domingo, 1 de janeiro de 2012

De paetês e dragões

Chegou trazendo seu peculiar ar de renovação que amorna corações ao redor do mundo. O Ano Novo é assim, o caçula de três irmãos, criança ingênua e risonha que seduz multidões e reina por alguns dias até ser substituído pelo amadurecido e pragmático Resto do Ano. Adormece num canto oculto da memória apenas para reaparecer com seu esplendor de fênix e mandar o atarefado Fim de Ano tirar merecidas férias. Ano Novo carrega uma sacola dourada onde os planos, os sonhos, os desejos e as resoluções dos mortais são devidamente acomodados. Mas então chega Resto do Ano, mais racional, menos emotivo, um soldado da norma e da realidade que toma a sacola do seu irmão mais novo e a acomoda no Grande Baú Universal das Belas Coisas Esquecidas ou Eternamente Postergadas.

Durante minha existência minha contribuição ao Baú tem sido tão intensa que comecei a ganhar multas por excessos de listagem. No réveillon de 2010 para 2011 eu estava à beira da praia, sob a brisa de Tamandaré, litoral Pernambucano, me re-energizando com o amor da família após um agitado e confuso ano. No meu Moleskine de capa vermelha que carrego diariamente na bolsa (idéias e inspirações são entes saltitantes e fugazes; é preciso estar preparada para capturá-las), fiz minha listinha. Corrijo-me: minha listona. Foram tantos itens, praticamente um para cada mês do ano, que a lista já era praticamente um aborto. De 11 resoluções, várias delas emprestadas da lista de 2010, que por sua vez incluía trechos de 2009, apenas uma de fato aconteceu. Cinco eu considero parcialmente completas (começaram muito tarde no ano ou ficaram estacionados no meio do caminho) e outras cinco nem saíram do papel.

Nesta virada não teve nem coqueiro nem mar, mas levei o mesmo Moleskine para o Houstonian, um tradicional hotel de luxo, ícone da cidade, onde eu receberia 2012 com brilho, música e muita festa. Reli a lista do ano anterior. Mentalmente fiz uma penitência equivalente a 30 açoitadas nas costas com chicote de rabo de boi adornado com afiadas lâminas de gilete (por que é sempre tão mais fácil se martirizar do que se parabenizar pelas metas conquistadas?). Há dias eu já havia mentalmente escrito a lista do ano que estava por entrar. Mas era final de tarde e eu não havia dormido quase nada na noite passada. Eu precisava me conectar ao espírito de 2012, mas primeiramente eu precisava descansar meu corpo exausto de 2011. A réstia de luz que entrava na janela do quarto pedia que eu encostasse minha cabeça naquele travesseiro enorme. Obedeci as vozes do meu corpo. Ironia: não preguei os olhos por culpa das vozes da minha cabeça. Superstições e ansiedades dominavam meu cérebro nas ultimas horas do reinado de Fim de Ano. Tipo, comprei uma calcinha de paetês pretos para combinar com o meu vestido. Calcinha preta no ano novo, como assim? Não fiz banho de sal grosso com ervas. Será que 2012 já está malfadado antes mesmo da sua entrada? Por que não gastei os U$ 5.000 com passagens áreas para mim e meu marido passarmos o final do ano no Brasil com minha família? Poderia ter economizado aqui, guardado mais ali. E será que um dia eu consigo terminar o roteiro de um filme? E se os Maias estiverem certos e o mundo acabar em 2012? E os livros que comecei a ler e não terminei? E aquele projeto que preciso entregar no trabalho? Tentava controlar os pensamentos sem direção. Onde estavam os ensinamentos da meditação quando eu mais necessitava deles?

Decidi então, em apenas alguns minutos, que 2012 seria o ano de quebrar com tradições, a começar pelo próprio reveillon. 2012 seria sua coisa própria, algo de original em meio à minha mesmice. À meia-noite eu não me equilibraria no meu pé direito, não beijaria a boca do meu marido nem invocaria oração para São Jorge. Fiz apenas ligeiras listas mentais focadas não em objetivos práticos e mundanos, como “voltar a fazer aulas de violão”, mas em transformações mais profundas e espiritualizadas, como prestar atenção à minha linguagem corporal e nas reações que elas provocam nos meus interlocutores. Ouvir mais e falar menos. Desbloquear as correntes que me auto-imponho para subconscientemente me boicotar e não levar as listas de resoluções adiante. Não mais do que três e pronto. Ponto.

Entrei no banho morno, sem sal nem ervas. Caprichei na maquiagem. Fiz o cabelo. Vesti o virgem vestido de paetês prata selecionado especialmente para a ocasião. Uma ceia saborosa, champanhe inesgotável, muitas risadas com os recentes amigos Houstonianos e uma saudade inevitável da minha família situada entre o sertão e o litoral pernambucano. A banda tocava clássicos de Sinatra. Senhores de ternos bem aprumados bailavam com suas elegantes senhoras. Ten, nine, eight, seven, six, five, four, three, two, one...HAPPY NEW YEAR! Confeti e serpentina disputavam o espaço com centenas de balões de gás hélio. Ano Novo triunfante subia ao palco, criança linda e risonha carregando sua sacola de humanas resoluções e desejos, espalhando mais esperança do que todas as luzes e lantejoulas daquele salão de baile.

Como dei uma trégua às tradições, não vi o dia raiar em 2012. Porém confesso que hoje, ao entrar num mercadinho ao lado de casa para comprar um sanduíche neste preguiçoso final de tarde de 01 de janeiro, senti algo acolhedor e especial. A tradição veio a mim. Ao lado dos vinhos, um Lampião em preto e branco. Acima do freezer de pizzas, um enorme painel a óleo de São Jorge matando o dragão. Imagens indecifráveis para americanos fora do contexto, mas totalmente inseridas na minha brasilianidade. Descubro que os quadros são de um artista plástico baiano que transita entre Houston e Austin. Há exatamente um ano na virada de 2011, eu vestia uma camiseta de São Jorge. Dois dias depois eu comprava no ateliê de Calazans no Alto da Sé de Olinda um quadro do casamento de Lampião e Maria Bonita. Não acredito em coincidências. É preciso entender os avisos. Que em 2012 eu seja promovida a cangaceira dominadora dos dragões que aparecerem no reinado de Resto do Ano.

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