Há um conjunto de três fontes no bairro de Montrose em Houston que me faz lembrar um trio de pudim, manjar e quindin. Água que flui com uma leve lembrança visual e degustativa de recordações infantis. Fazia um friozinho de arrepiar os pêlos do antebraço naquele final de tarde de março, mas as moças que visitavam as fontes para eternizar momentos em incontáveis fotografias digitais faziam questão de deixar os ombros desnudos apesar da opulência dos seus vestidos-fantasia. Ombros delicados, como delicados são os ritos de passagem. Num lado da rua, uma debutante quinceañera. Do outro, uma noiva. Ambas em seu dia de glória, ambas inundadas em fontes e sonhos e suspiros.
A debutante de vestido azul-quase-neon era o retrato fiel de uma princesa Disney em versão latina. Um vestido de gosto duvidoso para padrões alta-costura, mas que lhe caía bem. A menina que cresceu com Internet, celular e acesso a tantos estilos mas que ainda preferia tradição. Eram tantos os arames das suas anquinhas que ela mal conseguia se sentar sobre a grama do parque. Eram tantos os falso-brilhantes do seu vestido que eles desputavam a atenção dos transeuntes com a luz dourada daquele final de tarde. Mas a quinceañera era de fato encantadora, feminina, delicada nos gestos e reinava confortável no seu lado da rua entre os flashes fotográficos e os olhares que recebia. Sabia sorrir para a câmera em posada naturalidade. Duas mulheres a acompanhavam o tempo inteiro enquanto cobriam-lhe de fotografias. Uma delas, possivelmente sua mãe, sua versão caseira de fada-madrinha. Seu príncipe, se é que ele existia, cavalgava em outros reinos.
A poucos metros a noiva levantava o vestido branco e exibia as suas também muito brancas pernas até o joelho. A longa cauda do traje arrastava a réstia de luz do pôr-do-sol e as lembranças da cerimônia de seu casamento que deveria ter ocorrido aquela tarde. Já não havia mais buquê em suas mãos – àquela altura, ele já pertencia a outra dona que ainda aguardava seu rito de passagem. Agora era chegada a hora de se entregar para a brisa levemente gelada, de manchar o vestido de terra, de descalçar os sapatos vermelhos e enfiar o pé na grama macia. Era hora de se deixar abraçar pelo seu homem que a rodopiava pelos ares enquanto os flashes do fotógrafo contratado eternizavam cada segundo de movimento e os carros que faziam o contorno das fontes-pudim buzinavam em celebração.
Eram duas moças-borboletas batendo suas asas na tarde de sábado. A vida é repleta de momentos-casulo. Uma menininha que virou mocinha. Uma mocinha que virou mulher. O que a vida lhes ensinou sobre a condição feminina era impossível de ser desvendado. Sabe-se apenas que elas oficializavam seu novo status junto a suas famílias, seus amigos e sua comunidade. Velhos hábitos ficaram para trás. Uma delas possivelmente já assinava um novo nome. Era a hora de novos rituais.
Houve um momento de encontro. Caminhando em direções opostas, a quinceañera e a noiva cruzaram-se. Prestaram atenção numa mulher que tomava nota daquele momento em seu Moleskine e num mendigo de jaqueta de couro e adereços punk que se deixava notar. Entreolharam-se, sorriram e parabenizaram-se em pouco menos de três segundos. Cada uma seguiu para seu reino, soberanas princesas texanas de uma babilônica cidade.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Aportando em Houston
Cheguei em Houston numa sexta-feira de um inverno frio e úmido. Dirigia um carro com uma gata em pânico que havia se cagado por inteira na gaiolinha no banco dianteiro, uma cachorrinha surpreendentemente comportada no banco traseiro, um porta-malas cheio de mudanças e um arrepio na boca do estômago inerente a quem está adentrando mais uma etapa de vida. Num intervalo de menos de um ano começava-se mais um capítulo de tudo novo novamente. Já deveria estar acostumada e tranquila, marinheira de longas estradas, mas há sempre um misto de animação, ansiedade, euforia e pânico nas beiradas do incerto. Na minha frente, meu marido pilotava o caminhão da mudança. Tudo self-service, mordomia zero. Nossa vida cabia numa carreta de caminhão de 6m x 2m.
Eu finalmente deixava Laredo, bem mais cedo que o plano original do casal de ficar por lá por pelo menos dois anos. Durante meses minha cabeça foi uma placa de trânsito apontando para Houston, aquela metrópole tão distante dos estereótipos texanos que havia me surpreendido nas duas únicas vezes em que a havia visitado. Mas agora, justo agora, obviamente agora que Laredo ficava para trás, era o momento das humanas contradições. Eu sentia a pontada doce-azeda da saudade. Saudades dos amigos, da mexicanidade, da vida bilíngue, do tempero de taco em cada esquina, da sua feiúra, do seu papel grandioso em minha vida. Laredo que foi meu tempo de vida limbo, das "energias de renovação", termo que tenho lido com frequência em e-mails de amigos. Só agora, à distância, é que me dou conta dos elementos contidos em seu nome. Nunca consegui sentir o LAR em LARedo, mas ela se fez inesquecível e marcante. Laredo que carrega três notas musicais em sua composição.
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Achei que fosse desmaiar ao me ver dirigindo em pleno engarrafamento colossal de sexta-feira na hora do rush do intrincado sistema de rodovias que cruzam a cidade. Ao passar em frente ao centro, com o carro preso no meio de uma highway de seis pistas, senti a cabeça ficar leve. Leve como quem vai desmaiar. Uma futurística downtown Houston se abria perante meus olhos: prédios gigantes, Robocops espelhados prontos para me devorarem, um céu com cores de dilúvio. Eu quase conseguia escutar o Lamento Sertanejo, de Dominguinhos, em versão hillbilly rock. Tive que encarnar meu alter-ego que tiro da manga em momentos de apavoramento gerenciáveis, como turbulências em avião ou grandes multidões. Já não estava mais acostumada àquela loucura metropolitana. A última vez que dirigi num trânsito louco foi no Rio de Janeiro há quase oito anos. Minha existência naquela cidade foi sempre marcada pelo transporte público. Em Laredo as distâncias eram curtas e o trânsito era "palpável". Em Houston eu temi jamais me acostumar.
Chegamos no apartamento escolhido no único final de semana que tivemos para procurar casa. Apesar de ter morado em apartamento nos últimos 12 anos, voltar a morar em casa foi facinho facinho. Mas a vida inicial em Houston implicaria em mudanças. Não se pode ter tudo. Então adeus privacidade, espaço, jardim e quintal. O prédio é simpático, mas parece um dormitório de universidade. Mas eu agora moro num loft de pé direito alto, chão de cimento batido, cozinha integrada ao resto da casa, janelão, parede da sala sem acabamento, canos e pipas de ventilação aparentes pelo teto. Um loft pequeno e charmoso, mas convenhamos, de mentirinha. Porque na verdade não é um loft loft, e sim um apartamento em estilo loft, habitado por médicos, estudantes, eu, meu marido e um exército de cachorros, todos sedentos por consumir a atmosfera loftiniana que nos faz sentir tão urbanos e modernos.
Sobre a bancada da cozinha havia uma caixa com tulipas coloridas que eu havia encomendado para o aniversário de W., que completava 39 anos naquele exato dia. Brindamos com vinho turco e kebabs num aconchegante restaurante de mesma nacionalidade encontrado por acaso a duas milhas de casa. Ao lado dele, um bistrôzinho francês. Do outro lado da rua, o estádio da Rice University. Eu já estava apaixonada por aquela Babilônia.
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Já passaram-se dois meses e neste intervalo tantas histórias. Ainda estou em estado de enamoramento com a cidade, mas prossigo sem entender sua alma. Houston continua sendo um mistério para mim. Há cidades que não se deixam descobrir com tanta facilidade. Outras, como o Rio de Janeiro ou mesmo Austin, aqui no Texas, são escancaradas. "Eu sou assim" e o "assim" é tão fácil de identificar. Houston é um caldeirão de culturas, idiomas, raças, etnias e temperos. Ainda não conheci nenhum Houstoniano e talvez por isto esta dificuldade em decifrar meus arredores. Tudo ainda é muito estrangeiro, literalmente. Houston exala uma certa frieza, mas há algo nela que me acolhe. É asfalto e é verde. Muita grama, árvores, flores, fontes e parques. É verdade também que ainda não parei para entrar a fundo em suas esquinas, nos seus recantos escondidos atrás das atrações turísticas. Não tenho sentido pressa. Mas gosto das descobertas feitas aos poucos: das esculturas escondidas no Hermann Park; do restaurante paquistanês para onde costumo fugir na hora do almoço e ser confundida com indiana ou paquistanesa; das 19 tartarugas tomando banho de sol no laguinho do campo de golfe do outro lado da rua onde moro; do taxista senegalês que já ficou nosso amigo; do café Bósnio simplérrimo e delicioso que lota ao meio-dia de sábado; do bar louge-chic do Hotel Sorella; da hospitalidade do meu primo e sua esposa que nos receberam tão bem desde sempre. Meu marido também descobriu uma prima que não via há mais de 20 anos. Bom ter família por perto. Bom ainda não conhecer tudo. Bom me sentir já tão à vontade dirigindo sozinha nas suas highways e avenidas de tráfego volumoso. Não há qualquer resquício de pânico.
Eu finalmente deixava Laredo, bem mais cedo que o plano original do casal de ficar por lá por pelo menos dois anos. Durante meses minha cabeça foi uma placa de trânsito apontando para Houston, aquela metrópole tão distante dos estereótipos texanos que havia me surpreendido nas duas únicas vezes em que a havia visitado. Mas agora, justo agora, obviamente agora que Laredo ficava para trás, era o momento das humanas contradições. Eu sentia a pontada doce-azeda da saudade. Saudades dos amigos, da mexicanidade, da vida bilíngue, do tempero de taco em cada esquina, da sua feiúra, do seu papel grandioso em minha vida. Laredo que foi meu tempo de vida limbo, das "energias de renovação", termo que tenho lido com frequência em e-mails de amigos. Só agora, à distância, é que me dou conta dos elementos contidos em seu nome. Nunca consegui sentir o LAR em LARedo, mas ela se fez inesquecível e marcante. Laredo que carrega três notas musicais em sua composição.
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Achei que fosse desmaiar ao me ver dirigindo em pleno engarrafamento colossal de sexta-feira na hora do rush do intrincado sistema de rodovias que cruzam a cidade. Ao passar em frente ao centro, com o carro preso no meio de uma highway de seis pistas, senti a cabeça ficar leve. Leve como quem vai desmaiar. Uma futurística downtown Houston se abria perante meus olhos: prédios gigantes, Robocops espelhados prontos para me devorarem, um céu com cores de dilúvio. Eu quase conseguia escutar o Lamento Sertanejo, de Dominguinhos, em versão hillbilly rock. Tive que encarnar meu alter-ego que tiro da manga em momentos de apavoramento gerenciáveis, como turbulências em avião ou grandes multidões. Já não estava mais acostumada àquela loucura metropolitana. A última vez que dirigi num trânsito louco foi no Rio de Janeiro há quase oito anos. Minha existência naquela cidade foi sempre marcada pelo transporte público. Em Laredo as distâncias eram curtas e o trânsito era "palpável". Em Houston eu temi jamais me acostumar.
Chegamos no apartamento escolhido no único final de semana que tivemos para procurar casa. Apesar de ter morado em apartamento nos últimos 12 anos, voltar a morar em casa foi facinho facinho. Mas a vida inicial em Houston implicaria em mudanças. Não se pode ter tudo. Então adeus privacidade, espaço, jardim e quintal. O prédio é simpático, mas parece um dormitório de universidade. Mas eu agora moro num loft de pé direito alto, chão de cimento batido, cozinha integrada ao resto da casa, janelão, parede da sala sem acabamento, canos e pipas de ventilação aparentes pelo teto. Um loft pequeno e charmoso, mas convenhamos, de mentirinha. Porque na verdade não é um loft loft, e sim um apartamento em estilo loft, habitado por médicos, estudantes, eu, meu marido e um exército de cachorros, todos sedentos por consumir a atmosfera loftiniana que nos faz sentir tão urbanos e modernos.
Sobre a bancada da cozinha havia uma caixa com tulipas coloridas que eu havia encomendado para o aniversário de W., que completava 39 anos naquele exato dia. Brindamos com vinho turco e kebabs num aconchegante restaurante de mesma nacionalidade encontrado por acaso a duas milhas de casa. Ao lado dele, um bistrôzinho francês. Do outro lado da rua, o estádio da Rice University. Eu já estava apaixonada por aquela Babilônia.
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Já passaram-se dois meses e neste intervalo tantas histórias. Ainda estou em estado de enamoramento com a cidade, mas prossigo sem entender sua alma. Houston continua sendo um mistério para mim. Há cidades que não se deixam descobrir com tanta facilidade. Outras, como o Rio de Janeiro ou mesmo Austin, aqui no Texas, são escancaradas. "Eu sou assim" e o "assim" é tão fácil de identificar. Houston é um caldeirão de culturas, idiomas, raças, etnias e temperos. Ainda não conheci nenhum Houstoniano e talvez por isto esta dificuldade em decifrar meus arredores. Tudo ainda é muito estrangeiro, literalmente. Houston exala uma certa frieza, mas há algo nela que me acolhe. É asfalto e é verde. Muita grama, árvores, flores, fontes e parques. É verdade também que ainda não parei para entrar a fundo em suas esquinas, nos seus recantos escondidos atrás das atrações turísticas. Não tenho sentido pressa. Mas gosto das descobertas feitas aos poucos: das esculturas escondidas no Hermann Park; do restaurante paquistanês para onde costumo fugir na hora do almoço e ser confundida com indiana ou paquistanesa; das 19 tartarugas tomando banho de sol no laguinho do campo de golfe do outro lado da rua onde moro; do taxista senegalês que já ficou nosso amigo; do café Bósnio simplérrimo e delicioso que lota ao meio-dia de sábado; do bar louge-chic do Hotel Sorella; da hospitalidade do meu primo e sua esposa que nos receberam tão bem desde sempre. Meu marido também descobriu uma prima que não via há mais de 20 anos. Bom ter família por perto. Bom ainda não conhecer tudo. Bom me sentir já tão à vontade dirigindo sozinha nas suas highways e avenidas de tráfego volumoso. Não há qualquer resquício de pânico.
domingo, 21 de março de 2010
Novas fronteiras


Raiar da primavera do meu apartamento em Houston
É primavera + 1. Do dia para a noite as flores voltam a resplandecer suas cores na frente do meu prédio. A grama verde reluz orvalhos. O sol invade sem medo a janela da minha sala no 7o andar. As cachorrinhas sangram e se encarcam. A gata se contorce e geme sobre os móveis. A natureza em cio. Um dia após o início da primavera e meus dedos e minha mente e meu espírito e minha fala começam novamente a florir. Foi um inverno de algumas hibernações e outros tantos desbravamentos. Em dois meses de silêncio nestas Fronteirices eletrônicas, habitei uma nova cidade, adentrei uma nova casa, retornei ao mundo corporativo, vi os desbalanços que grandes mudanças podem trazer a um casamento e os desafios hercúleos para deixar a harmonia predominar. Nada que um nascer do sol vermelho e incandescente do tamanho do Texas no primeiro dia de primavera, acompanhado de uma chuva e vento gélido que em minutos levaram embora o hálito quente daquela fronteira entre escuridão e luz, não servissem de metáfora absoluta para esta vida yin yang. É exatamente por isto que, neste capítulo Houston da minha vida, decidi manter o título Fronteirices deste diário virtual. Fronteiras são e vão muito além que um mero marco geográfico. Vivemos entre o deixar de ser o que éramos ontem para ser o que somos hoje carregando sempre o que já fomos. Há sempre um desafio, um obstáculo, um rio ou um oceano para cruzar, nadar e nos afogar de vez em quando. A possibilidade de resgate é 50/50.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Saudade
Chega sem aviso. Não há alarme ressonando alto, não há placa no meio da estrada, não tem e-mail na caixa de entrada, nem carta selada no correio indicando sua vinda. Uma hora você está em paz, coloca aqueles sambas antigos na voz de Clara Nunes, "é água no mar/ é maré cheia ooooh", "morena de angola que leva o chocalho amarrado na canela", aí, de repente, peim. Está empossada. Possuída. Incubada. Vai percorrendo o sangue, apertando a carne, fazendo arder os olhos até enturvar a vista e o mundo ficar líquido. Sai uma, saem duas, saem três lágrimas grossas mas ainda dá pra cantar um "ninguém ouviu/um soluçar de dor/no canto do Brasil". Ferrou. A voz afina. A garganta é quase um túnel sem saída. A entoada é um soluçar de saudades num canto do Texas. Um choro em falsete. O coração cavado com colher (é possível sentir o músculo atrofiar). A mente momentaneamente (momentânea mente) conectada com o passado, com o bom do passado, aquelas rodas de samba, aquele Clube dos Democráticos, aquela Lapa carioca de tantas sensações. Não há tristeza, não há melancolia. Apenas saudade de algo que não volta mais e juro pelo São José enterrado de cabeça pra baixo no jardim na minha casa que eu não trocaria um dia desta vida nova por uma noite de samba com o meu mais fino suor derramando liras de Cartola. Foi-se o tempo, agora são novas trilhas sonoras, é preciso sempre viver novas canções, mas deixa eu aumentar o volume deste samba porque meu pranto é alto e eu quero este choro só para mim esta noite, para mim, para Clara e para Chico. E confesso que também para...bem, para Amelinha, meu segredo que só Cecília sabia e ela jurou que não contaria para ninguém nem sob tortura, mas Amelinha cantando Gemedeira é bonito demais da conta, "ai, ai, ai, é bom que dói, ui, ui, ui, chega a sangrar". E assim eu me entrego, valha-me Deus, tenho que ensinar meu gringo a dançar forró, a dançar for all. A dançar for me.
