sobre a sela eu costumava me animar)
"First to the card-house and then down to Rose's.
(Primeiramente no jogo e depois na casa de Rose)
"But I'm shot in the breast and I'm dying today."
(Mas estou baleado no peito e estou morrendo hoje)

"Get six jolly cowboys to carry my coffin.
(Traga seis animados cowboys para carregarem meu caixão)
"Six dance-hall maidens to bear up my pall.
(Seis dançarinas de salão para colocarem minha mortalha)
"Throw bunches of roses all over my coffin.
(Joguem muitas rosas sobre meu caixão)
"Roses to deaden the clods as they fall."
(Rosas para amortecer a terra enquanto ela cai)

"Then beat the drum slowly, play the Fife lowly.
(Então batam o tambor lentamente, toquem o pífano bem baixo)
"Play the dead march as you carry me along.
(Toquem a marcha fúnebre enquanto vocês me carregam)
"Take me to the green valley, lay the sod o'er me,
(Levem-me para o vale verde e joguem a terra sobre mim)
"I'm a young cowboy and I know I've done wrong."
(Eu sou um jovem cowboy e sei que fiz coisas erradas)

"Then go write a letter to my grey-haired mother,
(Então escreva uma carta para minha mãe de cabelos grisalhos)
"An' tell her the cowboy that she loved has gone.
(E diga-lhe que o cowboy que ela amava partiu)
"But please not one word of the man who had killed me.
(Mas por favor nenhuma palavra sobre o homem que me matou)
"Don't mention his name and his name will pass on."
(Não mencionem o seu nome e seu nome sobreviverá)

When thus he had spoken, the hot sun was setting.
(Então quando ele terminou de falar, o sol estava se pondo)
The streets of Laredo grew cold as the clay.
(As ruas de Laredo ficaram frias como a argila)
We took the young cowboy down to the green valley,
(Levamos o jovem cowboy para o vale verde)
And there stands his marker, we made, to this day.
(E até hoje ainda está lá a sua lápide que nós fizemos)

We beat the drum slowly and played the Fife lowly,
(Nós batemos o tambor lentamente e tocamos o pífano bem baixo)
Played the dead march as we carried him along.
(E tocamos a marcha fúnebre enquanto o carregávamos)
Down in the green valley, laid the sod o'er him.
(Para o vale verde, onde jogamos terra sobre ele)
He was a young cowboy and he said he'd done wrong.
(Ele era um jovem cowboy e disse que havia feito coisas erradas)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Caipirinha, milk shake, uma fada surrada e mais um ano que entra

Nunca fui de ficar reclusa no meu aniversário. Sempre gostei de festa, comemoração, bolo e gente por perto. Por mais que tenha passado a crer em mapa astrológico, nunca engoli esta história de inferno astral que precede o mês do nosso nascimento. Nos anos que achei que isto poderia estar ocorrendo, me dei conta que eu é quem tinha alimentado meus próprios demônios e criado alguns infernos (antes fossem inferninhos). Tenho amigos que viram ostra, amigos que choram ou que preferem sair para jantar com o mínimo possível de pessoas. Respeito. Mas 02 de setembro é meu dia e com licença, consegui mais um ano, mais uma bênção: a de estar viva e não simplesmente sobrevivendo. Eis aqui um relato de como entrei na idade de Cristo com um pau na mão dando uma surra numa fada.

Diferentemente de anos anteriores, este ano não fiz contagem regressiva de um mês de antecedência. Me dei conta que a data era dali a quatro dias e debati por 10 minutos se faria ou não uma festinha. Afinal, acabei de aportar nestas terras e estive com os novos amigos apenas duas ou três vezes. Mas foi exatamente isto que ativou meu botão de comemorar: e por que não brindar com quem me recebeu tão bem numa cidade que eu adoro poder falar mal? No fundo eu sabia que o brinde não era apenas em minha homenagem, mas à deles também. Era uma forma de agradecimento. Sem contar que desde os 16 anos de idade não celebro aniversário com minha mãe por perto. E seria meu primeiro aniversário com meu querido W. E eu queria fazer brigadeiro. E comer bolo. E tomar caipirinha. E me sentir especial sim. Porque eu gosto. E posso.

Então, desde as 24 horas que antecederam a data, dei largada para a sessão de cuidados: cabelo pintado em salão seguido de corte, manicure, pedicure, sobrancelhas depiladas. Praticamente barba, cabelo e bigode. E, na tarde do dia 02, massagem sueca num spa pelas mãos de um homem forte chamado Felipe. Presente de W.

A primeira etapa foi festa de criança, na bagunça ao lado dos filhos dos meus recém-amigos. Como você explica para uma garotinha de nove anos que ela ainda não pode tomar cachaça? Faça um milk shake de morango e diga que é "caipirinha for kids". Pronto, naquela noite nasciam futuros viciados. Do lado de fora da casa, minha mãe grita: "traga um lenço!" Chego lá e pela 1a vez na vida tem uma piñata para mim. Todinha para mim! Piñatas são um clássico da tradição mexicana: potes de papier machê em formato de tudo o que você possa imaginar - flores, carros, super heróis, Bob Sponja, cavalinho -- com doces dentro. Uma venda é colocada nos olhos de uma criança que dá umas rodadinhas para ficar tonta e tentar acertar com um bastão o boneco pendurando numa árvore. Quando ele quebra, derrama rios de doces e brinquedinhos. É o mesmo conceito do quebra-pote brasileiro, um clássico da minha infância. Então é aqui que aparece o pau: um cabo de vassoura. E é aqui que aparece a fada: minha piñata era uma Sininho do tamanho de um bebê e com cara de monstro. Surrei a bichinha com gosto. A cabeça foi parar do outro lado da rua. Botei pra fora qualquer sinal de demônio que quisesse roubar meu bom momento astral.


Abre parênteses: como é que de um ano para outro a vida pode tomar um caminho completamente distinto? Em 2008 eu comemorava meu aniversário numa champanheria carioca, cercada de amigos de longa data e de alguns amigos também recém-conhecidos, mas de perfil tão distinto dos amigos de Laredo. Eram publicitários, fotógrafos, atrizes, músicos, cineastas, designers. No Rio todo mundo é pop. Estouramos vários espumantes e ainda tive forças para emendar um cabrito com arroz de brócolis na Lapa às 2h da madrugada. Aqui, pessoas de profissão "normal", -- advogados, professora de 2o grau, instrutora de academia, jornalista -- muitos recém-saídos de reunião do Rotary Club. E eu servindo leite batido pra gurizada, dando um beijo no meu marido e abraçando minha mãe. Quero nem pensar no ano que vem. Que venha. Fecha parênteses.

A noite ainda teve direito a bolo encomendado combinando com a cor dos pratos, da toalha de mesa e dos guardanapos; brigadeiro coberto com chocolate granulado; pão de sardinha que virou minha "receita secreta" de sucesso; queijos variados, tomate cereja no azeite e hummus de caixa porque a gente também tem que ser prática de vez em quando. E eu de avental vermelho a noite inteira atrás do balcão preparando caipirinha para os convidados. Verdade, mal tive tempo de conversar com as pessoas. Servir foi o que fiz, mas com gosto, com vontade. Tome, prove um pouco da de limão que é clássica. Experimente agora a de morango. Morango com limão caiu no gosto dos laredenses. Um pouco do meu Brasil misturado com cachaça e açúcar. Um pouco de mim. Receber é bom, mas dar é tão prazeiroso quanto. E juro que esta frase não tem duplo sentido.