PS: Lágrimas são banhos de descarrego. Meu corpo é agora mais leve que o ar.
PS: Lágrimas são banhos de descarrego. Meu corpo é agora mais leve que o ar.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Notas sobre o México
Desde quando visitei o país pela primeira vez em 1998, em Ciudad Juarez, fronteira com El Paso no lado texano-americano, o México exerceu um fascínio anormal sobre mim. Desde então estive duas vezes na Cidade do México e mais recentemente duas vezes em Nuevo Laredo, na fronteira mais ao sul. Caí de quatro por sua riqueza cultural, sua culinária original e curiosa, sua ancestralidade azteca, seu caos sem ordem, suas cores abertas, sua religiosidade latina, sua música mestiça, seu povo ao mesmo tempo encantador, submisso, explorado e bravo. O México é um país que sangra e não falo da violência que lhe toma almas diariamente na guerra do narcotráfico ou na pobreza das suas sarjetas. Sangra no sentido de levar alimento para meus órgãos, meus músculos, meus olhos, meu tato, meu paladar e meu cérebro, saciando minha fome vampiresca por cultura estrangeira.
Hoje, a menos de suas semanas de me distanciar fisicamente desta fronteira geográfica, edito aqui o relato que fiz para amigos e familiares quando visitei Nuevo Laredo pela primeira em 13 de maio de 2009:
Na quarta-feira cruzamos a fronteira para Nuevo Laredo. Por pouco não fui, pois de uns três anos pra cá brasileiros precisam tirar visto para entrar no México, devido à quantidade de brasileiros ilegais que entram nos Estados Unidos via o país latino. W. tem amigos no consulado mexicano, então pela manhã paramos por lá para checar os pormenores da minha documentação. O cara do consulado me perguntou o que eu queria fazer no México. Expliquei que queria comprar tequila e ele achou aquilo engraçadíssimo. Então esclareceu que eu poderia cruzar a fronteira sem problemas, só não poderia sair dos limites da cidade. Aproximadamente a partir do marco 26km ao sul de Nuevo Laredo há um checkpoint de imigração e o visto a partir dali torna-se obrigatório. Assim, no final da tarde, após ter parado num bar bem furreco em Laredo para tomar um trago gelado de Don Julio (uma excelente tequila para os não familiarizados), cruzamos o Rio Grande através da Ponte Internacional número 1. São duas as pontes que fazem a travessia Laredo-Nuevo Laredo. Preferimos ir a pé, para evitar o trânsito denso da ponte no nosso retorno. Um frio na minha barriga por voltar a pisar em solo sagrado.
Descobri que a melhor coisa de Laredo é Nuevo Laredo. O México sempre teve este poder alucinante sobre a minha pessoa. Me sinto viva, numa sensação de embriaguez que é muito maior do que a tequila que sempre me acompanha nas minhas idas pra lá. As pessoas daqui morrem de medo de cruzar a ponte, pois houve um aumento muito grande de violência na fronteira por conta dos cartéis do narcotráfico. Coisas tipo tacar fogo nos inimigos, sequestros, cortar cabecas e outras gentilezas. Devem ter aprendido com os hermanos cariocas. Logo que cruzamos a ponte, havia um tanque do exército mexicano cercado por soldados. Depois de oito anos de Rio de Janeiro, já tenho um PhD em violência urbana, então eu estava tranquila.
Quem nos acompanhou aquele tarde foi Tom, um grande amigo de W., um senhor de sessenta e tantos anos, cara de Papai Noel, lobista político, ex-executivo de empresas texanas de gás e petróleo que ja morou na Bolívia e no Peru, democrata liberal que trabalhou com W. na campanha presidencial de Obama, figuraça que nos anos 60 foi host por mais de uma vez de ninguém menos que Jorge Luis Borges quando ele visitou a Universidade do Texas em Austin. Descobri que o Texas inspirou Borges, levando-o inclusive a escrever um belo poema:
Texas
Aquí también. Aquí como en el otro
Confín del continente, el infinito
Campo en que muere solitario el grito;
Aquí también el indio, el lazo, el potro.
Aquí también el pájaro secreto
Que sobre los fragores de la historia
Canta para una tarde y su memoria;
Aquí también el místico alfabeto
De los astros, que hoy dictan a mi cálamo
Nombres que el incesante laberinto
De los días no arrastra: San Jacinto
Y esas otras Termópilas, el Álamo.
Aquí también esa desconocida
Y anciana y breve cosa que es la vida.
A primeira vista de Nuevo Laredo traz ruas apertadas, barraquinhas de comida por todos os lados, cabritos assados enfiados num pau na vitrine de um restaurante, lojas com letreiros pintados à mão com caligrafia bem amadora. Fiquei sabendo depois que homens falando baixinho ofereceram algumas ilegalidades a Tom e W.: Viagra, cocaína, marijuana. No, gracias. Circulamos rapidamente por algumas lojas do mercado de dois andares a poucas quadras da ponte à procura de vestidos mexicanos. Muitas cores, bordados, máscaras de luta livre, piñatas, crianças vendendo doces, pedintes...nossa América Latina em seu normal estado mas com cheiro forte de pimenta jalapeño. Paramos em vários bares bem hole in the wall (tradução literal: buraco na parede, ou em bom português, boteco fuleiro). Imediatamente cantores vinham atrás de nós, cobrando nada menos que cinco dólares por canção. Que iTunes que nada: a indústria musical deveria seguir o exemplo do México para fazer dinheiro! Mas eu quis nos dar aquele pequeno luxo e paguei um senhor de cara afilada para tocar "Las Golondrinas" no seu violino. Era lindo e ao mesmo tempo triste. Tentei me concentrar apenas na arte deste senhor, mas a verdade é que a sua cara de pobreza me desconcertava.
Um dos bares que paramos foi o Santa Helena, que não tem placa com nome do lado de fora por proibição da prefeitura e para desgosto do gerente do bar. Está cravado ali no centro de Nuevo Laredo há mais de 100 anos. Não chega a ser um botequim de quinta. Super escuro por dentro, com paredes repletas de garrafas de bebidas e retratos de Zapata, de uma loira gostosona estilo Baywatch, uma Maja e Los Tres Reyes, "los mejores cantantes de México", segundo o gerente do bar. Nas mesas, bigodudos mal encarados que não esboçavam sorriso algum. Pouquíssimas mulheres, apenas eu e mais duas. Os olhares voltados para nós, os únicos gringos, degustando as cervejas locais Tecate, Indio, Negra Modelo. Não sou cervejeira, mas como são deliciosas as cervejas mexicanas.
Nos fundos do bar, ao lado do banheiro mínimo, um altar com várias oferendas de pão, maçã e tequila para la Santa Muerte. Descobri depois que ela -- sim, a própria Morte com cara de caveira e cajado --é a padroeira dos narcotraficantes. Tom não me recomendou tirar fotos ali, mas W. explicou que eu era brasileira e imediatamente um rapaz novinho me acompanhou para tirar fotos da oferenda. O gerente do bar, quando soube que eu era brasileira, acionou a radiola de ficha que começou a tocar Roberto Carlos em espanhol "Amada amante/amada amante". E a vida pulsando, exatamente como deve ser.
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Este mês de janeiro de 2010, logo após receber minha permissão para sair do país, fiz minha segunda incursão a Nuevo Laredo. Era um sábado frio de sair fumacinha da boca, diferentemente daquela primavera de derreter miolos de oito meses atrás. Cruzar a ponte era excitante, mas eu sentia o desconforto do medo. É uma coceira na boca do estômago. Eu já havia comido do fruto proibido, assistido ao noticiário local e nacional que intimida qualquer pessoa a querer passar para o outro lado. Nuevo Laredo é retratada como um sanguinolento palco de guerra onde sua vida pode ir embora na primeira esquina. Desta vez éramos apenas eu e W. e estávamos de carro. Eu consigo me mesclar bem com a população local, mas W., com sua pela muito branca, seu cabelo loiro e seus olhos verdes é o gringo no seu mais comum estereótipo. Eu amava estar novamente em solo mexicano, mas uma eu medrosa queria que as horas passassem rapidamente para que eu já estivesse de volta na "segurança" da minha casa texana. Eu queria ser um pouco mais ignorante naquela ocasião.
Voltamos ao mercado. Nada de calefação nas lojas. Minhas mãos e pés congelavam. Compramos alguns vestidos e objetos de decoração: uns lustres em forma de estrela e lindos bichinhos de madeira de Oaxaca para o apartamento novo. Paguei 30 centavos de dólar para fazer xixi. Um senhor fazia montinhos de papel higiênico e recolhia o dinheiro. O banheiro era limpinho. Na América Latina é possível fazer dinheiro com o gerenciamento de banheiros. Minha mente sob o efeito do medo imaginava que um tiroteio começaria naquele mercado a qualquer minuto, eu e W. nos escondendo atrás dos vestidos, pânico generalizado. Mas não havia vestígios de nada daquilo. Apenas uma calma reinante, vendedores cordiais, nem mesmo um pedinte sequer.
Nas ruas as barraquinhas de mariscos anunciavam sopa de polvo. Já fui mais corajosa: dispensei. W. me levou para almoçar no El Rincón de Veracruz, um restaurante pequenininho e super simples mais para dentro da cidade. Como lembrava Juazeiro da Bahia aquela Nuevo Laredo de ruas apertadas. A comida do Rincón era deliciosa. Pedi umas tortillas de milho macias cobertas com creme de feijão, linguiça defumada picadinha e queijo fresco. E claro, um creme de pimenta verde por cima para esquentar o corpo naquele dia frio. Sou devota do gosto confortante das tortillas de milho. W. estava inseguro em deixar o carro longe da nossa vista. Eu também. Mas dentro do restaurante só chegavam famílias e crianças. De perturbadas ali, apenas as nossas mentes americanizadas.
Aguardamos mais de uma hora na fila da ponte para entrar no Texas. Ao meu lado, uma gigantesca bandeira mexicana flemulava com sua águia segurando uma serpente pelo bico. Espero ter esta destreza para enfrentar minhas paranóias e pensamentos peçonhentos. Não sei quando retornarei àquele país, mas tomara que não tarde. Há sempre um fôlego renovado que emerge daquela terra que tempera meu juízo.
Hoje, a menos de suas semanas de me distanciar fisicamente desta fronteira geográfica, edito aqui o relato que fiz para amigos e familiares quando visitei Nuevo Laredo pela primeira em 13 de maio de 2009:
Na quarta-feira cruzamos a fronteira para Nuevo Laredo. Por pouco não fui, pois de uns três anos pra cá brasileiros precisam tirar visto para entrar no México, devido à quantidade de brasileiros ilegais que entram nos Estados Unidos via o país latino. W. tem amigos no consulado mexicano, então pela manhã paramos por lá para checar os pormenores da minha documentação. O cara do consulado me perguntou o que eu queria fazer no México. Expliquei que queria comprar tequila e ele achou aquilo engraçadíssimo. Então esclareceu que eu poderia cruzar a fronteira sem problemas, só não poderia sair dos limites da cidade. Aproximadamente a partir do marco 26km ao sul de Nuevo Laredo há um checkpoint de imigração e o visto a partir dali torna-se obrigatório. Assim, no final da tarde, após ter parado num bar bem furreco em Laredo para tomar um trago gelado de Don Julio (uma excelente tequila para os não familiarizados), cruzamos o Rio Grande através da Ponte Internacional número 1. São duas as pontes que fazem a travessia Laredo-Nuevo Laredo. Preferimos ir a pé, para evitar o trânsito denso da ponte no nosso retorno. Um frio na minha barriga por voltar a pisar em solo sagrado. Descobri que a melhor coisa de Laredo é Nuevo Laredo. O México sempre teve este poder alucinante sobre a minha pessoa. Me sinto viva, numa sensação de embriaguez que é muito maior do que a tequila que sempre me acompanha nas minhas idas pra lá. As pessoas daqui morrem de medo de cruzar a ponte, pois houve um aumento muito grande de violência na fronteira por conta dos cartéis do narcotráfico. Coisas tipo tacar fogo nos inimigos, sequestros, cortar cabecas e outras gentilezas. Devem ter aprendido com os hermanos cariocas. Logo que cruzamos a ponte, havia um tanque do exército mexicano cercado por soldados. Depois de oito anos de Rio de Janeiro, já tenho um PhD em violência urbana, então eu estava tranquila.
Quem nos acompanhou aquele tarde foi Tom, um grande amigo de W., um senhor de sessenta e tantos anos, cara de Papai Noel, lobista político, ex-executivo de empresas texanas de gás e petróleo que ja morou na Bolívia e no Peru, democrata liberal que trabalhou com W. na campanha presidencial de Obama, figuraça que nos anos 60 foi host por mais de uma vez de ninguém menos que Jorge Luis Borges quando ele visitou a Universidade do Texas em Austin. Descobri que o Texas inspirou Borges, levando-o inclusive a escrever um belo poema:
Texas
Aquí también. Aquí como en el otro
Confín del continente, el infinito
Campo en que muere solitario el grito;
Aquí también el indio, el lazo, el potro.
Aquí también el pájaro secreto
Que sobre los fragores de la historia
Canta para una tarde y su memoria;
Aquí también el místico alfabeto
De los astros, que hoy dictan a mi cálamo
Nombres que el incesante laberinto
De los días no arrastra: San Jacinto
Y esas otras Termópilas, el Álamo.
Aquí también esa desconocida
Y anciana y breve cosa que es la vida.
A primeira vista de Nuevo Laredo traz ruas apertadas, barraquinhas de comida por todos os lados, cabritos assados enfiados num pau na vitrine de um restaurante, lojas com letreiros pintados à mão com caligrafia bem amadora. Fiquei sabendo depois que homens falando baixinho ofereceram algumas ilegalidades a Tom e W.: Viagra, cocaína, marijuana. No, gracias. Circulamos rapidamente por algumas lojas do mercado de dois andares a poucas quadras da ponte à procura de vestidos mexicanos. Muitas cores, bordados, máscaras de luta livre, piñatas, crianças vendendo doces, pedintes...nossa América Latina em seu normal estado mas com cheiro forte de pimenta jalapeño. Paramos em vários bares bem hole in the wall (tradução literal: buraco na parede, ou em bom português, boteco fuleiro). Imediatamente cantores vinham atrás de nós, cobrando nada menos que cinco dólares por canção. Que iTunes que nada: a indústria musical deveria seguir o exemplo do México para fazer dinheiro! Mas eu quis nos dar aquele pequeno luxo e paguei um senhor de cara afilada para tocar "Las Golondrinas" no seu violino. Era lindo e ao mesmo tempo triste. Tentei me concentrar apenas na arte deste senhor, mas a verdade é que a sua cara de pobreza me desconcertava.
Um dos bares que paramos foi o Santa Helena, que não tem placa com nome do lado de fora por proibição da prefeitura e para desgosto do gerente do bar. Está cravado ali no centro de Nuevo Laredo há mais de 100 anos. Não chega a ser um botequim de quinta. Super escuro por dentro, com paredes repletas de garrafas de bebidas e retratos de Zapata, de uma loira gostosona estilo Baywatch, uma Maja e Los Tres Reyes, "los mejores cantantes de México", segundo o gerente do bar. Nas mesas, bigodudos mal encarados que não esboçavam sorriso algum. Pouquíssimas mulheres, apenas eu e mais duas. Os olhares voltados para nós, os únicos gringos, degustando as cervejas locais Tecate, Indio, Negra Modelo. Não sou cervejeira, mas como são deliciosas as cervejas mexicanas.
Nos fundos do bar, ao lado do banheiro mínimo, um altar com várias oferendas de pão, maçã e tequila para la Santa Muerte. Descobri depois que ela -- sim, a própria Morte com cara de caveira e cajado --é a padroeira dos narcotraficantes. Tom não me recomendou tirar fotos ali, mas W. explicou que eu era brasileira e imediatamente um rapaz novinho me acompanhou para tirar fotos da oferenda. O gerente do bar, quando soube que eu era brasileira, acionou a radiola de ficha que começou a tocar Roberto Carlos em espanhol "Amada amante/amada amante". E a vida pulsando, exatamente como deve ser.xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Este mês de janeiro de 2010, logo após receber minha permissão para sair do país, fiz minha segunda incursão a Nuevo Laredo. Era um sábado frio de sair fumacinha da boca, diferentemente daquela primavera de derreter miolos de oito meses atrás. Cruzar a ponte era excitante, mas eu sentia o desconforto do medo. É uma coceira na boca do estômago. Eu já havia comido do fruto proibido, assistido ao noticiário local e nacional que intimida qualquer pessoa a querer passar para o outro lado. Nuevo Laredo é retratada como um sanguinolento palco de guerra onde sua vida pode ir embora na primeira esquina. Desta vez éramos apenas eu e W. e estávamos de carro. Eu consigo me mesclar bem com a população local, mas W., com sua pela muito branca, seu cabelo loiro e seus olhos verdes é o gringo no seu mais comum estereótipo. Eu amava estar novamente em solo mexicano, mas uma eu medrosa queria que as horas passassem rapidamente para que eu já estivesse de volta na "segurança" da minha casa texana. Eu queria ser um pouco mais ignorante naquela ocasião.
Voltamos ao mercado. Nada de calefação nas lojas. Minhas mãos e pés congelavam. Compramos alguns vestidos e objetos de decoração: uns lustres em forma de estrela e lindos bichinhos de madeira de Oaxaca para o apartamento novo. Paguei 30 centavos de dólar para fazer xixi. Um senhor fazia montinhos de papel higiênico e recolhia o dinheiro. O banheiro era limpinho. Na América Latina é possível fazer dinheiro com o gerenciamento de banheiros. Minha mente sob o efeito do medo imaginava que um tiroteio começaria naquele mercado a qualquer minuto, eu e W. nos escondendo atrás dos vestidos, pânico generalizado. Mas não havia vestígios de nada daquilo. Apenas uma calma reinante, vendedores cordiais, nem mesmo um pedinte sequer.
Nas ruas as barraquinhas de mariscos anunciavam sopa de polvo. Já fui mais corajosa: dispensei. W. me levou para almoçar no El Rincón de Veracruz, um restaurante pequenininho e super simples mais para dentro da cidade. Como lembrava Juazeiro da Bahia aquela Nuevo Laredo de ruas apertadas. A comida do Rincón era deliciosa. Pedi umas tortillas de milho macias cobertas com creme de feijão, linguiça defumada picadinha e queijo fresco. E claro, um creme de pimenta verde por cima para esquentar o corpo naquele dia frio. Sou devota do gosto confortante das tortillas de milho. W. estava inseguro em deixar o carro longe da nossa vista. Eu também. Mas dentro do restaurante só chegavam famílias e crianças. De perturbadas ali, apenas as nossas mentes americanizadas.
Aguardamos mais de uma hora na fila da ponte para entrar no Texas. Ao meu lado, uma gigantesca bandeira mexicana flemulava com sua águia segurando uma serpente pelo bico. Espero ter esta destreza para enfrentar minhas paranóias e pensamentos peçonhentos. Não sei quando retornarei àquele país, mas tomara que não tarde. Há sempre um fôlego renovado que emerge daquela terra que tempera meu juízo.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Garage sale

Neste instante minha casa é um mercado de pulgas em final de feira. A escuridão ainda esconde a alvorada mas chegam dezenas de compradores para levar aquilo que já foi útil ou apreciado um dia. Tenho virado expert em bazares, ou garage sales como são conhecidos por estas bandas. Algum sangue de comerciante turco deve correr nas minhas veias. Alguma cigana negociadora fugindo da inquisição em séculos distantes. O passado do meu marido indo embora a 70% de desconto. Seus quadros comprados na lua-de-mel com a primeira esposa. A faca que cortou o bolo do seu primeiro casamento hoje valeu 25 centavos de dólar. Mesa e cadeiras que servirão outras refeições, panelas que cozinharão outros temperos. A sala de jantar agora emana eco. A casa esvaziada. Um regozijo misturado com culpa dentro do meu coração e da minha carteira. Somos tão Madalenas nós mulheres. Mini-infartos em meu peito mais por ver seu passado indo parar em mãos alheias do que por ciúmes necessariamente. Me dou conta que ainda que meu marido tenha voluntariamente separado objetos para venda, a mesma não teria ocorrido não fosse por mim. Não fosse por nós. Não fosse pelos novos planos. Há sete meses também vendi meu passado em nome da nossa causa. Mas não adianta: frito ovos mexidos com linguiça defumada e lhe sirvo com voz doce sobre torradas como parte da minha sentença de réu culpada.
Quando nos casamos e me mudei para sua casa me perguntava se um dia conseguiria me livrar dos objetos que eu não gostava. Quase todos. Minha mãe, do alto da sabedoria das suas quatro décadas de casamento, me ensinava a ter cuidado. "Estas coisas são delicadas, minha filha." Porém me perturbavam os móveis antiquados com pés de leão, os arranjos de plantas artificiais, os quadros onde concordávamos apenas com o colorido das cores. Com os meses aprendi a ignorar os objetos que me doíam a vista. Percebi que a estratégia era não confrontar o gosto do meu marido. Aos poucos fui mostrando outros estilos, outros projetos. Sempre que havia uma chance eu fazia questão de entrar numa loja de móveis, mostrar outros conceitos de arte nas galerias que visitamos. Percebi que concordávamos em quase tudo e não em quase nada. Cabia apenas a mim conduzir a situação e trazer outros olhares. A chave era delicadeza. Cabia a mim saber ser mais esposa. A velha cigana negociadora abrindo fronteiras.
Há três grupos de compradores nas garage sales. Aqueles que têm condições de comprar coisas novas mas estão à procura de uma boa oferta, os que compram para revender e os que compram objetos de segunda-mão por total necessidade. Nesta cidade o segundo e terceiro grupo são maioria. Há profissionais de garage sale que acordam às 4h da manhã atrás de objetos que podem depois ser revendidos no México por três vezes o preço da compra. E há aqueles em busca de migalhas que lhes garantam um mínimo de dignidade, como a menina de uns 12 anos e olhar desesperado que me perguntava se eu tinha algum resto de perfume para lhe vender. Por que não lembrei de lhe dar o resto daquela fragrância que raramente uso? Eu poderia ter lhe dado, menininha. De graça. Jamais lhe venderia um resto de glamour. Qualquer coisa para diminuir a inquietude das suas pupilas. Não entendo porque minha compaixão só apareceu quando você partiu.
Aprendi a exercitar o desapego a objetos neste país, mais precisamente no ano 2000. Meu apartamento incendiou e perdi quase tudo. Entre as cinzas, com leves chamuscadas mas praticamente intactos, estavam as fotos e diários dos quatro anos anteriores que eu havia vivido aqui. Percebi que no fim das contas as memórias são tudo o que levamos da vida. E eu não queria perder as memórias exatamente da forma em que foram vivenciadas. O tempo nos modifica, mas retém as palavras. Palavras são imortais quando registradas e até mais reais que as fotografias. Por vezes não me reconheço em antigos cadernos redigidos a mão. Fotos, por outro lado, quase sempre carregam a superficialidade da nossa vaidade. Sorrimos mesmo quando a dor é dilacerante. Mas as fotografias não deixam de ser um mergulho no passado, uma lembrança de quem fomos, uma saudade de quem pretendíamos ser. Uma bola de cristal ao avesso.
Muito já foi falado sobre a alma dos objetos. Objetos que carregam a energia dos seus donos. Quando fiz um bazar para deixar o Brasil antes de me casar, algumas pessoas me confidenciaram que nunca compravam objetos de segunda-mão, mas que abririam exceção para os meus porque eu emanava energia positiva. Verdade. A felicidade em vendê-los era maior do que a dor de perdê-los. Algo muito especial estava em jogo na minha vida. Caso fosse por necessidade grave, como problemas financeiros ou de saúde, um pouco da minha dor iria junto na transação.
O dia raiou e o pouco que sobrou será doado. Um balde de silicone, um contador de moedas, uma guirlanda outonal, duas camisas surradas, um par de muletas. Já fechamos as portas, já contamos o apurado. Há o suficiente para pagar o caminhão da mudança. Os objetos já circulam por aí com seus novos donos, outros aguardam adoção. Há o projeto de um apartamento na cidade nova com decoração a quatro mãos. Há o prelúdio de uma casa que se parecerá mais com nós do que apenas com ele. Em breve chegará a nossa vez de varar a alvorada atrás de boas barganhas. Há um certo charme nesta busca quando integramos a categoria dos não-necessitados. Pago um bom preço por objetos com almas leves e passados passado a limpo.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Tábula rasa

O ano novo chegou há uma semana, mas aquela sensação de poder recomeçar ainda persiste. Acredito que a palavra que mais expressa o significado de um novo ano é esperança. Esperamos colocar em prática os planos, esperamos não mais procrastinar, esperamos nos dar primeiras e segundas chances. Ainda que nada mude de fato -- apenas uma folhinha nova no calendário -- o que seria de nós sem a contagem do tempo, sem o tiquetaquear do relógio, sem a noção exata de que há 365 dias, às vezes 366? E se um ano tivesse 1000 dias, ou se o dia fosse a contagem de três sóis e três luas, postergaríamos menos os nossos planos?
Fiz os meus para 2010, não sem antes examinar os que havia listado para 2009. Sim, listados em bullet points no meu Moleskine e consultados ao longo dos meses do que ano que se foi. Pode parecer psicótico, mas ajuda a manter a mente em perspectiva. Mas atenção: faz-se extremamente necessário saber adaptar-se à realidade e às mudanças inesperadas que a vida nos traz. Na minha lista havia o plano de ganhar pelo menos R$ 1000 a mais de salário mensal e batalhar uma promoção para ser transferida para a Europa. Ainda arrasada com o final de um relacionamento super problemático, não havia nada sobre encontrar um cara legal. Até porque é o tipo da coisa que não se encontra em prateleira de supermercado, mas pelo menos dá para tentar fugir dos padrões passados que sempre acabam em encrenca. Já no primeiro semestre acabei reencontrando um grande amigo que eu não via há uma década, me apaixonando, aceitando me casar com ele e me mudando para os Estados Unidos onde fiquei sem emprego durante todo o segundo semestre aguardando a autorização para trabalhar. E só fiz gastar dinheiro (investir numa mudança de vida talvez seja a colocação mais exata para aliviar qualquer sinal de culpa). Também havia indicado que queria ficar 100% fluente em francês. Acabei vindo parar na fronteira com o México, onde desenferrujei o espanhol e acabei falando este idioma quase tanto quanto o inglês. Consegui fazer massagens semanalmente e ler um livro a cada dois meses somente enquanto morava no Brasil, não fui a sessões de Reiki, não comecei o roteiro de um argumento de filme que eu havia criado em 2008, nem assisti a todos os filmes clássicos que sempre quis assistir na vida mas sempre tive preguiça. Por outro lado, os planos listados no caderninho que se tornaram reais incluem ter voltado a fazer esporte no mínimo três vezes por semana, ter tomado classes de violão e me recuperado totalmente da cirurgia da coluna realizada em janeiro de 2008. Desde o último outubro, após beber por três dias consecutivos um potente chá de sucupira com sementes contrabandeadas receitado por meu pai, me casar, deixar passar o embaralhamento de sensações quando se faz uma mudança radical de vida, entender porque eu ficava sempre tão ansiosa no trabalho e ter tempo para relaxar, não senti mais dor nenhuma. Até o meu pé direito, que ainda apresentava uma quase imperceptível paralisia, está curado. Em paralelo à construção da lista do ano que acabou de entrar, também fiz a lista dos agradecimentos ao ano que passou. É calmante, cicatrizante e confortante poder compreender as bênçãos que nos chegam e agradecer às forças além desta vida que nos protegem e encorajam.
Para 2010, diminuí bastante os objetivos, visando manter o foco e minimizar minha ansiedade. Reescrevi alguns planos não concretizados em 2009 e adicionei novos, como fazer voluntariado. Acredito que tenha listado metas alcancáveis, mas novamente aguardo as surpresas do caminho. É bem provável que "o inesperado faça uma surpresa" como diz a canção de velhos festivais. Mas sou daquelas que leu Paulo Coelho aos 16 anos e, por mais que hoje eu não tenha a menor paciência para abraçar sua obra, retive a mensagem New Age (New Piegas?) de que "quando você realmente quer algo, o universo conspira ao seu favor".
O reveillon 2009/2010 foi o mais calmo dos últimos tempos. Este ano não teve banho de ervas de descarrego do pescoço pra baixo nem banho de ervas para abrir os caminhos. E olha que fui atrás: rodei Laredo por umas duas horas procurando uma hierbaria, ou casa que vende ervas e artigos religiosos, e quando finalmente a encontrei não tive coragem de entrar. Era um barraco caindo aos pedaços numa área gueto da cidade. Liguei para o número indicado na placa e uma senhora falando em espanhol com voz de bruxa de cara verde e pinta na ponta do nariz atendeu. Amarelei. Então me dei conta que quando em Roma, faça como os romanos, ou adapte-se com o que tiver ao seu alcance. Não houve festão porque deu preguiça de sair de casa, mas houve a incorporação estilizada de alguns rituais: da sacada do apartamento dos meus primos em Houston, que estavam de férias no Brasil, eu e meu marido brindamos o ano usando roupões que encontramos no banheiro de hóspedes e quebraram o galho quanto ao quesito roupa branca. Eu até havia comprado uma calcinha verde para chamar dinheiro, mas a esqueci em Laredo. Usei uma calcinha multicolor não-virgem. Bateu um medinho, confesso; é difícil se libertar de algumas tradições. À meia-noite apenas nosso pé direito tocava o chão. O champanhe congelou e eu jamais faria idéia que espumante virava gelo. Medinho voltou. Ficamos no vinho tinto de rótulo Mènage à Trois. Só rindo mesmo. Em vez do banquete, um prato de queijos, hummus e salame -- afinal, o porco fuça pra frente e não cisca pra trás, e este ano o slogan é "em frente e avante". Vi as últimas luzes do ano no hemisfério norte. Uma brisa fria soprava na cidade. Ao longe, fogos de artifício em alguma casa animada.
Amanheceu 2010 e o ano já começou cheio de recomeços: no dia 02 achamos um apartamento para alugar em Houston, para onde nos mudamos no final deste mês. Estilo loft, charmoso, numa área gostosa da cidade. No dia 04 uma carta da Imigração indicava que já estou autorizada a entrar e sair do país (México, melhor preparar uma piscina de margaritas para me receber!). No natal eu já havia recebido um presentão da Imigração: um e-mail indicando que minha permissão para trabalhar foi autorizada e que eu deveria recebê-la até o final do mês. Ontem chegou a dita cuja, recepcionada por cinco minutos de puros berros de alegria e empolgação. Engraçado que logo em seguida a trilha sonora foi "lerê lerê, lererê lererê". A vida de dona de casa em tempo integral em breve acabará. Os currículos estão aos poucos sendo enviados. Uma outra etapa se inicia, seguida de um inerente frio na barriga. A vontade é de mudar completamente de carreira (e por que não recomeçar MESMO?), mas estou optando pelo caminho mais fácil, que é trabalhar na minha área. Os salários são descentes e neste momento dinheiro é meu plano de curto prazo: dinheiro para decorar a casa nova, comprar roupas, supérfluos necessários e viajar. Deixar o marido focar nos empréstimos dele adquiridos antes do nosso casamento para em até um ano podermos respirar tranquilamente.
Os planos estão na trilha certa, a vida está se ajeitando. Vez por outra bate uma insegurança, um receio de um inesperado de natureza negativa chegar e acabar com a festa. Mas xô, xô. Faço banhos mentais de descarrego. Tique-taque, tique-taque e já é Dia de Reis. As casas começam a retirar a decoração natalina. Qualquer vestígio de 2009 já ficou para trás. Em frente e avante.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal
Então é véspera de Natal e os ventos mudaram a partir da meia-noite trazendo um friozinho de estalar a espinha. O meio-oeste é um tapete branco mas não há sinal de neve por aqui. Há um sol dourado, um céu muito azul e um vento que derruba cadeiras no quintal. Na fronteira os mexicanos preparam seus tamales, deliciosas iguarias à base de milho, semelhante a uma pequena pamonha salgada, para celebrar a Noche Buena. Dona Amélia, minha diarista, me trouxe uma dúzia feitos por ela na mais autêntica tradição, com pimenta boa e brava. Os mais fincados no lado texano do Rio Grande celebram a data no dia 25. O trânsito durante a semana na divisa dos dois países esteve intenso, com a leva de mexicanos cruzando a ponte para festejar a data ao lado da família. Se existe recessão, a impressão que se tem é que ela acabou por aqui. Prateleiras estão vazias nas lojas e desde o final de novembro as filas estão enormes -- talvez porque os estabelecimentos tenham deixado de contratar trabalhadores temporários. Papai Noel fala espanhol e vende queijos com geléias no supermercado onde eu deixo para comprar tudo de última hora. Um presunto defumado para a noite de 24, um peru para o almoço do 25. O chutney de manga já está pronto desde a noite passada. A casa cheira a gengibre e especiarias. Gelatina colorida de sobremesa. Eu, a segunda geração, já incorporo as tradições da primeira. E crio novas, como um escondidinho de linguiça. Roberto Carlos não toca na TV, mas não sinto a menor falta. Os hinos natalinos ganham nova roupagem em forma de jazz, rock e R&B no Starbucks local, onde bebo meu Caramel Brulé Latte no mais puro estilo new yuppie. Me reúno com os amigos recentes para organizar uma grande festa para 80 pessoas na noite do 25 numa charmosa galeria de arte no centro da cidade. Escolhemos os panos para enfeitar o local. Seleciono as cores: verde, roxo e prata, uma intensidade de contrastes. Tento sentir o mesmo frio da barriga de anos atrás quando a data de hoje chegava, mas meu termômetro está em temperatura natural. Este ano não há árvore. A mudança iminente para a nova cidade pediu prudência nos gastos com decoração. Apenas uma meia vermelha e outra verde na janela da sala, aguardando um Papai Noel que que terá que entrar pelo buraco da coifa da cozinha na falta de uma chaminé. Será um natal de duas pessoas, um primeiro natal de casados, ao lado de uma gatinha e duas cachorrinhas. Um bebê e seria quase um presépio. Passo a semana tentando me lembrar porque é que celebramos o natal. O sentido religioso há muito tempo se foi, hoje é tudo comércio, mas também família. Ainda assim à noite vou ler em voz alta um trecho da Bíblia, voltar às origens, celebrar um hippie 2000 anos à frente do seu tempo que veio à Terra com uma mensagem de paz, só não ficou tão pop como Buda ou o Dalai Lama. Um pouco de incenso faria bem a este mundo. Assim como algumas doses cavalares de boa vontade. Mas celebremos. Feliz Noche Buena, Merry Christmas, Feliz Natal a todos.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Ritos fúnebres nos EUA e Brasil (e algumas notas sobre a vida, a morte e o que fica de tudo isto)
É apropriado falar de vida e morte num sentido figurativo quando o mundo está prestes a celebrar o nascimento de um dos seus maiores ícones religiosos e o fim de mais um ano é iminente. Contudo, atentemos ao sentido mais literal de vida e morte, da chegada e da partida deste mundo, do pó que viemos ao pó que voltamos, e aos acontecimentos entre estas duas etapas. Há uma semana estive no velório da mãe da chefe do meu marido. Eu não a conhecia, portanto foi mais fácil me distanciar da intensa carga emocional de assistir à perda de alguém querido. Nem por isto a sensação de fragilidade perante a vida, ou ainda, perante a morte, se fez menor. Observando o cerimonial fúnebre americano, que tem diferenças marcantes em relação ao brasileiro, me vi novamente refletindo sobre o maior de todos os mistérios, pois tudo o que sabemos a respeito da morte está carregado de superstições, crenças, suposições e dúvidas. A morte que, para alguns grupos aqui da fronteira, também é Santa Morte e venerada. Não existe ciência que prove nada, apenas que um dia tudo se vai. Cabe a cada um acreditar no que se sucederá, de acordo com suas convicções ou fé, e de que forma viverá até o momento do suspiro derradeiro.
Quando morei neste país pela primeira vez, aos 17 anos como intercambista, o meu "avô" americano faleceu (era o pai do meu "pai" americano). À primeira vista, tudo relacionado à maneira como a morte dele foi conduzida me chocou. Para mim havia um excesso de profissionalismo, frieza e distanciamento incompatíveis com um momento tão delicado, marcantemente diferente de como eu havia presenciado a morte no Brasil. O contraste com o primeiro velório que atendi na vida era gritante, na ocasião do falecimento do meu avô paterno em Juazeiro, Bahia, aos meus nove anos de idade, em meados dos anos 1980. Como a maioria dos cerimoniais fúnebres brasileiros, a velação do corpo ocorreu no mesmo dia do falecimento. Meu avô morreu de madrugada e à tarde já havia dezenas de pessoas ao redor do seu caixão. Naquele tempo e cidade, ainda havia a tradição de se usar preto em sinal de luto. As mulheres, sobretudo as mais idosas, também cobriam o rosto com um lenço de renda preto. Lembro-me da minha avó vestindo uma roupa preta. A maioria das pessoas trajava suas roupas do dia-a-dia, bastante informais. Mulheres rezavam o terço e entoavam cantilenas religiosas em vozes arrastadas. Alguns membros da família choravam desesperadamente sobre o caixão. Minha tia beijou o rosto do meu avô, e até então eu nunca poderia imaginar que era possível beijar um corpo sem vida. Do lado de fora da casa, um carro de som circulava pelas ruas da cidade anunciando seu falecimento. Lembro-me, sobretudo, de coisas extremamente gráficas e demasiadamente orgânicas que me chocaram intensamente, como alguém dizendo que o corpo deveria prosseguir ao cemitério antes que começasse a cheirar mal. Havia secreções descendo do corpo do meu avô: de hora em hora alguém tinha que trocar o algodão que lhe tapava as narinas e seus olhos se abriam. No cemitério, sua cova foi cavada na frente de todos os que ali estavam presentes. Um coveiro, uma pá e uma terra vermelha de onde saíram uma caveira, um fêmur e uma tíbia. Descobrimos ali que duas outras pessoas já haviam sido enterradas no mesmo local. Vi a terra ser jogada novamente por cima da cova. Era o meu primeiro contato com a morte e ela me pareceu extremamente crua e impiedosa. Nas duas semanas consecutivas eu tive pesadelos frequentes.
Fast foward no tempo e, infelizmente, em 2009 eu sofri a perda de um amigo querido, Marcelo, que se foi literalmente num piscar de olhos. Tinha minha idade, nenhuma enfermidade aparente e vivia uma vida não muito diferente da minha. Um baque enorme que até hoje não consegui processar. Uma partida sem explicação racional, pois não foi causada por acidente, crime, doença ou idade avançada. Num suspiro seu coração sucumbiu. É possível aceitar, mas é muito, muito difícil entender que aos 33 anos de idade era a hora de alguém tão cheio de planos, tão cheio de amigos e tão amado ir embora. Não há um dia em que eu não pense nele, na sua mulher ou nos seus amigos mais próximos que para sempre sentirão sua falta. Seu velório foi um dia após o seu falecimento, na capela de um cemitério da zona sul carioca. A quantidade de elementos gráficos que me chocaram na infância não foi tão notória, mas ainda assim estavam lá: um atendente do IML falando coisas muito explícitas sobre a liberação do corpo, um cemitério claustrofóbico, uma sala de velório encardida. Contudo, o choque maior desta vez foi mesmo o emocional.
Quando o meu "avô" americano se foi, o meu espanto foi causado pelo excesso de zelo. Tudo ficou aos cuidados de uma funerária, uma casa bonita com carpete, perfumada e limpa, onde um atendente sorridente nos conduzia à nossa capela. Aquele sorriso me causou grande desconforto, afinal para mim o momento de dor e perda não condizia em nada com tal expressão. Para mim, ele era um homem de negócios fazendo dinheiro, nada mais. O velório durou três dias, um deles sendo na igreja que grandpa frequentava. Grandpa estava extremamente branco, maquiado com base e pó. Os homens, incluindo os meninos, usavam terno e as mulheres trajavam seus vestidos mais formais em cores sóbrias. No cemitério, havia uma tenda branca ornamentada com flores, e à sua sombra cadeiras para a família. A cova já estava pronta e não havia sinais de terra. Pelo contrário, havia um tapete de grama sintética ao redor do buraco. As pessoas partiram antes de verem o túmulo ser fechado. O caixão era baixado à terra através de um mecanismo automatizado. Tudo muito higienizado, desinfetado, maquiado, polido. Durante aqueles três dias, carregamentos de comidas e bebidas chegaram à casa de grandma , enviado por parentes e amigos. Eram pilhas de pães, salgadinhos, donuts, doces, pastas, sucos, refrigerantes. Também havia sacos de pratos e talheres descartáveis. Não conseguia entender aquela fixação por comida. Após o enterro, houve um grande almoço na casa dela, numa recepção semelhante às que vemos nos filmes americanos e que até então sempre haviam me causado espanto pela dose visível de descontração.
No velório que atendi neste dezembro em Laredo, nada muito diferente do que presenciei há 16 anos: homens de terno e mulheres com roupas formais; uma funeral home, ou casa especializada em velórios, muito limpa, organizada e decorada como uma casa de família; um sorridente atendente de terno conduzindo todos à capela. Mas havia novos recursos. Nos alto-falantes, música clássica com ênfase nos noturnos de Chopin. Numa grande TV de plasma, logo acima do caixão, um vídeo mostrava diversas fotos da senhora que partiu. Uma vida de mais de 80 anos resumida em momentos alegres, como aniversários de família, o abraço dos netos, um dia na praia em preto e branco, uma bela moça de 18 anos num estupendo vestido de baile.
Hoje compreendo que estas tradições americanas que me impressionaram tanto quanto a visceralidade das tradições brasileiras na verdade servem de pára-choque para um momento tão pesaroso. Ainda que um velório de três dias possa parecer demasiadamente longo, possibilita à família e aos amigos ganharem um pouco mais de tempo para processarem a partida da pessoa querida. Mesmo racionalmente sabendo que a pessoa de fato já não está mais ali, são algumas horas a mais ao lado dela. O envio de comida para a casa da família mostra não apenas consideração, mas praticidade mesmo: ninguém tem cabeça para pensar em cozinhar, ou mesmo pedir comida, durante aqueles primeiros momentos de perda. E como bem sabemos praticidade é uma característica forte do americano. Planejamento de longo prazo também. Falar sobre os planos para a morte, por mais chocante que pareça, é encarado com bastante naturalidade. Se bem que não há prazo com a morte. Na cidadezinha de Iowa onde morei na década de 1990, as minhas host families já tinham tudo esquematizado através do seguro funeral para o caso da morte prematura de algum dos pais ou mães. Umas senhoras que estavam no enterro diziam que já tinham inclusive escolhido seu próprio caixão. Eu mal havia começado a namorar o meu marido e ele já perguntava onde seríamos enterrados, uma vez que sou brasileira e ele é americano. Ele quer que sejamos enterrados lado a lado.
Recentemente aqui na fronteira tomei conhecimento da Santa Morte, uma entidade venerada no México e que já adentrou as populações imigrantes nos Estados Unidos. Ainda estou devendo um post exclusivo sobre o tema, pois é fascinante. Mas em resumo ela é venerada, entre outros aspectos, por representar não o fim, mas o começo de uma nova vida. Para haver vida, é necessário haver a morte, e de fato não há verdade maior. Sua longa manta representa a nossa carne e as riquezas materiais, que não duram e podem ser retiradas de nós. Numa das mãos carrega uma foice, símbolo da colheita, representando esperança e prosperidade. Na outra traz um globo, simbolizando a imensidão do seu domínio e o túmulo para onde todos retornaremos. Uma coruja sempre lhe acompanha, representando sabedoria e lhe servindo de luz na escuridão. Muitas vezes ela também carrega uma ampulheta, que indica o tempo da nossa vida na Terra, assim como paciência. Só consigo encontrar bom senso nestes símbolos.
Sabemos que um dia nos vamos, que as pessoas que amamos também partirão --apenas fisicamente, já que elas sempre existirão enquanto forem lembradas. Exige-se força hercúlea arcar com a perda de alguém que se foi antes de nós. Mas entender ou aceitar a verdade de que "se morre a partir do momento em que se nasce", como alguém já proferiu, e que "a morte é a única certeza que de fato temos" pode nos ensinar a vivermos de forma mais sábia e plena. Não sou de ficar pensando na minha morte, mas claro que já cogitei ter as cinzas jogadas no Rio São Francisco a partir da ponte que liga Petrolina-PE a Juazeiro-BA. Honestamente, quando a minha vez chegar, que seja onde der menos trabalho para quem ficar responsável pela tarefa. Sei também que provavelmente ninguém vai acreditar ou fazer isto acontecer, mas eu preferia, inclusive, que o formato fosse de festa. Uns sambas de Chico Buarque, umas caipirinhas e umas comidas gostosas. E um batom bem bonito nos meus lábios, por favor. Sei que soa mórbido, mas entre tantas lembranças acabamos também recordando do rosto da pessoa querida no seu leito final. Pelo menos lembrem-se de mim com rímel, gloss e um pouco de sombra dourada. Por alguma razão, desde meus tempos imemoriais, sempre tive a sensação de que a vida é mesmo muito frágil e pode acabar a qualquer minuto. Por isto uma vontade louca de tudo viver, de a todos conhecer, de viajar, de não postergar tanto os planos, de sorrir mais e, mais recentemente, sobretudo após a partida do meu amigo, de deixar claro o quanto amo e admiro as pessoas que amo e admiro. Ainda não me sinto pronta para partir -- pelo contrário, tenho planos para décadas e mais décadas por vir -- mas se a minha hora chegar, posso dizer que vivi uma vida plena e feliz. Cada fase intensamente vivida com todas as suas conquistas, dúvidas, dores, alegrias, encontros e desencontros. Algumas fotos de carnavais purpurinados e outras de noites em claro chorando as pitangas. O saldo, porém, é bem positivo.
Quando morei neste país pela primeira vez, aos 17 anos como intercambista, o meu "avô" americano faleceu (era o pai do meu "pai" americano). À primeira vista, tudo relacionado à maneira como a morte dele foi conduzida me chocou. Para mim havia um excesso de profissionalismo, frieza e distanciamento incompatíveis com um momento tão delicado, marcantemente diferente de como eu havia presenciado a morte no Brasil. O contraste com o primeiro velório que atendi na vida era gritante, na ocasião do falecimento do meu avô paterno em Juazeiro, Bahia, aos meus nove anos de idade, em meados dos anos 1980. Como a maioria dos cerimoniais fúnebres brasileiros, a velação do corpo ocorreu no mesmo dia do falecimento. Meu avô morreu de madrugada e à tarde já havia dezenas de pessoas ao redor do seu caixão. Naquele tempo e cidade, ainda havia a tradição de se usar preto em sinal de luto. As mulheres, sobretudo as mais idosas, também cobriam o rosto com um lenço de renda preto. Lembro-me da minha avó vestindo uma roupa preta. A maioria das pessoas trajava suas roupas do dia-a-dia, bastante informais. Mulheres rezavam o terço e entoavam cantilenas religiosas em vozes arrastadas. Alguns membros da família choravam desesperadamente sobre o caixão. Minha tia beijou o rosto do meu avô, e até então eu nunca poderia imaginar que era possível beijar um corpo sem vida. Do lado de fora da casa, um carro de som circulava pelas ruas da cidade anunciando seu falecimento. Lembro-me, sobretudo, de coisas extremamente gráficas e demasiadamente orgânicas que me chocaram intensamente, como alguém dizendo que o corpo deveria prosseguir ao cemitério antes que começasse a cheirar mal. Havia secreções descendo do corpo do meu avô: de hora em hora alguém tinha que trocar o algodão que lhe tapava as narinas e seus olhos se abriam. No cemitério, sua cova foi cavada na frente de todos os que ali estavam presentes. Um coveiro, uma pá e uma terra vermelha de onde saíram uma caveira, um fêmur e uma tíbia. Descobrimos ali que duas outras pessoas já haviam sido enterradas no mesmo local. Vi a terra ser jogada novamente por cima da cova. Era o meu primeiro contato com a morte e ela me pareceu extremamente crua e impiedosa. Nas duas semanas consecutivas eu tive pesadelos frequentes.
Fast foward no tempo e, infelizmente, em 2009 eu sofri a perda de um amigo querido, Marcelo, que se foi literalmente num piscar de olhos. Tinha minha idade, nenhuma enfermidade aparente e vivia uma vida não muito diferente da minha. Um baque enorme que até hoje não consegui processar. Uma partida sem explicação racional, pois não foi causada por acidente, crime, doença ou idade avançada. Num suspiro seu coração sucumbiu. É possível aceitar, mas é muito, muito difícil entender que aos 33 anos de idade era a hora de alguém tão cheio de planos, tão cheio de amigos e tão amado ir embora. Não há um dia em que eu não pense nele, na sua mulher ou nos seus amigos mais próximos que para sempre sentirão sua falta. Seu velório foi um dia após o seu falecimento, na capela de um cemitério da zona sul carioca. A quantidade de elementos gráficos que me chocaram na infância não foi tão notória, mas ainda assim estavam lá: um atendente do IML falando coisas muito explícitas sobre a liberação do corpo, um cemitério claustrofóbico, uma sala de velório encardida. Contudo, o choque maior desta vez foi mesmo o emocional.
Quando o meu "avô" americano se foi, o meu espanto foi causado pelo excesso de zelo. Tudo ficou aos cuidados de uma funerária, uma casa bonita com carpete, perfumada e limpa, onde um atendente sorridente nos conduzia à nossa capela. Aquele sorriso me causou grande desconforto, afinal para mim o momento de dor e perda não condizia em nada com tal expressão. Para mim, ele era um homem de negócios fazendo dinheiro, nada mais. O velório durou três dias, um deles sendo na igreja que grandpa frequentava. Grandpa estava extremamente branco, maquiado com base e pó. Os homens, incluindo os meninos, usavam terno e as mulheres trajavam seus vestidos mais formais em cores sóbrias. No cemitério, havia uma tenda branca ornamentada com flores, e à sua sombra cadeiras para a família. A cova já estava pronta e não havia sinais de terra. Pelo contrário, havia um tapete de grama sintética ao redor do buraco. As pessoas partiram antes de verem o túmulo ser fechado. O caixão era baixado à terra através de um mecanismo automatizado. Tudo muito higienizado, desinfetado, maquiado, polido. Durante aqueles três dias, carregamentos de comidas e bebidas chegaram à casa de grandma , enviado por parentes e amigos. Eram pilhas de pães, salgadinhos, donuts, doces, pastas, sucos, refrigerantes. Também havia sacos de pratos e talheres descartáveis. Não conseguia entender aquela fixação por comida. Após o enterro, houve um grande almoço na casa dela, numa recepção semelhante às que vemos nos filmes americanos e que até então sempre haviam me causado espanto pela dose visível de descontração.
No velório que atendi neste dezembro em Laredo, nada muito diferente do que presenciei há 16 anos: homens de terno e mulheres com roupas formais; uma funeral home, ou casa especializada em velórios, muito limpa, organizada e decorada como uma casa de família; um sorridente atendente de terno conduzindo todos à capela. Mas havia novos recursos. Nos alto-falantes, música clássica com ênfase nos noturnos de Chopin. Numa grande TV de plasma, logo acima do caixão, um vídeo mostrava diversas fotos da senhora que partiu. Uma vida de mais de 80 anos resumida em momentos alegres, como aniversários de família, o abraço dos netos, um dia na praia em preto e branco, uma bela moça de 18 anos num estupendo vestido de baile.
Hoje compreendo que estas tradições americanas que me impressionaram tanto quanto a visceralidade das tradições brasileiras na verdade servem de pára-choque para um momento tão pesaroso. Ainda que um velório de três dias possa parecer demasiadamente longo, possibilita à família e aos amigos ganharem um pouco mais de tempo para processarem a partida da pessoa querida. Mesmo racionalmente sabendo que a pessoa de fato já não está mais ali, são algumas horas a mais ao lado dela. O envio de comida para a casa da família mostra não apenas consideração, mas praticidade mesmo: ninguém tem cabeça para pensar em cozinhar, ou mesmo pedir comida, durante aqueles primeiros momentos de perda. E como bem sabemos praticidade é uma característica forte do americano. Planejamento de longo prazo também. Falar sobre os planos para a morte, por mais chocante que pareça, é encarado com bastante naturalidade. Se bem que não há prazo com a morte. Na cidadezinha de Iowa onde morei na década de 1990, as minhas host families já tinham tudo esquematizado através do seguro funeral para o caso da morte prematura de algum dos pais ou mães. Umas senhoras que estavam no enterro diziam que já tinham inclusive escolhido seu próprio caixão. Eu mal havia começado a namorar o meu marido e ele já perguntava onde seríamos enterrados, uma vez que sou brasileira e ele é americano. Ele quer que sejamos enterrados lado a lado.
Recentemente aqui na fronteira tomei conhecimento da Santa Morte, uma entidade venerada no México e que já adentrou as populações imigrantes nos Estados Unidos. Ainda estou devendo um post exclusivo sobre o tema, pois é fascinante. Mas em resumo ela é venerada, entre outros aspectos, por representar não o fim, mas o começo de uma nova vida. Para haver vida, é necessário haver a morte, e de fato não há verdade maior. Sua longa manta representa a nossa carne e as riquezas materiais, que não duram e podem ser retiradas de nós. Numa das mãos carrega uma foice, símbolo da colheita, representando esperança e prosperidade. Na outra traz um globo, simbolizando a imensidão do seu domínio e o túmulo para onde todos retornaremos. Uma coruja sempre lhe acompanha, representando sabedoria e lhe servindo de luz na escuridão. Muitas vezes ela também carrega uma ampulheta, que indica o tempo da nossa vida na Terra, assim como paciência. Só consigo encontrar bom senso nestes símbolos.
Sabemos que um dia nos vamos, que as pessoas que amamos também partirão --apenas fisicamente, já que elas sempre existirão enquanto forem lembradas. Exige-se força hercúlea arcar com a perda de alguém que se foi antes de nós. Mas entender ou aceitar a verdade de que "se morre a partir do momento em que se nasce", como alguém já proferiu, e que "a morte é a única certeza que de fato temos" pode nos ensinar a vivermos de forma mais sábia e plena. Não sou de ficar pensando na minha morte, mas claro que já cogitei ter as cinzas jogadas no Rio São Francisco a partir da ponte que liga Petrolina-PE a Juazeiro-BA. Honestamente, quando a minha vez chegar, que seja onde der menos trabalho para quem ficar responsável pela tarefa. Sei também que provavelmente ninguém vai acreditar ou fazer isto acontecer, mas eu preferia, inclusive, que o formato fosse de festa. Uns sambas de Chico Buarque, umas caipirinhas e umas comidas gostosas. E um batom bem bonito nos meus lábios, por favor. Sei que soa mórbido, mas entre tantas lembranças acabamos também recordando do rosto da pessoa querida no seu leito final. Pelo menos lembrem-se de mim com rímel, gloss e um pouco de sombra dourada. Por alguma razão, desde meus tempos imemoriais, sempre tive a sensação de que a vida é mesmo muito frágil e pode acabar a qualquer minuto. Por isto uma vontade louca de tudo viver, de a todos conhecer, de viajar, de não postergar tanto os planos, de sorrir mais e, mais recentemente, sobretudo após a partida do meu amigo, de deixar claro o quanto amo e admiro as pessoas que amo e admiro. Ainda não me sinto pronta para partir -- pelo contrário, tenho planos para décadas e mais décadas por vir -- mas se a minha hora chegar, posso dizer que vivi uma vida plena e feliz. Cada fase intensamente vivida com todas as suas conquistas, dúvidas, dores, alegrias, encontros e desencontros. Algumas fotos de carnavais purpurinados e outras de noites em claro chorando as pitangas. O saldo, porém, é bem positivo.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária: parte 2
Neste ato solitário que é escrever, mesmo um blog que considero tão inofensivo quanto o meu, com pensamentos de alguém que não é especialista em nada e generalista em quase tudo, me dou conta do quanto é saudável poder trocar idéias a respeito dos assuntos que aqui publico. Na solidão da escrita rápida de crônicas corriqueiras é muito comum faltar um checklist aprofundado dos temas em destaque. Ao reler o que escrevi dias após a publicação, tenho vontade de reescrever algumas mal traçadas linhas. A auto-crítica faz-se constantemente necessária. Recentemente uma amiga deixou um comentário no post em que eu fazia algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária. Ao reler o texto, me dei conta da quantidade de outros pensamentos relevantes ao tema que deixei de expressar. Este post, portanto, é um addendum aos pensamentos aqui escritos em 02 de dezembro.
Ficou um hiato no meu texto sobre a opção de ser mãe e viver uma vida dedicada ao lar. Algo que considero totalmente nobre se, tendo a mulher a opção de trabalhar dentro ou fora de casa, for feito de maneira consciente, por livre e espontânea vontade. Nada como as liberdades. Cuidar da educação de uma pessoa, fazê-la crescer saudável e plena é um dos atos mais nobres que conheço. E dá um trabalho da porra! Tenho várias amigas que fizeram esta opção. Um ponto importante: todas americanas ou brasileiras vivendo nos Estados Unidos, onde as facilidades econômicas propiciam esta escolha. O custo de colocar o filho numa creche ou contratar uma babá é tão alto que muitos casais optam para que um dos cônjugues fique em casa na função integral de mãe ou pai. Obviamente que em 99,9% dos casos quem assume o papel é a mulher. Com a recessão, porém, algumas amigas ou voltaram ao batente ou estão trabalhando meio-período.
Acredito veemente, porém, que ainda que se escolha ficar em casa, é importante para a mulher dedicar um pouco a mais do seu tempo a outras atividades que não sejam apenas a criação dos filhos ou a organização do lar, pois a vida é bem mais plural do que isto. Faça um curso de fotografia, aprenda a desenhar, vá a academia, comece um clube do livro. Produza, insira-se num meio criativo, esteja sempre a expandir seus horizontes, pois trará imensos benefícios para si mesma e consequentemente para o resto da família. O que acontecerá no dia em que os filhos forem embora? Fazendo outras atividades focadas no seu bem-estar, exercita-se, entre tantos itens de uma vasta lista, a independência, o desapego e o estar em contato consigo versus anular-se por completo dentro de uma relação ou no papel de mãe, que é, em grande parte, o papel de servir.
Entre os meus planos de vida está o de ser mãe, ainda sem data definida. Mas aos 33 anos já não se dá mais para esperar tanto assim, portanto algumas reflexões começam a surgir com mais frequência, entre elas a de se optarei por ficar em casa durante uma temporada cuidando dos filhos ou se tentarei me dividir entre o trabalhar fora de casa e o trabalhar dentro de casa. Como bem colocou minha amiga Genoveva, "cá entre nós, à mulher moderna restam estas duas opções!" Por mais que os homens que minhas amigas elegeram para se casar sejam, na sua maioria, bem mais flexíveis que a geração dos seus pais, estou por conhecer um casal realmente moderno no qual o trabalho doméstico seja dividido meio a meio entre homem e mulher. Talvez exista lá no reino da Dinamarca, onde tudo é perfeito, mas no Brasil ou aqui nos Estados Unidos eu ainda não vi. Em geral o homem simplesmente se abstrai de tomar a iniciativa para certas funções. Meu marido é um bom exemplo: é bastante compreensivo no que toca as responsabilidades do lar, ajudando sempre que peço, porém se eu não pedir, assume-se que eu, por não estar trabalhando fora, tenho a responsabilidade de fazê-lo. Ou então faz pela metade: leva o lixo para fora, mas não coloca um novo saco plástico na lixeira. Como se a lixeira fosse robótica e automaticamente acionasse o refil. Eu, buscando sempre a modernidade, já devo estar na trigésima-quarta repetição de "amor, por favor, não se esqueça de colocar um novo saco plástico." Sabe aquela história de entrar por um ouvido e sair pelo outro? E apois. Mas existe também o caso da mulher tomar para ela a maior parte das responsabilidades. Um dia uma amiga, exausta física e emocionalmente, me confidenciou que o marido nunca havia trocado a fralda dos filhos. Eu perguntei se ela já havia deixado que ele o fizesse. Ela se deu conta que ele tentou uma vez, mas por fazê-lo tão mal ela tomou para si a totalidade da função. A verdade é que nós, mulheres, com nosso perfeccionismo e alto grau de exigência, podemos ser tão controladoras a ponto de dificultarmos nossa própria vida sem nos darmos conta.
Trabalhar no lar dá um trabalho danado e é uma ocupação que nunca acaba -- sempre há uma louça para lavar, uma roupa para passar, uma lâmpada para trocar, um banheiro para limpar. Não há remuneração e muito menos reconhecimento, além de ser um trabalho repetitivo e criativamente limitado. Ainda que seja possível ter uma empregada, caberá quase sempre à mulher a função de organizar a casa: efetuar o pagamento da diarista, fazer a lista do supermercado, decidir qual será a ceia de natal, lembrar o marido do aniversário do pai dele, mudar as cortinas da sala, chamar a empresa que limpa carpetes, organizar o batizado da filha, pregar os botões do casaco do filho, marcar consultas médicas para família. Novamente, pelas razões que mencionei acima: abstração do cônjugue ou pelo fato da mulher tomar como sendo dela estas responsabilidades. Alguém me diga se há outras razões. Tendo-se, pois, opções de escolha entre trabalhar dentro ou fora-dentro de casa, acredito que eu opte pela segunda. Lembro muito bem das minhas colegas de trabalho no Rio de Janeiro que enchiam os olhos de lágrimas ao falar que já era a terceira noite consecutiva que não conseguiam ver o filho porque, ao chegarem em casa, ele já estava dormindo. Espero não ter que passar por esta constante sensação de frustração e culpa, mas pelo que pude observar é inerente ao ser mulher-mãe-profissional. Mas no fim das contas, dá para balancear as multi-funções e conviver com as nóias sem apelar para Prozac ou meia garrafa de vinho por dia. Espero, quem sabe, conseguir um trabalho com horário flexível ou home-office. Ser mãe e cuidar do lar é um trabalho nobre, mas o trabalho fora de casa também e honrável e enobrece. Acredito que quando tanto o marido quanto a esposa ganham seu próprio dinheiro, a relação do casal se torna mais equilibrada. Porque convenhamos, por mais maravilhoso que seja o parceiro, há uma relação de poder advinda de quem está trazendo o pão pra dentro de casa. Primeiro, porque ganha-se mais força na barganha da delegação das atividades domésticas. Segundo porque ninguém merece ter que ouvir o marido dizer que está sem poder comprar camisas novas porque, em vez disto, o dinheiro foi para a depilação com cera quente da esposa. Lógico que, neste caso, a mulher tem o total direito de chantagear o marido dizendo que passará a adotar um penteado vintage no seu pólo sul.
Ficou um hiato no meu texto sobre a opção de ser mãe e viver uma vida dedicada ao lar. Algo que considero totalmente nobre se, tendo a mulher a opção de trabalhar dentro ou fora de casa, for feito de maneira consciente, por livre e espontânea vontade. Nada como as liberdades. Cuidar da educação de uma pessoa, fazê-la crescer saudável e plena é um dos atos mais nobres que conheço. E dá um trabalho da porra! Tenho várias amigas que fizeram esta opção. Um ponto importante: todas americanas ou brasileiras vivendo nos Estados Unidos, onde as facilidades econômicas propiciam esta escolha. O custo de colocar o filho numa creche ou contratar uma babá é tão alto que muitos casais optam para que um dos cônjugues fique em casa na função integral de mãe ou pai. Obviamente que em 99,9% dos casos quem assume o papel é a mulher. Com a recessão, porém, algumas amigas ou voltaram ao batente ou estão trabalhando meio-período.
Acredito veemente, porém, que ainda que se escolha ficar em casa, é importante para a mulher dedicar um pouco a mais do seu tempo a outras atividades que não sejam apenas a criação dos filhos ou a organização do lar, pois a vida é bem mais plural do que isto. Faça um curso de fotografia, aprenda a desenhar, vá a academia, comece um clube do livro. Produza, insira-se num meio criativo, esteja sempre a expandir seus horizontes, pois trará imensos benefícios para si mesma e consequentemente para o resto da família. O que acontecerá no dia em que os filhos forem embora? Fazendo outras atividades focadas no seu bem-estar, exercita-se, entre tantos itens de uma vasta lista, a independência, o desapego e o estar em contato consigo versus anular-se por completo dentro de uma relação ou no papel de mãe, que é, em grande parte, o papel de servir.
Entre os meus planos de vida está o de ser mãe, ainda sem data definida. Mas aos 33 anos já não se dá mais para esperar tanto assim, portanto algumas reflexões começam a surgir com mais frequência, entre elas a de se optarei por ficar em casa durante uma temporada cuidando dos filhos ou se tentarei me dividir entre o trabalhar fora de casa e o trabalhar dentro de casa. Como bem colocou minha amiga Genoveva, "cá entre nós, à mulher moderna restam estas duas opções!" Por mais que os homens que minhas amigas elegeram para se casar sejam, na sua maioria, bem mais flexíveis que a geração dos seus pais, estou por conhecer um casal realmente moderno no qual o trabalho doméstico seja dividido meio a meio entre homem e mulher. Talvez exista lá no reino da Dinamarca, onde tudo é perfeito, mas no Brasil ou aqui nos Estados Unidos eu ainda não vi. Em geral o homem simplesmente se abstrai de tomar a iniciativa para certas funções. Meu marido é um bom exemplo: é bastante compreensivo no que toca as responsabilidades do lar, ajudando sempre que peço, porém se eu não pedir, assume-se que eu, por não estar trabalhando fora, tenho a responsabilidade de fazê-lo. Ou então faz pela metade: leva o lixo para fora, mas não coloca um novo saco plástico na lixeira. Como se a lixeira fosse robótica e automaticamente acionasse o refil. Eu, buscando sempre a modernidade, já devo estar na trigésima-quarta repetição de "amor, por favor, não se esqueça de colocar um novo saco plástico." Sabe aquela história de entrar por um ouvido e sair pelo outro? E apois. Mas existe também o caso da mulher tomar para ela a maior parte das responsabilidades. Um dia uma amiga, exausta física e emocionalmente, me confidenciou que o marido nunca havia trocado a fralda dos filhos. Eu perguntei se ela já havia deixado que ele o fizesse. Ela se deu conta que ele tentou uma vez, mas por fazê-lo tão mal ela tomou para si a totalidade da função. A verdade é que nós, mulheres, com nosso perfeccionismo e alto grau de exigência, podemos ser tão controladoras a ponto de dificultarmos nossa própria vida sem nos darmos conta.
Trabalhar no lar dá um trabalho danado e é uma ocupação que nunca acaba -- sempre há uma louça para lavar, uma roupa para passar, uma lâmpada para trocar, um banheiro para limpar. Não há remuneração e muito menos reconhecimento, além de ser um trabalho repetitivo e criativamente limitado. Ainda que seja possível ter uma empregada, caberá quase sempre à mulher a função de organizar a casa: efetuar o pagamento da diarista, fazer a lista do supermercado, decidir qual será a ceia de natal, lembrar o marido do aniversário do pai dele, mudar as cortinas da sala, chamar a empresa que limpa carpetes, organizar o batizado da filha, pregar os botões do casaco do filho, marcar consultas médicas para família. Novamente, pelas razões que mencionei acima: abstração do cônjugue ou pelo fato da mulher tomar como sendo dela estas responsabilidades. Alguém me diga se há outras razões. Tendo-se, pois, opções de escolha entre trabalhar dentro ou fora-dentro de casa, acredito que eu opte pela segunda. Lembro muito bem das minhas colegas de trabalho no Rio de Janeiro que enchiam os olhos de lágrimas ao falar que já era a terceira noite consecutiva que não conseguiam ver o filho porque, ao chegarem em casa, ele já estava dormindo. Espero não ter que passar por esta constante sensação de frustração e culpa, mas pelo que pude observar é inerente ao ser mulher-mãe-profissional. Mas no fim das contas, dá para balancear as multi-funções e conviver com as nóias sem apelar para Prozac ou meia garrafa de vinho por dia. Espero, quem sabe, conseguir um trabalho com horário flexível ou home-office. Ser mãe e cuidar do lar é um trabalho nobre, mas o trabalho fora de casa também e honrável e enobrece. Acredito que quando tanto o marido quanto a esposa ganham seu próprio dinheiro, a relação do casal se torna mais equilibrada. Porque convenhamos, por mais maravilhoso que seja o parceiro, há uma relação de poder advinda de quem está trazendo o pão pra dentro de casa. Primeiro, porque ganha-se mais força na barganha da delegação das atividades domésticas. Segundo porque ninguém merece ter que ouvir o marido dizer que está sem poder comprar camisas novas porque, em vez disto, o dinheiro foi para a depilação com cera quente da esposa. Lógico que, neste caso, a mulher tem o total direito de chantagear o marido dizendo que passará a adotar um penteado vintage no seu pólo sul.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Estereótipos e caricaturas de um certo Brazil

Sábado à tarde, irritada com o fato de o Presidente Barack Obama ter recebido na última quinta-feira o Nobel da Paz -- considerando que apenas uma semana antes ele havia anunciado o envio de mais 30.000 tropas para o Afeganistão, numa campanha em que até mesmo alguns de seus generais prevêem o que se tornará uma guerra ainda mais caótica que a do Iraque -- eu zapeava canais de televisão até encontrar algo totalmente leve, divertido e à prova de irritação. Parei no canal Bravo, onde mais um episódio de America's Next Top Model se desenrolava. Este reality show, no qual meninas esqueléticas tentam ser a próxima Gisele Bündchen, é uma daquelas frivolidades que rende boas gargalhadas sem exigir fosfato algum do cérebro. Como toda mulher, carrego a mulherzinha interior que sempre teve um desejo oculto de ser modelete. Às vezes nem tão oculto assim. Tanto que --- e aqui revelo aspectos do meu negro passado -- aos 11 anos ganhei o concurso de Rainha de Milho do colégio e aos 12 anos conquistei o título de Miss Jardim Paulo Afonso, o nome do meu bairro. Parei por aí. Alguém me disse que é a beleza interior que conta, mas depois de crescer e ficar um pouco mais cínica acho que deve ter sido alguém bem feio. Mas voltando ao programa: sábado não era o meu dia, pois não apenas aquele foi o episódio mais irritante que poderia ser veiculado, como também uma força maior me impedia de desligar o vídeo. Eu precisava assistir até o final aquele conteúdo medonho que trazia à tela mais uma caricatura de um estereotipado país chamado Brazil, só para ter certeza de que a sua imagem no exterior continua tão igual à que sempre foi.

O tom de "originalidade" foi dado no momento em que as modelos souberam onde se passaria a próxima prova: uma chuva de papéis verde-amarela, samba como fundo musical e jurados dançando desengonçadamente com caribenhas maracas coloridas nas mãos. Afinal, tudo ao sul do Texas é praticamente a mesma coisa para a maior parte do (ignorante) público nestas bandas do norte. Ou seriam as maracas representativas de Carmem Miranda, o estereótipo-mor da brasileira que desde a década de 1940 permeia o imaginário norte-americano? Meu marido, às gargalhadas com minha fúria no olhar, trazia bananas e maçãs da cozinha e as colocava na minha cabeça. O que mais dói é que aquele programa não foi preparado por pessoas ignorantes. Refaço: ignorância é algo relativo. Tenho certeza que quem escreveu, dirigiu e/ou produziu o show estudou, viajou e saiu dos Estados Unidos pelo menos uma vez na vida. Mas é mesmo muito mais fácil e cômodo nivelar por baixo.
O episódio se passava em São Paulo, onde as modelos enfrentavam diversos desafios que culminariam na eliminação de uma delas. A recepção das moçoilas foi no Jardim Botânico, onde -- e como não? -- um grupo de mulatas em roupas minúsculas e estandartes na cabeça rebolavam o burugundum. Na primeira prova, as modelos tinham que comprar flores para levar para ninguém menos que a Girl from Ipanema. Pelo menos nesta parte eu vibrei -- não pela Garota de Ipanema, mas por ver minha amiga Verônica fazendo o papel de florista. Foi bom ter assim, tão dentro de casa e a milhares de quilômetros um rosto familiar e querido. Mas eis que a própria Garota de Ipanema, Helô Pinheiro, em carne e osso (e total falta de bom senso) desce as escadarias requebrando as cadeiras e remexendo os bracinhos bem ao estilo Carmem. Não satisfeita, ainda ensina às participantes que elas precisam saber se mover "com graça", pois foi por esta razão que se tornou musa daquela música. A esta altura, eu já estava com a cara totalmente enterrada na almofada, morrendo uma trágica morte de VPP (Vergonha Pela Pessoa, genial termo que aprendi durante minha estada carioca).
Helô Pinheiro aparece no vídeo abaixo a partir da marca de 1 minuto.
Como todo bolo que se preze tem uma cereja no topo, o programa ainda adicionou esta mega cereja de desafio: as garotas iam a uma favela para uma sessão de fotos fantasiadas de quem? De quem? Ninguém menos que Carmem Miranda! Façamos justiça: foi interessante o programa trazer a favela tão para dentro do mainstream. Neste ponto, ajuda a quebrar o preconceito de violência sempre associado a estas comunidades. Mas havia algo de bizarro e cruel naquele gritante contraste de pobreza com o luxo de belas fotos em modelos gringas e (quase todas) muito brancas. Era a miséria sendo tomada como exótica e apresentada a um público que não conhece nada ou praticamente nada daquele universo.
A falta de aprofundamento deste olhar estrangeiro sobre o país registrava (novamente) em foto e vídeo um Brasil simplificado, paradisíaco, pobre, selvagem, tropical e sensual. Um olhar estrangeiro formador de opinião que repassava para mais uma geração uma versão lugar-comum de Brasil, batida por séculos desde os tempos de Hans Staden. Não que o estereótipo não traga traços da realidade, mas por fazê-lo de maneira tão simplista e superficial acaba por se tornar nocivo, carregado de preconceitos, reduzindo a realidade a um olhar repetitivo e carregado de clichés. O próprio Brasil tem em parte culpa por este olhar reducionista, pois durante décadas vendeu em campanhas turísticas no exterior um Brasil de mulatas, samba, futebol e floresta Amazônica. Até mesmo recentemente a própria campanha pelas Olimpíadas no Rio esteve carregada com estes mesmos símbolos tão profundamente cimentados no imaginário universal. Pior ainda é quando vejo ou escuto que brasileiros continuam a propagar os mesmos velhos conceitos. Outro dia num restaurante mexicano o dono, quando soube minha nacionalidade, veio me dizer que conheceu uma brasileira em San Antonio, Texas, que vendia biquínis "muy, muy pequeños" e que de acordo com ela era o que as compatriotas usavam nas nossas belas e tropicais praias. Há mentira nisto? Não. Mas este tipo de situação só enfatiza o aspecto "Brasil-terra-de-mulher-sensual-diga-se-de-passagem-puta" que permeia o imaginário da gringolândia. Está na hora desta gente bronzeada dar novos exemplos.
Conforme dissertação acadêmica do jornalista Ivan Paganotti, "os estereótipos são cruciais para a assimilação e reprodução de conceitos complexos, e tem um efeito positivo (...): oferecem um denominador comum a partir dos quais ( as pessoas) podem construir suas narrativas mais aprofundadas. Mas a armadilha simplificadora dos estereótipos persiste: quando não mais condizem com a situação que representam, eles precisam ser discutidos, transformados e, quando necessário, negados. (...) É cômodo basear a cobertura (jornalística) em pressupostos, alimentando as pré-concepções com dados, histórias e interpretações que reafirmam o que o público já sabe sobre a realidade ou, no pior cenário, repetir conceitos ideologicamente enviesados que simplesmente não condizem com a verdade." Porque sabemos (ou não?), que o Brasil é um país diverso e complexo, muitas vezes incompreensível até mesmo para nós brasileiros, que vai muito além destas representações batidas. Um país que tem pobreza sim, mas também progresso. Um país que produz e exporta aviões, possuidor de belas cidades, caatinga e serrado -- e não apenas praia e floresta amazônica--, e dono de uma produção cultural de alto nível em cinema, teatro, literatura, artes plásticas e dança (muito além do puro samba e rebolado). Um país empreendedor, com espaço para erudição, ciência e tecnologia. Para ser levado a sério, o Brasil precisa vender estes conceitos. Senão, corre o risco de ser eternamente um enlatado Brazil com prazo de validade vencido.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Dia da Carreira na high school (e algumas considerações sobre o trabalho e uma vida ordinária)
Na semana passada fui convidada para contar as delícias de uma carreira em marketing para cinco turmas de formandos no Dia da Carreira da United High School em Laredo. O convite chegou como um suco concentrado de açaí com gengibre na veia que trafega diretamente ao meu ego, levantando meu ânimo de dona de casa ao me fazer voltar à minha personagem eu-profissional. Já estava até esquecendo a temperatura daquele friozinho na barriga antes de uma apresentação -- e olha que já fiz tantas, quase sempre de sucesso, mas também já fiquei à beira de levar tomates da platéia. Naquela manhã fria e molhada de um outono que chegou tarde, diante de estudantes adolescentes que ainda têm a vida inteira pela frente, eu refleti em silêncio sobre minhas escolhas profissionais, meu atual momento de desemprego enquanto aguardo uma licença para trabalhar e o que é que eu farei com o resto da vida inteira que também tenho pela frente.
O convite partiu de uma amiga brasileira que é professora desta escola pública, situada num prédio recém-construído que custou US$ 57 milhões. Só a estátua de um longhorn, o boizão de mega-chifres símbolo do Texas e da escola, custou US$ 110 mil. Com uma estrutura física de fazer cair o queixo -- salas altamente equipadas com computadores e audiovisual, biblioteca gigantesca repleta de desktops, academia física de primeira linha, aulas de culinária com cozinha industrial, entre outras amenidades -- era certamente melhor do que a maioria das universidades públicas que já visitei no Brasil. Certamente melhor do que a UFPE quando lá estudei em 1996, onde mal havia máquinas fotográficas para as aulas de fotografia. Mas como em terra de cego quem tem um olho é cego também, minha amiga professora da United High School conta que a hipocrisa local não permite, por exemplo, que os estudantes tenham aulas de educação sexual -- a pedido dos pais, a propósito. Em pelo menos uma das suas turmas há três garotas de menos de 17 anos que já têm filhos. Os professores são instruídos a não tocarem no assunto. Aulas sobre drogas são permitidas, inclusive há um senhor autorizado a andar com uma maleta cheia de exemplares das drogas mais consumidas instruíndo os estudantes a manterem-se longe delas. Vá entender.
Como grande perfeccionista que sou, preparei apresentação de PowerPoint, busquei exemplos de produtos e ações com os quais os estudantes se identificassem e treinei minha fala por diversas vezes, mentalizando uma sala repleta de alunos interessadíssimos no que eu tinha a lhes dizer. Meu marido tirou o maior sarro de mim, me chamando de teacher's pet, ou "bichinho de estimação do professor", apelido muito comum por aqui para quem é estudante certinho e faz amizade com professores. Reconheço, sou bem geek mesmo, vulgo CDF, e até hoje mantenho contato com alguns professores da universidade onde me formei.
Havia vários profissionais naquela manhã fazendo visitas de sala em sala: advogados, policiais, bombeiros, pastores de igreja, médicos e até onde sei, apenas eu de marketing. Também apenas eu utilizando PowerPoint, mas e daí? Tenho certeza que me diverti mais do que qualquer outro palestrante convidado e os estudantes mostraram-se super interessados, fazendo várias perguntas. Exceto por uma aluna que queria cursar faculdade de marketing, nenhum estudante tinha noção da disciplina. Gostei de me ver exercendo aquele papel professoral, passando adiante um pouco do conhecimento que adquiri ao longo de 10 anos de carreira. Me fez até repensar que tipo de emprego vou procurar quando for chegada a hora. Se eu pelo menos consegui motivar um aluno que seja -- nem falo necessariamente para a profissão de marketing, mas para ingressar na universidade, já que o índice de alunos que completam o high school em Laredo é de apenas 50% -- eu serei eternamente grata por ter tido aquela chance de conversar com as turmas. É calmante e acalorada a sensação de ajudar alguém que precisa de orientação. Um garoto perguntou se eu gostava do que faço. Respondi que sim e tentei ser o mais convincente possível (acho que consegui), sem o cinismo de quem já viu muito ao longo dos anos, exaltando o dinamismo de uma área que está sempre se modificando para melhor atender às necessidades e desejos dos consumidores que todos somos. Mas aquela simples pergunta me trouxe algumas reflexões.
Aprendemos que o trabalho enaltece o ser humano. Até aí, verdade. Os aprendizados da jornada profissional de fato contribuem para o nosso crescimento pessoal. Precisamos produzir, criar, e o trabalho nos traz esta possibilidade. Nasci num meio proletário-classe-média, ainda que um proletariado intelectual que usava o cérebro para trazer para casa o arroz e feijão de cada dia. Entre os valores aprendidos na infância estavam o de que o trabalho é honrado e que deve-se trabalhar para ganhar o seu. Eu e meus irmãos fomos ensinadas a termos ambições e a sermos financeiramente (além de emocionalmente) independentes. Eu e minha irmã fomos doutrinadas especificamente a jamais dependermos de homem algum. Valores que certamente passarei adiante para meus descendentes. Ao mesmo tempo, cresci com aquele desejo nutrido por 99,99% dos humanóides de quem sabe um dia eu ganharia tanto dinheiro a ponto de não precisar mais trabalhar, ou de apenas fazer projetos quando me desse vontade, sem que minha existência física neste mundo dependesse deles. Porque convenhamos, para a maioria de nós que trabalha para sobreviver, por mais que se goste da profissão e do trabalho que se escolhe a verdade é que no fundo é trabalho. Trabalho oposto a lazer e descanso. Trabalho para onde temos que nos deslocar de segunda a sexta, enfrentando ônibus, metrô e trânsito e passando mais tempo com seus colegas de trabalho do que com sua família e amigos. Como a maioria das pessoas do meu círculo de amizades, escolhi até quatro meses atrás labutar pegando no batente em horário comercial, mas quase sempre passando da hora sem ganhar hora-extra por isto. Ironias a parte, eu deveria inclusive ficar feliz por ter ganhado uma promoção para gerente e, portanto, deveria fazer hora extra quando possível sem ganhar um centavo a mais por isto, pois era "cargo de confiança". Doei corpo e alma para trabalhar em empresas onde, com o salário que eu recebia -- ainda que considerado um bom salário para padrões brasileiros -- não teria condições de ser compradora dos produtos que eu mesmo vendia. No passado isto já rendeu revoluções, mas hoje calamos a boca devivo às outras amenidades que conseguimos com o fruto das nossas noites mal-dormidas e das poucas horas diárias dedicadas ao lazer (simplesmente pela total impossibilidade de se ter tempo livre com frequência, uma vez que da hora que se levanta pela manhã em função do trabalho até o momento de se chegar em casa à noite já se passaram entre 13 e 14 horas; reserva-se duas ou três horas para descomprimir e torna-se necessário encostar a cabeça no travesseiro para começar tudo novamente na manhã seguinte). Claro, há um batalhão de pessoas na pior e eu aqui reclamando do meu risoto de camarão. Apenas um porém: isto não chega a ser uma reclamação, apenas uma constatação do óbvio, das coisas como elas são.
Agora me encontro num momento particular em que estou sem emprego porque ainda não tenho permissão para trabalhar neste país. E dependendo do meu marido para o frango-com-macarrão de todos os dias. Há cinco meses não trabalho fora de casa: ganhei o nobre título de rainha do lar. Virei pilota de fogão, algo que também pode ser extremamente cansativo e enfadonho, mas que neste momento não chega a me incomodar. Divido o meu dia entre a cozinha, o computador, as aulas de violão, a academia, a cuidar dos animais de estimação e o supermercado. Diariamente alguém dos Estados Unidos ou do Brasil me pergunta quando voltarei a pegar no batente. Ainda que minha permissão de trabalho só saia daqui a três ou seis meses, semanalmente meu marido me pergunta se já andei pesquisando empresas em Houston, para onde nos mudaremos em breve. E cada vez mais percebo novamente o óbvio: que somos julgados pelo trabalho que temos ou que não temos, e que há uma pressão enorme em ter que se trabalhar. Ou em ter que produzir algo, qualquer coisa que não seja tão ordinário como esta vida doméstica que atualmente vivo. Como já sabemos, os playboys de antigamente, que passavam a vida entre festas e iates sem jamais bater ponto, já não têm o mesmo status dos playboys de agora que trabalham pela ambição de fazer mais dinheiro, por poder, ou quem sabe até por prazer. A tônica da modernidade dita que se você não precisa trabalhar, então tem que ser patrão. Agora, uma heresia: não sou playgirl e a verdade -- e preciso gritar -- é que não estou sentindo a menor falta do trabalho. Daquele trabalho que me trouxe tanto e me fez chegar até onde estou hoje (olhando por um lado bem simplista, fui eu quem comprei minha passagem e fiz toda a minha mudança para os Estados Unidos; tudo com os reais contados do meu suor). Nem estou com pressa de produzir nada além deste blog, nem de inventar outros projetos, outros hobbies, enfim. Tem horas que a gente tem que ser ordinário mesmo, até porque no meu caso sei que isto não será para sempre. Tem horas que a gente tem que apertar o botão de pause pessoal para poder digerir tudo o que não tivemos tempo de fazê-lo porque não tínhamos tempo.
Não ganhei na loteria nem me casei com um homem rico. O dinheiro está contado e para mantermos o padrão que tínhamos antes do casamento eu terei que voltar às origens muito em breve. O que farei com gosto quando a hora chegar, dando o melhor de mim para a empresa que me contratar. Já tenho um plano traçado, e o desejo de ser patrão também está lá, me servindo de cenourinha nesta corrida chamada vida. Mas tudo dentro do seu tempo.
O convite partiu de uma amiga brasileira que é professora desta escola pública, situada num prédio recém-construído que custou US$ 57 milhões. Só a estátua de um longhorn, o boizão de mega-chifres símbolo do Texas e da escola, custou US$ 110 mil. Com uma estrutura física de fazer cair o queixo -- salas altamente equipadas com computadores e audiovisual, biblioteca gigantesca repleta de desktops, academia física de primeira linha, aulas de culinária com cozinha industrial, entre outras amenidades -- era certamente melhor do que a maioria das universidades públicas que já visitei no Brasil. Certamente melhor do que a UFPE quando lá estudei em 1996, onde mal havia máquinas fotográficas para as aulas de fotografia. Mas como em terra de cego quem tem um olho é cego também, minha amiga professora da United High School conta que a hipocrisa local não permite, por exemplo, que os estudantes tenham aulas de educação sexual -- a pedido dos pais, a propósito. Em pelo menos uma das suas turmas há três garotas de menos de 17 anos que já têm filhos. Os professores são instruídos a não tocarem no assunto. Aulas sobre drogas são permitidas, inclusive há um senhor autorizado a andar com uma maleta cheia de exemplares das drogas mais consumidas instruíndo os estudantes a manterem-se longe delas. Vá entender.
Como grande perfeccionista que sou, preparei apresentação de PowerPoint, busquei exemplos de produtos e ações com os quais os estudantes se identificassem e treinei minha fala por diversas vezes, mentalizando uma sala repleta de alunos interessadíssimos no que eu tinha a lhes dizer. Meu marido tirou o maior sarro de mim, me chamando de teacher's pet, ou "bichinho de estimação do professor", apelido muito comum por aqui para quem é estudante certinho e faz amizade com professores. Reconheço, sou bem geek mesmo, vulgo CDF, e até hoje mantenho contato com alguns professores da universidade onde me formei.
Havia vários profissionais naquela manhã fazendo visitas de sala em sala: advogados, policiais, bombeiros, pastores de igreja, médicos e até onde sei, apenas eu de marketing. Também apenas eu utilizando PowerPoint, mas e daí? Tenho certeza que me diverti mais do que qualquer outro palestrante convidado e os estudantes mostraram-se super interessados, fazendo várias perguntas. Exceto por uma aluna que queria cursar faculdade de marketing, nenhum estudante tinha noção da disciplina. Gostei de me ver exercendo aquele papel professoral, passando adiante um pouco do conhecimento que adquiri ao longo de 10 anos de carreira. Me fez até repensar que tipo de emprego vou procurar quando for chegada a hora. Se eu pelo menos consegui motivar um aluno que seja -- nem falo necessariamente para a profissão de marketing, mas para ingressar na universidade, já que o índice de alunos que completam o high school em Laredo é de apenas 50% -- eu serei eternamente grata por ter tido aquela chance de conversar com as turmas. É calmante e acalorada a sensação de ajudar alguém que precisa de orientação. Um garoto perguntou se eu gostava do que faço. Respondi que sim e tentei ser o mais convincente possível (acho que consegui), sem o cinismo de quem já viu muito ao longo dos anos, exaltando o dinamismo de uma área que está sempre se modificando para melhor atender às necessidades e desejos dos consumidores que todos somos. Mas aquela simples pergunta me trouxe algumas reflexões.
Aprendemos que o trabalho enaltece o ser humano. Até aí, verdade. Os aprendizados da jornada profissional de fato contribuem para o nosso crescimento pessoal. Precisamos produzir, criar, e o trabalho nos traz esta possibilidade. Nasci num meio proletário-classe-média, ainda que um proletariado intelectual que usava o cérebro para trazer para casa o arroz e feijão de cada dia. Entre os valores aprendidos na infância estavam o de que o trabalho é honrado e que deve-se trabalhar para ganhar o seu. Eu e meus irmãos fomos ensinadas a termos ambições e a sermos financeiramente (além de emocionalmente) independentes. Eu e minha irmã fomos doutrinadas especificamente a jamais dependermos de homem algum. Valores que certamente passarei adiante para meus descendentes. Ao mesmo tempo, cresci com aquele desejo nutrido por 99,99% dos humanóides de quem sabe um dia eu ganharia tanto dinheiro a ponto de não precisar mais trabalhar, ou de apenas fazer projetos quando me desse vontade, sem que minha existência física neste mundo dependesse deles. Porque convenhamos, para a maioria de nós que trabalha para sobreviver, por mais que se goste da profissão e do trabalho que se escolhe a verdade é que no fundo é trabalho. Trabalho oposto a lazer e descanso. Trabalho para onde temos que nos deslocar de segunda a sexta, enfrentando ônibus, metrô e trânsito e passando mais tempo com seus colegas de trabalho do que com sua família e amigos. Como a maioria das pessoas do meu círculo de amizades, escolhi até quatro meses atrás labutar pegando no batente em horário comercial, mas quase sempre passando da hora sem ganhar hora-extra por isto. Ironias a parte, eu deveria inclusive ficar feliz por ter ganhado uma promoção para gerente e, portanto, deveria fazer hora extra quando possível sem ganhar um centavo a mais por isto, pois era "cargo de confiança". Doei corpo e alma para trabalhar em empresas onde, com o salário que eu recebia -- ainda que considerado um bom salário para padrões brasileiros -- não teria condições de ser compradora dos produtos que eu mesmo vendia. No passado isto já rendeu revoluções, mas hoje calamos a boca devivo às outras amenidades que conseguimos com o fruto das nossas noites mal-dormidas e das poucas horas diárias dedicadas ao lazer (simplesmente pela total impossibilidade de se ter tempo livre com frequência, uma vez que da hora que se levanta pela manhã em função do trabalho até o momento de se chegar em casa à noite já se passaram entre 13 e 14 horas; reserva-se duas ou três horas para descomprimir e torna-se necessário encostar a cabeça no travesseiro para começar tudo novamente na manhã seguinte). Claro, há um batalhão de pessoas na pior e eu aqui reclamando do meu risoto de camarão. Apenas um porém: isto não chega a ser uma reclamação, apenas uma constatação do óbvio, das coisas como elas são.
Agora me encontro num momento particular em que estou sem emprego porque ainda não tenho permissão para trabalhar neste país. E dependendo do meu marido para o frango-com-macarrão de todos os dias. Há cinco meses não trabalho fora de casa: ganhei o nobre título de rainha do lar. Virei pilota de fogão, algo que também pode ser extremamente cansativo e enfadonho, mas que neste momento não chega a me incomodar. Divido o meu dia entre a cozinha, o computador, as aulas de violão, a academia, a cuidar dos animais de estimação e o supermercado. Diariamente alguém dos Estados Unidos ou do Brasil me pergunta quando voltarei a pegar no batente. Ainda que minha permissão de trabalho só saia daqui a três ou seis meses, semanalmente meu marido me pergunta se já andei pesquisando empresas em Houston, para onde nos mudaremos em breve. E cada vez mais percebo novamente o óbvio: que somos julgados pelo trabalho que temos ou que não temos, e que há uma pressão enorme em ter que se trabalhar. Ou em ter que produzir algo, qualquer coisa que não seja tão ordinário como esta vida doméstica que atualmente vivo. Como já sabemos, os playboys de antigamente, que passavam a vida entre festas e iates sem jamais bater ponto, já não têm o mesmo status dos playboys de agora que trabalham pela ambição de fazer mais dinheiro, por poder, ou quem sabe até por prazer. A tônica da modernidade dita que se você não precisa trabalhar, então tem que ser patrão. Agora, uma heresia: não sou playgirl e a verdade -- e preciso gritar -- é que não estou sentindo a menor falta do trabalho. Daquele trabalho que me trouxe tanto e me fez chegar até onde estou hoje (olhando por um lado bem simplista, fui eu quem comprei minha passagem e fiz toda a minha mudança para os Estados Unidos; tudo com os reais contados do meu suor). Nem estou com pressa de produzir nada além deste blog, nem de inventar outros projetos, outros hobbies, enfim. Tem horas que a gente tem que ser ordinário mesmo, até porque no meu caso sei que isto não será para sempre. Tem horas que a gente tem que apertar o botão de pause pessoal para poder digerir tudo o que não tivemos tempo de fazê-lo porque não tínhamos tempo.
Não ganhei na loteria nem me casei com um homem rico. O dinheiro está contado e para mantermos o padrão que tínhamos antes do casamento eu terei que voltar às origens muito em breve. O que farei com gosto quando a hora chegar, dando o melhor de mim para a empresa que me contratar. Já tenho um plano traçado, e o desejo de ser patrão também está lá, me servindo de cenourinha nesta corrida chamada vida. Mas tudo dentro do seu tempo.
domingo, 29 de novembro de 2009
As viradas do tempo
Há um tanto de ironia nestas viradas de tempo. Vai-se embora o calor de um verão impiedoso na recepção que me derretia por dentro enquanto eu tentava compreender tantas mudanças numa só vida. Chega, por fim, uma brisa fria para a cobrir a noite destas planícies texanas, mas continuo a botar lenha no meu coração. O inverno iminente igualmente traz previsões acaloradas. Em dois meses ou menos deixarei Laredo rumo à cosmopolitanidade de Houston e às milhares de urbanas oportunidades. São tantos processos: vender a casa, organizar bazar para se livrar dos descartáveis que o marido acumulou com o tempo, procurar uma nova casa na cidade que não se conhece e entender as pequenas grandes contradições inerentes à vida. Como a de se despedir tentando se enraigar. O adeus traz sempre consigo a possibilidade do nunca mais, portanto é preciso viver para se lembrar daquilo que nunca mais será. É preciso conhecer as pessoas que você nunca mais verá, é preciso rir com elas, dançar com elas, brindar com elas, comungar das suas alegrias e oferecer ambos os ombros para seus lamentos. As pessoas que chegam até você quando você não as procura. Ao menos conscientemente. No querer-ir há sempre um querer-ficar, mesmo quando a escolha é clara. Porque ali fomos nós um dia e agora somos outra coisa em movimento. Olho para frente. Daqui a dois meses ou menos tudo muda. Nova casa, nova cidade, novos amigos, novo emprego. Tudo ainda a se procurar, não há nada certo além da certeza de que estarei lá. Tudo de novo outra vez. Aprende-se a dominar a saudade. Escolhi viver todas as estações. Dormirei pensando em primaveras.
sábado, 21 de novembro de 2009
Mulheres unidas jamais serão vencidas
Para me tirar do tédio da vasta agenda social deste momento doméstico da minha vida (preparar o almoço diariamente, ir à aula de violão onde descubro que tenho talento zero, brincar com a gatinha que apareceu no jardim há cerca de três semanas, lavar a louça que não se cansa de sujar, trocar a comida das cadelinhas, ir a hidroginástica, retocar a pintura do cabelo em casa e fazer compras no supermercado), esta semana uma amiga advogada me convidou para ir a um evento da Laredo Women's Bar Association, ou Associação das Advogadas de Laredo (não, não é associação das mulheres dos bares, mas se fosse eu iria con mucho gusto). Apesar de eu não ser advogada, e mesmo temendo que fosse ser algo extremamente enfadonho, não recusei nem que me oferecessem um lavada completa de louça do almoço do dia seguinte. Ainda por cima, o evento era na Galeria 201, um dos meus lugares preferidos de Laredo, e tinha degustação de vinhos (ver post prévio sobre a Galeria aqui neste blog). Juntou a fome com a inanição, portanto não tinha como eu negar minha presença. Ainda bem que eu fui, pois a noite acabou se transformando num palco para uma reflexão sobre a força da união feminina.
A razão principal do evento era a arrecadação de fundos para uma organização que cuida de crianças em espera de adoção porque a justiça as afastou de seus pais devido a abuso e/ou negligência destes. Americanos adoram eventos para arrecadar dinheiro -- e sabem fazer isto muito bem, por sinal. Por valores que variavam de US$ 10-30, comprava-se uma rifa para o sorteio de até quatro lindas bolsas -- quase todas beeeem peruais, mas lindas -- da renomada designer americana Melie Blanco, que por sinal é irmã de uma das advogadas. Prêmio totalmente condizente com o público-alvo. Óbvio que apesar de eu ser uma semi-perua (aquela que adora um acessório e maquiagem, mas sabe ser discreta no uso), sucumbi e comprei minha rifa.
Enquanto as doações iam sendo arrecadadas, enchíamos pratinhos com aperitivos e copinhos plásticos com vinhos diversos -- o que aconteceu com vidro, oh my God? Uma elegante convidada enóloga, responsável pelo departamento de vinhos dos Supermercados HEB, nos dava uma pequena aula sobre como degustar a bebida além de dicas importantes: "se você for convidada para um jantar e não souber qual será a comida servida, leve um Pinot Noir." A platéia de aproximadamente 40 mulheres foi bastante participativa. Quase todas estávamos sentadas à uma grande mesa no meio do salão principal da pequena galeria de paredes centenárias e quadros coloridos de artistas locais. Um cantor com seu infalível órgão cantava músicas derramadamente românticas em espanhol. A advogada que estava ao meu lado me confidenciou o quanto amava este tipo de música. As mulheres conversavam, riam e interagiam. Várias vieram se apresentar para mim. "Oi, meu nome é Fulana de Tal, sou advogada particular/promotora federal/advogada criminalista". No que eu respondia: "oi, sou Desbra Vando, convidada de Fabiola Flores". Fabi, então, adicionava mais um capítulo à minha apresentação: "ela é a esposa de WB". E ali estava eu, sendo não mais eu, mas a esposa de alguém, em meio a um grupo de profissionais. Vez por outra uma se aproximava e fazia algum comentário: "você é brasileira, certo? uau, o que acha de Laredo?", ou "gosto muito do seu marido, diga 'oi' para ele por mim". O que mais que chamou atenção foi que naquele evento, na minha função de convidada de alguém, apresentada como a esposa de alguém mais, eu não me senti em nenhum momento como peixe fora d'água.
Havia um sentimento de união naquele grupo. Mulheres seguras de si, mulheres elegantes sem afetação, mulheres interessadas umas nas outras. Mulheres que sabiam ser profissionais e sabiam ser mulheres também, em todo o sentido mais feminino da palavra: comentavam como a roupa da outra estava bonita, como a torta de banana com doce de leite estava saborosa, suspiravam ao dizer o quanto gostavam da música romântica, aplaudiam com vibração quando a diretoria da Associação foi apresentada. Mulheres que se emocionavam ao colocar suas vidas pessoais em pauta para vender a idéia de ajudar a associação que cuida de crianças, como a juíza que perdeu uma gravidez há alguns meses e que pegou o microfone para contar que está em processo de adotar um filho. Mulheres que, como mulheres, também adoram dar umas alfinetadas nos homens: três delas comentavam como o juiz Fulano de Tal e o promotor Sicrano de Val não liam os novos códigos de leis e estavam totalmente defasados nas novas legislações. Todas diziam que em geral as mulheres rapidamente aprendiam as novas leis, enquanto que os homens eram mais passivos. Mulheres seguras de si e de suas convicções. Mulheres que sabem delegar e dividir os louros do sucesso com o grupo do qual fazem parte. Mulheres que não precisam provar nada para ninguém, apenas para si mesmas. Aquelas mulheres de quarta-feira à noite em Laredo pareciam felizes por estar ali, em poder trabalhar e interagir umas com as outras.
Foi inevitával não relacionar aquele evento com o contato retomado com uma amiga de colégio primário, que continua tão bonita quanto como eu me lembro dela na primeira série. Ela me escreveu coisas lindas e me falou que gostava de poesia. Eu a incentivei a criar o seu blog de poemas, pois percebi na maneira que ela me escrevia em prosa que era talentosa. Ela me respondeu que a princípio ficou com receio de criar um blog e eu achar que ela estava me invejando, já que eu tenho o meu, mas logo viu que isto era tolice, coisa de quem mora em cidade pequena e já é "gato escaldado" em inveja de interior. Óbvio que eu achei que não havia nada de invejoso nisto, e que bom que ela também, pois logo em seguida criou seu blog. Juntando este acontecimento com o evento em Laredo, pensei: somos mulheres e temos que nos unir. Sempre. Temos que nos ajudar, nos incentivar, nos motivar, sermos modelos umas para as outras. Temos que saber ser mulheres, sendo mulheres -- que falam, que riem, que se emocionam e que sabem ser firmes também. Parafraseando Che, endurecer mas sem perder a doçura. E se a inveja surgir, porque inveja é coisa de humano -- eu sinto, tu sentes, ela sente, ele sente, nós sentimos -- que esta inveja seja direcionada para superar nossas limitações, nossas tristezas e mágoas. Se eu não tivesse sentido inveja em alguns momentos da minha vida, não teria andado para frente. Gerações passadas já conseguiram tantos avanços na luta da emancipação feminina; gerações presentes seguem lutando; mas este ainda é um mundo masculino na sua maior parte, mesmo aqui na superpotência americana. O comportamento feminino é julgado tendo como base o comportamento masculino, sobretudo no âmbito profissional: em público não podemos chorar, não podemos falar alto, não podemos abrir o coração, não podemos imitar algo que nos agrada. São gestos e atitudes vistos como fracos, pois sabemos que historicamente estão associados ao comportamento feminino. Mas o bom é que a Terra gira todos os dias e nós mudamos também. Que bom que as mulheres vão se fazendo cada vez mais vozes fortes no mundo, usando o que lhes é mais feminino a seu favor. Portanto mulheres, sejam amigas, inspirem e deixem-se inspirar.
Aquela noite eu não ganhei uma bolsa bonita na rifa, mas ganhei uma lufada de ar fresco cor-de-rosa-choque.
A razão principal do evento era a arrecadação de fundos para uma organização que cuida de crianças em espera de adoção porque a justiça as afastou de seus pais devido a abuso e/ou negligência destes. Americanos adoram eventos para arrecadar dinheiro -- e sabem fazer isto muito bem, por sinal. Por valores que variavam de US$ 10-30, comprava-se uma rifa para o sorteio de até quatro lindas bolsas -- quase todas beeeem peruais, mas lindas -- da renomada designer americana Melie Blanco, que por sinal é irmã de uma das advogadas. Prêmio totalmente condizente com o público-alvo. Óbvio que apesar de eu ser uma semi-perua (aquela que adora um acessório e maquiagem, mas sabe ser discreta no uso), sucumbi e comprei minha rifa.
Enquanto as doações iam sendo arrecadadas, enchíamos pratinhos com aperitivos e copinhos plásticos com vinhos diversos -- o que aconteceu com vidro, oh my God? Uma elegante convidada enóloga, responsável pelo departamento de vinhos dos Supermercados HEB, nos dava uma pequena aula sobre como degustar a bebida além de dicas importantes: "se você for convidada para um jantar e não souber qual será a comida servida, leve um Pinot Noir." A platéia de aproximadamente 40 mulheres foi bastante participativa. Quase todas estávamos sentadas à uma grande mesa no meio do salão principal da pequena galeria de paredes centenárias e quadros coloridos de artistas locais. Um cantor com seu infalível órgão cantava músicas derramadamente românticas em espanhol. A advogada que estava ao meu lado me confidenciou o quanto amava este tipo de música. As mulheres conversavam, riam e interagiam. Várias vieram se apresentar para mim. "Oi, meu nome é Fulana de Tal, sou advogada particular/promotora federal/advogada criminalista". No que eu respondia: "oi, sou Desbra Vando, convidada de Fabiola Flores". Fabi, então, adicionava mais um capítulo à minha apresentação: "ela é a esposa de WB". E ali estava eu, sendo não mais eu, mas a esposa de alguém, em meio a um grupo de profissionais. Vez por outra uma se aproximava e fazia algum comentário: "você é brasileira, certo? uau, o que acha de Laredo?", ou "gosto muito do seu marido, diga 'oi' para ele por mim". O que mais que chamou atenção foi que naquele evento, na minha função de convidada de alguém, apresentada como a esposa de alguém mais, eu não me senti em nenhum momento como peixe fora d'água.
Havia um sentimento de união naquele grupo. Mulheres seguras de si, mulheres elegantes sem afetação, mulheres interessadas umas nas outras. Mulheres que sabiam ser profissionais e sabiam ser mulheres também, em todo o sentido mais feminino da palavra: comentavam como a roupa da outra estava bonita, como a torta de banana com doce de leite estava saborosa, suspiravam ao dizer o quanto gostavam da música romântica, aplaudiam com vibração quando a diretoria da Associação foi apresentada. Mulheres que se emocionavam ao colocar suas vidas pessoais em pauta para vender a idéia de ajudar a associação que cuida de crianças, como a juíza que perdeu uma gravidez há alguns meses e que pegou o microfone para contar que está em processo de adotar um filho. Mulheres que, como mulheres, também adoram dar umas alfinetadas nos homens: três delas comentavam como o juiz Fulano de Tal e o promotor Sicrano de Val não liam os novos códigos de leis e estavam totalmente defasados nas novas legislações. Todas diziam que em geral as mulheres rapidamente aprendiam as novas leis, enquanto que os homens eram mais passivos. Mulheres seguras de si e de suas convicções. Mulheres que sabem delegar e dividir os louros do sucesso com o grupo do qual fazem parte. Mulheres que não precisam provar nada para ninguém, apenas para si mesmas. Aquelas mulheres de quarta-feira à noite em Laredo pareciam felizes por estar ali, em poder trabalhar e interagir umas com as outras.
Foi inevitával não relacionar aquele evento com o contato retomado com uma amiga de colégio primário, que continua tão bonita quanto como eu me lembro dela na primeira série. Ela me escreveu coisas lindas e me falou que gostava de poesia. Eu a incentivei a criar o seu blog de poemas, pois percebi na maneira que ela me escrevia em prosa que era talentosa. Ela me respondeu que a princípio ficou com receio de criar um blog e eu achar que ela estava me invejando, já que eu tenho o meu, mas logo viu que isto era tolice, coisa de quem mora em cidade pequena e já é "gato escaldado" em inveja de interior. Óbvio que eu achei que não havia nada de invejoso nisto, e que bom que ela também, pois logo em seguida criou seu blog. Juntando este acontecimento com o evento em Laredo, pensei: somos mulheres e temos que nos unir. Sempre. Temos que nos ajudar, nos incentivar, nos motivar, sermos modelos umas para as outras. Temos que saber ser mulheres, sendo mulheres -- que falam, que riem, que se emocionam e que sabem ser firmes também. Parafraseando Che, endurecer mas sem perder a doçura. E se a inveja surgir, porque inveja é coisa de humano -- eu sinto, tu sentes, ela sente, ele sente, nós sentimos -- que esta inveja seja direcionada para superar nossas limitações, nossas tristezas e mágoas. Se eu não tivesse sentido inveja em alguns momentos da minha vida, não teria andado para frente. Gerações passadas já conseguiram tantos avanços na luta da emancipação feminina; gerações presentes seguem lutando; mas este ainda é um mundo masculino na sua maior parte, mesmo aqui na superpotência americana. O comportamento feminino é julgado tendo como base o comportamento masculino, sobretudo no âmbito profissional: em público não podemos chorar, não podemos falar alto, não podemos abrir o coração, não podemos imitar algo que nos agrada. São gestos e atitudes vistos como fracos, pois sabemos que historicamente estão associados ao comportamento feminino. Mas o bom é que a Terra gira todos os dias e nós mudamos também. Que bom que as mulheres vão se fazendo cada vez mais vozes fortes no mundo, usando o que lhes é mais feminino a seu favor. Portanto mulheres, sejam amigas, inspirem e deixem-se inspirar.
Aquela noite eu não ganhei uma bolsa bonita na rifa, mas ganhei uma lufada de ar fresco cor-de-rosa-choque.
domingo, 15 de novembro de 2009
La vida guacamole
Fez um domingo quente. Um domingo quente de guacamole. Domingo verde-abacate pra recomeçar novinha e esquecer que em uma semana a gente pode amadurecer até passar do ponto. Abacate com sal, azeite e limão pra lembrar que é bom ser azeda.
Fez um sol de rachar lábios e pingar suor grosso. Cada poro do tamanho de uma América Latina num coração balançando ao atlas musical que tocou Grécia e Portugal, tocou Espanha e as Arábias. Me tocou orelhas, pés, pescoço e uma coluna biônica eternamente em recuperação que sacudia tudo. O corpo subiu no sofá, ignorou o cheiro de mijo de gato que o tira-odores superpower não tirou e dançou sem parar até a exaustão, caindo em gargalhadas, lambido pelas cadelas roucas de tanto latir com a louca do sofá que gargalhava e rodopiava sozinha. Não ficou nenhuma costela no lugar, foi tudo defumado em suor. Este corpo que se recusou a tomar banho por horas depois do suadouro daria uma suculenta feijoada.
A perda de auto-controle é tão libertadora.
Fez um sol de rachar lábios e pingar suor grosso. Cada poro do tamanho de uma América Latina num coração balançando ao atlas musical que tocou Grécia e Portugal, tocou Espanha e as Arábias. Me tocou orelhas, pés, pescoço e uma coluna biônica eternamente em recuperação que sacudia tudo. O corpo subiu no sofá, ignorou o cheiro de mijo de gato que o tira-odores superpower não tirou e dançou sem parar até a exaustão, caindo em gargalhadas, lambido pelas cadelas roucas de tanto latir com a louca do sofá que gargalhava e rodopiava sozinha. Não ficou nenhuma costela no lugar, foi tudo defumado em suor. Este corpo que se recusou a tomar banho por horas depois do suadouro daria uma suculenta feijoada.
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